→ 24/04/2012 @18:55

O 25 de Abril acabou (*)

(*) Em memória de Miguel Portas, falecido a 24 de Abril de 2012 (Foto: Tiago Miranda)

 

Todos os dias assistimos a indícios que nos levam a concluir que está morta a ação libertadora promovida pela Revolução dos Cravos.

Cada dia que passa nos evidencia que a democracia instituída em 1974 se tornou letra vã. Mais reduzida, mais incompleta, mais contraditória, mais pobre, esta democracia não é, com certeza, aquela que os capitães de Abril idealizaram: uma democracia participada e construída de baixo para cima, e não de cima para ficar a meio, limitando-se a um mero parlamentarismo «liberal»…

Muito bem fez a Associação 25 de Abril em demarcar-se das hipócritas comemorações oficiais promovidas pelo atual poder. Um poder que, como se sabe, está ao serviço dos grandes grupos económicos e dos interesses de países como a Alemanha e a França.

Algo está muito mal quando um responsável policial vem afirmar que «certos grupos» não deviam ter o direito a manifestar-se em mais um aniversário do 25 de Abril, indo contra o que está escrito na Constituição Portuguesa.

Se vivêssemos numa efetiva democracia, este energúmeno teria sido imediatamente demitido, bem como o ministro da tutela.

Quando as autoridades anunciam que haverá «tolerância zero» quanto aos festejos da liberdade, é uma ameaça à liberdade que se faz, nem mais nem menos. Face a isto, que não haja dúvidas: o 25 de Abril acabou.

Promete-se mais bordoada da polícia nas ruas para o dia 25 de Abril de 2012, à semelhança do que aconteceu no Chiado, em Lisboa, no mês de Março, e há uns dias na Fontinha, Porto, com o assalto à ES.COLA. Pode até ser que nada aconteça, mas não tenham ilusões: os homens de capacete e bastão e os homens de fato e gravata que lhes dão ordens anseiam por mais brutalidade…

 

Do cravo ao escravo

A mensagem destes herdeiros do Estado Novo é clara: se protestares contra a precariedade, contra o desemprego, contra os atrasos nos pagamentos dos ordenados, contra a perda de direitos como trabalhador, contra os impostos, contra os cortes na cultura, contra as penhoras realizadas pelos bancos e pela Autoridade Tributária e Aduaneira às vítimas daquilo a que chamam «políticas de austeridade», contra o afundamento do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social, contra a grunhisse como sistema de pensamento, o mais que podes ter como certo é abrirem-te a cabeça.

Os nossos governantes ultra-liberais e o seu canil de guarda, a polícia de choque, querem sangue. Está no seu código genético reprimir e oprimir. Há muito que se sabe: a violência começa sempre por ser violência do Estado e esta tem muitas formas, desde a retirada dos subsídios de férias e Natal até à utilização de tasers.

Eles preferem até que protestemos, de modo a terem uma «desculpa» para nos humilharem e violentarem. Não nos querem apenas como cordeirinhos numa nação de mão-de-obra barata e servidores de bicas aos turistas. Querem-nos amedrontados, amordaçados e humildes.

Salazar permaneceu vivo naquelas cabeças durante todos estes anos de gradual falhanço democrático. Agora os «vampiros», tal como lhes chamava Zeca Afonso, já não precisam de o esconder. O autoritarismo está aí de novo, recomposto.

O que estes salazarentos não percebem é que a cada choque elétrico, a cada pontapé, a cada roubo nos honorários, na gasolina, nos bens de primeira necessidade, a cada atentado contra as artes e contra a educação, a cada ofensa à cidadania, à liberdade e à democracia haverá sempre quem esteja disposto a dizer BASTA.

O 25 de Abril está, na verdade, quase a começar, e desta vez há que fazer as coisas bem.

→ 24/04/2012 @17:33

Democracia

→ 22/04/2012 @0:42

Notas de viagem: as novas mixtapes

Como forma de agradecimento aos que me enviaram os ficheiros CUE das ‘rádios’ que perdi, resolvi iniciar uma nova série de mixtapes baseada parcialmente nessas sequências.

Os que já conhecem bem o blogue dispensam grandes considerações, já sabem com o que contam. Para os que partilham os meus gostos ecléticos e sempre descarregaram as anteriores vejo duas vantagens em ‘colecionar’ esta série: primeiro, porque embora algumas sequências vos sejam familiares, acabei por refazer tudo com muita música nova; segundo, porque incluí um ficheiro WAV (máxima qualidade, portanto) e um CUE compatível com qualquer programa de gravação. Por razões óbvias, estes ficheiros têm prazo de validade.

Aos que ainda não conhecem bem o blogue: estas mixtapes misturam diversos géneros e épocas, ao sabor do momento, fluindo como uma viagem de paisagens diferentes – daí o nome.

Só existem dois géneros de música para mim: a que gosto e não gosto. Tanto oiço Debussy como Jimi Hendrix. Se é realmente necessária uma indicação, encontrarão ao longo destas séries muito jazz, rock progressivo, outras variantes do rock, sobretudo post-rock, alguma clássica e música de expressão portuguesa. Também tenho tendência a escolher os temas mais calmos, a ver se corrijo estes favorecimentos em futuras ‘cassetes’.

 

Notas de Viagem (I – Lado A)


 

Notas de Viagem (I – Lado B)

No espírito de partilha e divulgação que caracteriza estes posts, decidi dividir estas mixtapes em dois, Lado A e Lado B, como se estivesse a gravar uma cassete – sabem, aquelas cassetes que costumávamos gravar para os amigos quando não nos era possível encurralá-los diante da aparelhagem para que conhecessem as «nossas» músicas…

→ 20/04/2012 @19:01

Manipulações deliberadamente artísticas

Sempre que alguém vê uma foto e escreve o habitual libelo acusatório «Photoshop» – sugerindo manipulação ou qualquer outra ação menos honesta da parte do fotógrafo – lembro-me de uma página bastante informativa, A Very Brief History of Photographic Manipulation: explica, com exemplos, que a manipulação não começou com o Photoshop, sempre fez parte da história da Fotografia.

Considerem um exemplo caricato, mostrado no sítio que acabei de referir: cartões postais publicados entre 1922 e 1960.

Diferentes cenários, o mesmo céu! Os primeiros quatro estão assinados pela mesma pessoa, um tal Alexander G. Anderson. A versão 1.0 do Photoshop só sairia 40 anos depois, em exclusivo para os Macintosh. A ausência de computadores pessoais nunca impediu nada…

Mas usar Photoshop não é necessariamente sinónimo de falsificação.

Ninguém espera que um repórter fotográfico altere a informação de uma foto, deturpando a realidade, mas é perfeitamente legítimo usar o Photoshop para corrigir pequenas imperfeições ou realçar algum pormenor. É a sua visão dos acontecimentos, não um retrato-robô, e o Photoshop é a ferramenta que o ajuda a partilhá-la, da mesma forma que um jornalista faz uso de uma ferramenta chamada escrita – e com as mesmas capacidades manipuladoras.

Depois temos artistas como o fotógrafo sueco Fredrik Ödman, que usa o Photoshop para manipular deliberadamente aquilo que vê, usando o software como um pintor usaria o pincel. O trabalho de Ödman é tremendo e muito imaginativo, ora vejam:

E isto não é nada. O sítio de Fredrik Ödman tem muitas criações para conhecer.

→ 20/04/2012 @1:24

A foto que Hossaini nunca mais quis ver

6 de dezembro de 2011: uma nova explosão na cidade. Tarana Akbari, então com 10 anos, sobrevive a um ataque suicida que mata mais de 70 pessoas que celebravam um feriado religioso num templo em Cabul, Afeganistão.

É uma imagem violenta, tão violenta que o próprio fotógrafo, o afegão Massoud Hossaini, se recusa voltar a vê-la.

«A fotografia mais difícil que tirei na vida», como afirmou recentemente numa entrevista à BBC, é também a fotografia que lhe dá fama: vence o Prémio Pulitzer 2012, categoria Breaking News, notícias de última hora. Por isso revê-a, repetidamente, mesmo tendo tomado a decisão de não voltar a olhar.

Hossaini estava tão perto do local da explosão que ficou ferido no braço esquerdo, mas o instinto profissional fê-lo correr na direção do amontoado colorido de pessoas mortas ou em sofrimento. O atentado mais grave em Cabul daquele ano.

A criança rodeada de familiares ensanguentados chama-lhe imediatamente a atenção: foca-se nela, no seu choro, e regista mais um momento em que a desumanidade triunfou. «Espero que não falem do fotógrafo», diz Hossaini a propósito da notoriedade, «mas do sofrimento do povo afegão».

Há quem questione dar-se o prémio a uma foto tão cruel.

Eu acho que deve ser mostrada, embora nunca seja fácil mostrá-la. Demasiadas vezes ouvimos discursos muito bem elaborados onde são usadas palavras como Democracia, Liberdade, Justiça ou Deus para justificar ações como esta. Na boca dos líderes políticos ou religiosos que as pronunciam são soníferos que acalmam a nossa consciência e ajudam a não querer abrir os olhos ao que nenhum daqueles deseja mostrar.

Por mais elaborada, eloquente ou erudita que seja a justificação de políticos e religiosos e militares ao serviço de ambos, o resultado das ações do fanatismo religioso ou ideológico é sempre este: um destroço verde-esperança flutuando num mar de sangue. A escravidão dos inocentes.

Mas ela aí está, a explosão: desfez seres humanos, mortos e sobreviventes, mas através de uma máquina fotográfica tem também o poder de pulverizar palavras falsificadas. Diz-nos o que está errado – e não deveria ser preciso acrescentar mais nada.

→ 19/04/2012 @19:07

Jan Garbarek, o filho de Bure

Era uma vez um contrabaixista alemão com formação clássica e gostos abrangentes que resolveu colocar em prática um objectivo nada razoável: fundar uma editora cujos discos cobrissem todos os estilos que apreciava e fosse uma alavanca para forjar uma nova música feita de várias músicas.

Pensou-a como uma editora transnacional e transcultural no espírito, características que ele já encontrava no jazz e que, apesar das origens norte-americanas do género, pretendia que tivesse um cunho arreigadamente europeu.

Imaginou a música proposta por essa etiqueta como «o mais belo som depois do silêncio», de alguma maneira representando a «música das esferas celestes», afinal aquela mesma sobre a qual escreveram os filósofos gregos nas suas descrições da formação e do funcionamento do cosmos.

Manfred Eicher

Esse contrabaixista tornado editor e produtor chama-se Manfred Eicher e o seu projecto ficou conhecido como ECM, iniciais de Edition of Contemporary Music.

Decorrida da vontade de gravar um grupo de jazz como se fosse um quarteto de cordas erudito, ou vice-versa, a designação «som ECM» não contempla apenas os aspetos técnicos necessários para chegar à acústica cristalina intencionada por Eicher, mas igualmente uma musicalidade que, em certos casos, pode mesclar a sincopação do jazz com o rigor da música sinfónica e de câmara, a espiritualidade da polifonia sacra, a ancestralidade presente tanto nas canções medievais e na composição barroca como no folclore do Velho Continente, e ainda a energia do rock.

 

Processo químico

Jan Garbarek fotografado por Iulian Ignat

Esta aspiração a uma meta-música da era global encontrou no norueguês Jan Garbarek um dos seus mais bem-sucedidos praticantes, pelo facto de todos os ingredientes que utiliza nas suas muito pessoais propostas não surgirem simplesmente como um melting pot ou um pastiche de géneros, mas como a decantação das suas respectivas essências – um processo químico muito similar ao da perfumaria que o saxofonista e compositor levou a cabo com um raro sentido de ascetismo estético.

Os encontros de Garbarek com o Hilliard Ensemble, grupo vocal britânico especializado em repertório antigo, ou com Kim Kashkashian, a violetista arménia preferida de autores contemporâneos como Arvo Part, Sofia Gubaidulina, Gyorgy Kurtág e Tigran Mansurian, tornaram-se possíveis pelo facto de o seu programa musical parecer estar além do tempo e do espaço, não obedecendo a conotações de época e de lugar.

E no entanto… Se Manfred Eicher foi atrás de um mito universalista e atemporal e há décadas que está a torná-lo de algum modo em realidade, o jazz transfigurado de Jan Garbarek e de outras figuras dos países escandinavos deram-lhe contornos regionais que provavelmente o patrão da ECM não previra.

É certo que a mitologia germânica tem pontos comuns com a da Suécia, da Noruega, da Dinamarca, da Finlândia e da Islândia (Odin, o deus da guerra, mas também da sabedoria e da poesia, é originário da Alemanha Ocidental), mas não é isso que explica o facto de o paganismo nórdico ser neste catálogo uma referência cultural identitária.

Será Garbarek, sobretudo, o responsável: a sua música onírica, fantasiosa e contemplativa recorda-nos o povo de descobridores e guerreiros marítimos que descende do primeiro homem, Bure, nascido da respiração de Audhumbla, a mãe de todas as vacas, gerada pelas chamas lançadas a partir de Muspelheim no abismo de gelo e escuridão que era o mundo dos primórdios.

Esta é, bem-entendido, uma carga difusa nas criações de Garbarek, mas está presente na nostalgia arcaica das suas melodias e na irrealidade enevoada das atmosferas que constrói.

Que distante se encontra o músico, hoje, dos seus ídolos nas décadas de 1960 e 70, John Coltrane e Albert Ayler, mas algumas consequências terá tido o trabalho que desenvolveu na altura com Don Cherry e George Russell – já então o trompetista valorizava o factor etnicidade e o compositor e director de orquestra tinha com o seu Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization demonstrado que circunscrever o material sonoro a utilizar é o melhor recurso contra o excesso de verbosidade que, infelizmente, sempre caracterizou muito do jazz.

Daí partiu para a música de cunho cinemático que imediatamente reconhecemos como sendo dele, por vezes até descritiva da paisagem natural norueguesa.

 

Ymer, o gigante

Curiosamente, rodeou-se ao longo dos anos por músicos de outras nacionalidades que não a sua – Ralph Towner, Bill Connors, Bill Frisell, David Torn, John Abercrombie, Keith Jarrett, John Taylor, Rainer Bruninghaus, Charlie Haden, Miroslav Vitous, Eberhard Weber, Yuri Daniel, Billy Hart, Peter Erskine, Michael DiPasqua, Nana Vasconcelos, Trilok Gurtu e Manu Katché não são propriamente de ascendência viking, ou, se algum a tem, é muito remota.

Sem recear acusações de «exotismo», foi em diálogos como os estabelecidos com o oudista tunisiano Anouar Brahem ou com o guitarrista e pianista brasileiro Egberto Gismonti que melhor percebemos o quanto a sua voz está enraizada na terra.

O “país musical” de Jan Garbarek pode ser mitológico e estar habitado por faunos e amazonas, mas quando ouvimos o seu saxofone só podemos concluir que existe mesmo.

Há quem lhe tenha encontrado elementos, ou pelo menos «ecos», das tradições balcânica, eslava, turca e carnática, mas a explicação pode estar mais fundo do que a ideia de que todos os folclores do mundo têm um tronco comum ou de que a Eurásia é uma realidade mais evidente do que julgamos.

Talvez os mares sejam efectivamente o sangue de Ymer, o gigante, e o céu que nos cobre as cabeças o lado de dentro do seu crâneo, as nuvens o seu cérebro e as montanhas de todo o planeta o esqueleto em que nos movemos.

→ 19/04/2012 @11:34

O instinto do Saraiva

Nick Perks


 

À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou 17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay.

José António Saraiva, Homossexuais Contestatários

 

Depois de ter sido picado, o jovem estudante Peter Parker ganhou inúmeros poderes – um dos quais um instinto capaz de o avisar de uma ameaça iminente.

O arquiteto José António Saraiva, diretor do semanário Sol, super-herói do jornalismo português, desenvolveu também a capacidade de antecipar o perigo – uma espécie de instinto Homo-Aranha.

No caso do Peter Parker foi uma aranha radioativa a responsável; quanto ao Saraiva, não se sabe que raio de bicho lhe mordeu. Seja como for, deve ter mordido com força.

Agora anda por aí à solta, um aracnídeo de duas pernas – mais uma prova de que este Saraiva não deveria existir se o mundo dos humanos fizesse sentido.

Se passares pela zona da FNAC do Chiado, mais vale evitares o elevador e fazeres o percurso a pé, mesmo correndo o risco de que o Saraiva e outros aracnídeos de duas pernas e meio cérebro suspeitem que subir e descer escadas é o jogging dos maricas.

Portanto põe-te a pau com o Saraiva, pá.

Se tens o azar de inclinar a cabeça, cruzar as mãos e colocar os pés no chão de uma forma que alarme o GPS para gays que ele usa na orelha (como um brinco), a tua sólida reputação de garanhão heterossexual estará irremediavelmente perdida. O Saraiva está convencido de que Deus inventou as leis da gravidade só para fixar a paneleiragem no chão dos elevadores e facilitar a missão aos representantes dos bons costumes no Céu e na Terra.

Se eu tivesse poderes divinos, prendia o sexagenário Saraiva dentro de um elevador com o adolescente Saraiva.

Ai do velho se começasse a observar-lhe a pose à cata de excrescências apaneleirísticas: o adolescente Saraiva regressaria a casa todo ofendido, jurando por todos os assexuados santinhos que um dia, quando fosse jornalista, haveria de escrever uma crónica sobre esses velhos gays porcalhões que andam a galar miúdos de 16 ou 17 anos nos elevadores.