
O corpo humano não é propriamente uma tela em branco, pela simples razão de que não é liso e uniforme. Há nele volumes e reentrâncias, zonas de luz e de sombra, côncavos e formas, partes. Como tal, dispõe de uma linguagem que lhe é própria, uma linguagem silenciosa que o erotiza.
Se os seios têm um lugar fundamental na erotização do corpo da mulher é porque se encontram em destaque…
Ora, a sexualidade não é mais do que a fala deste corpo poliforme. O órgão sexual por excelência é aquele que nos garante a unidade corporal «dada a ver», a pele. E o que é um seio senão uma superfície de pele, com enervações extremamente condensadas e numerosas, sobretudo no mamilo, que o fazem tão receptivo?
A palavra seio, note-se antes de mais, provém do Latim «sinus», que possuía o significado de curvatura, volta ou bojo, e dizia-se, no vocabulário da marinharia, em referência a uma vela de navio ou a qualquer tecido enfunado pelo vento.
A verdade é que a nossa sociedade hipervaloriza o seio. É a herança cartesiana: temos a tendência para particularizar.
Depois acontecem os empolamentos e os fetichismos, e aí temos toda a máquina publicitária que utiliza os seios femininos para vender automóveis. Até no espectáculo político os seios entraram, com o fenómeno Cicciolina.
Em grande parte, tal é possível porque os seios já têm por si um carácter distintivo, mesmo na sua função «estratégica» natural. À semelhança de outras formas arredondadas e até do tom de voz, são um sinal contra-agonístico, inibidor de agressão, distinguindo o sexo feminino do masculino.
Enquanto as mamas dos primatas só estão tumefactas no período da aleitação, na espécie humana o volume do peito da mulher é permanente, pois esta deixou de ter as oscilações de ciclo sexual que têm as fêmeas de orangotangos e chimpanzés.
Criar laços

Estes sinais, chamados de epimeléticos, permitem a permanência da ligação sexual, suscetíveis que são de criar laços e captar ternura, suscitando a proteção do macho.
Há etnias primitivas em que mesmo as crianças com 4 ou 5 anos de idade, quando assustadas, saltam para o colo das mães e começam a mamar, apesar de já não haver leite. O peito é sempre um sinal apaziguador, o que demonstra que o contacto corporal que inclui o seio é mais importante do que o fator alimentício em si.
Montagner, um etólogo que trabalha com crianças, fez algumas curiosas experiências sobre este aspeto da ligação mãe-filho, descobrindo que, seis horas após o nascimento, o bebé já conhece o cheiro da progenitora.
O cientista utilizou duas gazes, uma delas impregnada com as feromonas dos seios maternais (uma feromona é um produto químico segregado para o exterior do corpo que também funciona como sinal), e à proximidade desta o recém-nascido reagiu como se estivesse na presença da mãe. No contacto com a outra gaze nada acontecia.
A faculdade de reagir a uma feromona desaparece ao chegarmos a adultos. Tais substâncias são, no ser humano, apenas vestigiais – a sua finalidade vai-se perdendo.
O que se explica facilmente: entre a infância e o estado adulto dá-se o desenvolvimento do córtex, que nos distingue dos outros animais e impõe a predominância do cultural sobre a dimensão biológica.
A própria sexualidade humana ultrapassa os limites da organização reprodutora dos primatas, escapando ao estrito âmbito da necessidade para se concretizar enquanto fantasia. Ler mais »