Todos os dias assistimos a indícios que nos levam a concluir que está morta a ação libertadora promovida pela Revolução dos Cravos.
Cada dia que passa nos evidencia que a democracia instituída em 1974 se tornou letra vã. Mais reduzida, mais incompleta, mais contraditória, mais pobre, esta democracia não é, com certeza, aquela que os capitães de Abril idealizaram: uma democracia participada e construída de baixo para cima, e não de cima para ficar a meio, limitando-se a um mero parlamentarismo «liberal»…
Muito bem fez a Associação 25 de Abril em demarcar-se das hipócritas comemorações oficiais promovidas pelo atual poder. Um poder que, como se sabe, está ao serviço dos grandes grupos económicos e dos interesses de países como a Alemanha e a França.
Algo está muito mal quando um responsável policial vem afirmar que «certos grupos» não deviam ter o direito a manifestar-se em mais um aniversário do 25 de Abril, indo contra o que está escrito na Constituição Portuguesa.
Se vivêssemos numa efetiva democracia, este energúmeno teria sido imediatamente demitido, bem como o ministro da tutela.
Quando as autoridades anunciam que haverá «tolerância zero» quanto aos festejos da liberdade, é uma ameaça à liberdade que se faz, nem mais nem menos. Face a isto, que não haja dúvidas: o 25 de Abril acabou.
Promete-se mais bordoada da polícia nas ruas para o dia 25 de Abril de 2012, à semelhança do que aconteceu no Chiado, em Lisboa, no mês de Março, e há uns dias na Fontinha, Porto, com o assalto à ES.COLA. Pode até ser que nada aconteça, mas não tenham ilusões: os homens de capacete e bastão e os homens de fato e gravata que lhes dão ordens anseiam por mais brutalidade…
Do cravo ao escravo
A mensagem destes herdeiros do Estado Novo é clara: se protestares contra a precariedade, contra o desemprego, contra os atrasos nos pagamentos dos ordenados, contra a perda de direitos como trabalhador, contra os impostos, contra os cortes na cultura, contra as penhoras realizadas pelos bancos e pela Autoridade Tributária e Aduaneira às vítimas daquilo a que chamam «políticas de austeridade», contra o afundamento do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social, contra a grunhisse como sistema de pensamento, o mais que podes ter como certo é abrirem-te a cabeça.
Os nossos governantes ultra-liberais e o seu canil de guarda, a polícia de choque, querem sangue. Está no seu código genético reprimir e oprimir. Há muito que se sabe: a violência começa sempre por ser violência do Estado e esta tem muitas formas, desde a retirada dos subsídios de férias e Natal até à utilização de tasers.
Eles preferem até que protestemos, de modo a terem uma «desculpa» para nos humilharem e violentarem. Não nos querem apenas como cordeirinhos numa nação de mão-de-obra barata e servidores de bicas aos turistas. Querem-nos amedrontados, amordaçados e humildes.
Salazar permaneceu vivo naquelas cabeças durante todos estes anos de gradual falhanço democrático. Agora os «vampiros», tal como lhes chamava Zeca Afonso, já não precisam de o esconder. O autoritarismo está aí de novo, recomposto.
O que estes salazarentos não percebem é que a cada choque elétrico, a cada pontapé, a cada roubo nos honorários, na gasolina, nos bens de primeira necessidade, a cada atentado contra as artes e contra a educação, a cada ofensa à cidadania, à liberdade e à democracia haverá sempre quem esteja disposto a dizer BASTA.
O 25 de Abril está, na verdade, quase a começar, e desta vez há que fazer as coisas bem.












































