Este post faz parte de uma tradição do Planet Geek de desafiar os blogues que lhe estão agregados a escrever mensalmente sobre um tema específico.
Para um nerd dos computadores, tanto o tema «mulheres» como «tecnologia» são importantes, desde que sejam abordados em separado.
No que toca às coisas da tecnologia, um nerd comportar-se-á perante as mulheres como um certo imperador se comportou um dia perante Roma: «A César o que é de César», meninas.
O lema poderá então ser: mulheres para um lado, tecnologia para outro – e, se tiver de existir uma aproximação, que seja feita sempre através de um intermediário benevolente e sabedor, isto é, o macho nerd.
O que acontece geralmente é que a maioria das mulheres não vê no domínio de uma determinada tecnologia motivo de grande vaidade ou orgulho. E essas estão dispostas a conceder ao nerd que as ajuda todo o protagonismo que ele desejar. Poderão até elogiá-lo de forma mais acalorada, insuflar-lhe o orgulho com um sorriso de admiração, porque o que elas querem é que aquela merda fique a funcionar o mais depressa possível.
Algumas mulheres têm formas muito subtis de resolver um problema prático e costumam ser sempre bem sucedidas. O seu sentido prático é tal que, se for preciso, fazem-se de parvinhas só para que o nerd fique com uma juba de leão e se torne rei do desktop feminino.
O que muitos nerds talvez desconheçam é que a responsável pelas bases do que viria a ser a linguagem de programação foi precisamente uma mulher.
Tão importante foi o seu trabalho que, em 1979, o Departamento de Defesa americano designou uma recém-criada linguagem de programação com o seu nome de baptismo: Ada.
Mais extraordinário ainda é verificar que Ada (na foto) nasceu fruto de um amor impossível entre uma mulher com espírito científico, Anne Isabelle Milbanke, e um homem com alma de poeta, Lord Byron.
Vejam lá como são as coisas. Não é notável saber que na concepção da linguagem de programação dos futuros computadores estiveram envolvidos Ciência, Amor e Literatura? Sinceramente não posso imaginar nada de mais geek do que isto.
A relação das mulheres com a tecnologia moderna, não obstante todas as anedotas que se possam contar, começou por ser de absoluto triunfo feminino. E é a história dessa relação que passo a contar.
Ada Lovelace Byron nasceu de uma ligação entre o poeta inglês Lord Byron e Anne Isabelle Milbanke. Estava-se no ano de 1812. O casamento foi um desastre. Milbanke separou-se de Byron um mês depois do nascimento de Ada.
Byron tinha fama de homem promíscuo. Milbanke sabia-o, mas sempre pensou que o casamento e o seu amor o pudesse reabilitar. A decepção deve ter sido enorme porque, logo após o nascimento da filha, traiu-a com a própria meia-irmã, Augusta.
Um marido infiel e incestuoso era demais para Milbanke. Com a ajuda dos familiares, conseguiu obter o divórcio e renegou Byron para sempre. Nunca mais o perdoou.
Ele escreveu poemas nos quais implorava à ex-mulher que a deixasse conhecer a filha, mas Milbanke manteve-se inflexível. Byron morreu em 1823, na Grécia, e Ada nunca chegou a conhecer o pai.
O fantasma do poeta esteve sempre presente no destino de Ada. A mãe estava tão determinada em que a filha não seguisse as pisadas paternas que a encorajou a estudar disciplinas que considerava importantes para contrabalançar possíveis (e perniciosas) influências poéticas: Música e Matemática.
Não precisou de se preocupar muito. Ada, aos 16 anos, já tinha feito o design para uma máquina voadora e era clara a sua enorme vocação para as matemáticas.
Mãe e filha viviam entre a elite da sociedade londrina. Nessa época – finais do século XIX – não existiam cientistas profissionais. O termo «cientista» só viria a surgir anos depois, em 1836, criado por William Whewell (filósofo e historiador da Ciência).
Era habitual nesses tempos que os «cavalheiros» endinheirados que não estivessem entretidos com assuntos militares, clérigos ou políticos gastassem o tempo e a fortuna com disciplinas como a Botânica, a Geologia ou a Astronomia.
Ada e a mãe moviam-se neste círculos – e foi do encontro com um desses ilustres «cavalheiros» que resultou uma frutuosa parceria.
Ela tinha 17 anos quando foi apresentada a Charles Babbage. Babbage ocupava a cadeira de Professor Lucasiano de Matemática em Cambridge – a mesma posição que já tivera o grande Isaac Newton. O actual Professor Lucasiano da Universidade é o físico Stephen Hawking.
Babbage era também conhecido por ter inventado a chamada Máquina Diferencial – uma elaborada máquina de calcular mas cujas bases de funcionamento pouco tinham a ver com as máquinas actuais.
Iniciou com a jovem Ada uma longa correspondência onde os tópicos principais eram a Matemática e a Lógica. Um ano depois, Ada casou-se com William King, dez anos mais velho e que haveria de herdar um título de nobreza em 1838, fazendo da jovem cientista Ada a respeitável Condessa Lovelace. Ada teve três filhos.
Entretanto, Babbage travava uma outra luta. Ainda nem sequer tinha concluído a primeira máquina e já pensava num novo tipo de calculadora à qual chamou Máquina Analítica.
O Parlamento Inglês não quis financiar uma nova máquina enquanto a primeira não estivesse acabada, e Babbage encontrou financiamento no estrangeiro.
Em 1842, Louis Menebrea, um matemático italiano, publicou um ensaio em francês sobre a Máquina Analítica. Babbage contratou a velha amiga para traduzir o documento – e foi nesse processo de tradução que ela viria a criar as bases da linguagem de programação.
Inteligente, muito dotada para as matemáticas, Ada não se limitou a traduzir: encheu o documento de notas sobre as possíveis aplicações de uma máquina desse tipo e desenvolveu os algoritmos que viriam a permitir à máquina computar os valores de funções matemáticas.
Ada era tão visionária que chegou a prever o futuro uso dessa máquina: fazer gráficos, compor música e servir como ajuda aos cálculos feitos por cientistas e comerciantes. É preciso ver que estamos a falar de alguém que viveu há 150 anos.
Ada nunca foi uma mulher saudável: aos 13 anos ficou paralítica e parcialmente cega, mas acabou por recuperar. Ao longo da sua vida, contudo, foi sempre assolada por inúmeros problemas de saúde. Acabou por morrer em 1852, aos 37 anos, de cancro.
Durante muito tempo Ada não conheceu o rosto do pai. Só quando atingiu a maioridade pôde ver um retrato pintado do poeta que a mãe escondera. Nessa altura já Byron tinha morrido. Ada repousa agora junto dele, na Abadia de Newstead.
Talvez Byron tenha pensado na sua filha Ada quando escreveu: «Os espinhos que me feriram foram produzidos pelos arbustos que plantei.»






























6 comentários
É por artigos como este, que continuo e continuarei a vir todos os dias, visitar este blogue. É deveras impressionante as “histórias” da História que vocês vão desencantar, sabe-se lá em que baús. Espero que continuem nesta senda, pois vão muito bem. Muitos parabéns.
Cumprimentos e bom trabalho
António
Obrigado, António.
São posts muito divertidos de se escrever. Adoro fazê-los.
Um abraço
Se soubesse escrever como tu, casava-me já hoje
Parabéns! Uma vez disses-te que para ti, o melhor blog português era o Obvious, mas não é. Bitaites, este sim é o melhor blog português…
Sabia a historia do Lord Byron e da Anne Isabelle. Soube do nascimento da Ada. Mas de resto é tudo novidade.
Thanks.
A estória é muito boa, sem dúvida, mas eu só fiquei com uma dúvida: Como é que Byron, que morreu em 1823, chamava à mulher “minha querida cientista” se o termo cientista apareceu apenas em 1836, criado por William Whewell?
Bem observado, Sérgio. Argolada minha.
Já retirei essa parte.