→ 23/10/2006 @18:19

Anedotas de portugueses

É divertido ver brasileiros gozando com a nossa pronúncia de português europeu. Falam como se tivessem acabado de arrancar um dente. Os que eu vi tornam-se rígidos, falam mais devagar, como se medissem cada frase, o tom de voz fica mais lento, austero e pomposo.
Por outro lado, quando imita o brasileiro – e para nós é muito mais fácil fazê-lo por causa das malditas telenovelas –, o português faz caretas, gesticula com exagero, acentua as vogais como se as vogais fossem pastilhas elásticas, torna-se mais infantil.
Será que é assim que os dois povos se imaginam? Os brasileiros vendo os portugueses como gente rígida, austera e pomposa e nós vendo-os a eles como povo carnavalesco e alegre, mas infantil e inconsequente?

Manuel, português, desde criança era amigo de Fernando, brasileiro. Em uma viagem de Manuel à sua terra natal, sofreu um infarto e morreu. Fernando fica sabendo e decide ir ao funeral de seu amigo. Ao chegar ao lugar onde estavam velando o corpo, Fernando nota que ao lado do caixão se encontrava uma bacia enorme, cheia de creme facial e hidratante, e o mais curioso é que os amigos, que iam dar os pêsames à viúva, que se encontrava sentada ao lado da bacia de cremes, introduziam a mão dentro da bacia e massageavam o corpo de Manuel. Fernando, por respeito, decide fazer o mesmo, mas foi tanta sua curiosidade que se aproximou cuidadosamente da viúva e em voz baixa lhe perguntou:
- Por que todos estão passando creme em Manuel? Foi por algum pedido dele em vida? Ou é uma tradição?
A viúva, dirigindo-lhe o olhar cheio de tristeza, lhe respondeu:
- Mas ora pois, pois! Então tu não sabes que o Manuel pediu para ser cremado?
Anedota enviada pelo Sérgio

Recém chegado ao Brasil, está Pedro Alvares Cabral a entregar um contrato aos naturais do Novo Mundo. Então o índio brasileiro pergunta:
- Ó Cabral, que está escrito neste contrato?
Cabral responde:
- Que nós portugueses podemos levar o ouro todo, a prata toda, e o pau-brasil que quisermos.
Diz o índio:
- E nós brasileiros o que ganhamos?
Responde Cabral:
- O direito de contarem anedotas sobre portugueses estúpidos nos próximos quinhentos anos.

Nada bate uma boa anedota, tanto cá como lá, sobretudo se tiver toda uma tradição a apoiá-la. Em Portugal fazemos piadas com alentejanos e pretos. No Brasil, os alentejanos somos nós. Nós, neste caso, significa sermos os “galegos”, os gajos que se chamam Manuel ou Joaquim, que são burros, brutos e gananciosos, e estão casados com uma mulher que se chama sempre Maria e que, nas versões menos benevolentes, tem quase tanto bigode como o respectivo marido.

É curioso que nas anedotas brasileiras os portugueses sejam retratados como gente que só quer ganhar dinheiro, seja de que forma for, quando, na realidade, a ideia que temos de nós próprios é que somos mais especialistas em esbanjá-lo. Mas talvez a explicação para esta visão esteja numa crónica de João Melão Neto, político e jornalista brasileiro, intitulada “A última do brasileiro”.

Enquanto nós ríamos das piadas do português, eles, com dedicação e esforço, iam construindo seus impérios. Foram portugueses “burros”, “ingénuos”, como António Pereira Ignácio, Valentim dos Santos Dinis, José Alves Veríssimo que erigiram alguns dos maiores grupos empresariais do Brasil. (…) Poucos os portugueses que para cá vieram, desde o inicio do século, permanecem pobres. Enquanto, sentados nos bares, rimos da última do português, o dito cujo vai rodando a manivela da sua caixa registadora, fornecendo a cachaça-combustível da espiritualidade brasileira.

Esta explicação poderá servir como um retrato implacável da sociedade brasileira, mas não explica a origem do anedotário português no Brasil. Para esta existem dois tipos de explicação: vingança e ressentimento provocados pelo colonialismo português e “invenção” dos primeiros portugueses do Brasil, estabelecidos há mais tempo na terra e que não viam com bons olhos a chegada de novos (e rivais) emigrantes vindos de Portugal. Seguem-se excertos de dois trabalhos que representam ambos os pontos de vista.

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