Aceito qualquer crítica que possam fazer à série. Que é sempre mais do mesmo, ou seja, o paciente mostra sintomas que mais ninguém consegue diagnosticar e é então entregue aos cuidados do departamento do Dr. House até que este, inevitavelmente, acaba por descobrir a causa – e por aí fora. É verdade – é sempre assim.
Entre as histórias de House (passa na Fox mas também na TVI) e os livros policiais mais clássicos do género Agatha Christie, existe uma grande semelhança: temos um detective (o médico) cuja função é descobrir – por métodos científicos mas também por uma intuição genial e irreverente – o verdadeiro culpado (a doença).
Esta visão de House como uma história policial é levada ao extremo por certas páginas especializadas na série – esta, por exemplo, é a mais completa que conheço – as quais comparam o personagem principal com Sherlock Holmes, não só pelo brilhantismo intelectual como pelos vícios e maneirismos. Enquanto Holmes tem o seu Watson, House possui uma equipa completa de Watsons – os três especialistas que o assistem na resolução dos problemas médicos e que são tratados como lixo pelo chefe.
Eu não vejo muita televisão, mas gosto desta série. Não é a lengalenga médica que me atrai – por vezes nem percebo do que raio estão a falar – mas a concepção daquele personagem do médico e a forma como o actor Hugh Laurie a agarrou.
House é então um especialista em diagnósticos, o tipo para quem os outros médicos (que o detestam) se viram quando não conseguem perceber o significado dos sintomas do doente. É coxo – não consegue sequer andar sem usar uma bengala. É viciado numa droga – Vicodin – sem a qual não aguentaria as dores constantes nos músculos da perna atrofiada. E, tendo como principal missão salvar a vida das pessoas, comporta-se como se as desprezasse – o que na maioria das vezes é verdade.
House não poupa os seus próprios doentes. Um destes – homem muito religioso que se encontra à beira da morte – fala com o médico sobre a sua fé inabalável e, de olhos brilhantes, menciona as «conversas» com Deus: «Se fala com Deus, é religioso» – responde House. «Se Deus fala consigo, então você é psicótico.»
Há séries que valem por um único personagem – esta é uma delas. Parece-me excessivo que tenha sido elevada ao estatuto de culto como se fosse uma obra-prima. Isto não é o Six Feet Under. Tirando House, é tudo um bocadinho fraco. Os cenários parecem-me irrealistas, mesmo para os padrões americanos – falo das condições soberbas do hospital e da prática da medicina propriamente dita. E os personagens secundários são mais bengalas para House usar.
Mas é sempre porreiro quando vemos que a principal razão do sucesso de uma série tem como base o processo de criação de um personagem e o magnífico trabalho de um actor – há criatividade e talento. Por outras palavras: há sucesso pelas razões certas.
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