É mais um massacre em escolas dos Estados Unidos: um rapaz de 17 anos do Minnesota, Jeff Weise, assassina nove pessoas – quatro adultos e cinco estudantes da idade dele. Primeiro mata os avós na sua casa em Red Lake, uma reserva índia junto à fronteira do Canadá. Depois pega numa espingarda e na pistola do avô – agente da Polícia Tribal – e dirige-se ao liceu.
O primeiro a morrer é o vigilante da escola. A seguir mata uma professora e dispara sobre os alunos. Anda pelo corredor, de sala em sala, procurando abrir as portas que os colegas, em pânico, tentam trancar. Os que sobrevivem recordarão Weise sorrindo e acenando enquanto disparava – como um político agradecendo os aplausos da multidão. Depois do massacre, o Anjo da Morte – um dos seus dois nicknames, o outro era NativeNazi – escreve o capítulo final da sua história, suicidando-se com um tiro na cabeça.
A história de Weise talvez tenha começado muito antes, aos dez anos, quando o pai se suicida e mãe sofre um acidente de carro tão grave que fica hospitalizada, com problemas cerebrais irreversíveis.
Ou então mais tarde, a 19 de Março de 2004, quando faz pesquisas na Internet para um trabalho escolar sobre o III Reich e encontra o fórum de discussão de um grupo neo-nazi: Libertarian National Socialist Green Party (LNSGP).
Ao contrário de outros grupos do género que apelam à supremacia branca, o LNSGP defende um nacional-socialismo para toda a espécie humana mas com um sistema de segregação racial.
O grupo vislumbra uma sociedade geneticamente limpa, baseada num realismo natural que determina que todas as tribos devem viver separadas uma das outras de forma a garantir a sobrevivência e evitar a assimilação. O grupo vê a sociedade moderna como uma demente democracia liberal que promove a supremacia do indivíduo e não do colectivo. Os políticos são manipulados por uma oligarquia internacional e rica que apenas procura o seu próprio lucro. O resultado é a destruição ambiental e a perda de heranças étnicas e culturais, entre outras consequências.

Target: animação flash enviada por Weise ao site The Smoking Gun, cinco meses antes da matança. Ele já tinha o «filme» todo dentro da cabeça, incluindo o happy ending do suicídio
Estas ideias do Libertarian National Socialist Green Party agradam ao jovem Weise, um índio, que se apresenta ao grupo como Todesengel (Anjo da Morte em alemão): «Olá a todos. Chamo-me Jeff Weise, sou um nativo americano de uma reserva índia no Minnesota chamada Red Lake. Estou interessado em juntar-me ao grupo, pois apoio os vossos ideais. Mesmo sendo muito novo, eu gostava de me juntar a vocês.»
Weise é recebido de braços abertos. A sua coragem em abraçar a causa é elogiada por todos. Weise afirma-se um admirador de Adolf Hitler, dizendo que as suas grandes ideias são deliberadamente ignoradas; queixa-se das mentes fechadas de amigos e colegas, impossíveis de converter à superioridade dos ideais do nacional-socialismo; defende a revisão da História quando se refere ao Holocausto nazi: «Só vi fotografias de judeus esfomeados e de judeus acorrentados. Nunca vi fotografias de judeus mortos.»
A reacção oficial do grupo à matança ocorrida no liceu é uma espécie de mais-do-mesmo, ou seja, nova manifestação de velhas teorias: «A matança ocorrida não é falha nossa; é a sociedade que falha, e essa matança é apenas um sintoma.»
Talvez tenha sido aqui – e noutros sites do género – que Weise tenha encontrado uma justificação racional para o seu estado de espírito tão perturbado. Talvez nunca se saiba o que realmente se passou.
Em Outubro de 2004, os seus problemas são evidentes: envia ao site The Smoking Gun uma animação muito violenta: um boneco que dispara indiscriminadamente e, por fim, se suicida. Um flash do que viria a fazer, cinco meses depois.
Num outro fórum de discussão que frequentava – AboveTopSecret.com – o jovem Weise faz duas declarações reveladoras. A primeira, em Dezembro de 2003: «Ultimamente tenho tido sonhos realmente estranhos. Parecem muito realistas, cheios de cores e sons; são mais realistas que aqueles que tive no mês passado. Há uma noites tive este sonho em que vejo um rosto canino muito maligno e assustador a vir na minha direcção. Depois oiço alguém gritar: “Dispara!”. Seja como for, tudo fica negro. Sinto o meu corpo a estremecer. Enquanto tudo isto está a acontecer consigo destinguir claramente o som dos disparos – a maior parte são tiros de metralhadora… Achei tudo isto muito estranho e acordei desorientado.»
A segunda, no mesmo fórum, é escrita a 1 de Janeiro deste ano: «Que raio é um pecado? Quer dizer – a própria ideia de pecado é ridícula. A ideia do que é ou não é um pecado varia em diferentes terras e culturas: como posso ter a certeza sobre qual é a religião certa? (…) Sou ateu. Não sou um idiota imoral que pensa que pode fazer o que quiser porque Deus não existe, não vejo é qualquer razão para envolver a Fé nisto. Para todos os efeitos, a Fé não existe. Quem disse: “Somos todos pecadores” devia ter razão porque, se pensarmos bem, neste mundo nem sequer podemos cagar sem que alguém te aponte o dedo e diga que é um pecado.»
Uma investigação publicada no San Francisco Chronicle indica que Weise estava a tomar Prozac, um anti-depressivo.
O seu perfil público no MSN é revelador. Descreve-se assim: 16 anos de raiva acumulada atenuada apenas por breves vislumbres de esperança. Mais abaixo, numa inocente secção chamada «Hobbies and Interests», revela: Planeando, Esperando, Odiando.
Weise também tinha um blogue. Chamou-lhe «Pensamentos de um Sonhador» e escolheu Kurt Cobain para a sua foto de perfil. No seu último post, a 27 de Janeiro deste ano, Weise escreve: «So fucking naive man, so fucking naive. Sempre à espera da mudança sabendo que nada muda. Vi mães escolhendo os seus homens em detrimento daqueles que são a sua própria carne e sangue; vi outros escolher o álcool em vez da amizade. Não me sacrificarei mais pelos outros. Parte de mim morreu e eu odeio esta merda. Estou a viver o pesadelo de todos os homens e só esse facto está a deixar-me completamente lixado. Eu devo ser mesmo uma merda sem utilidade nenhuma. Este lugar nunca muda, nunca mudará. Fuck it all.

Nazi, de Paul Kolsti: 60 anos depois, Hitler continua a matar