→ 23/03/2012 @2:20

Humor (ainda) não paga imposto

Enquanto o tuga conseguir rir-se, nada está completamente perdido. O riso nem sempre é enlatado, também revela inteligência. Nesta brincadeira aqui em cima gosto da ideia de associar uma afirmação de identidade nacional com a capacidade de protestar. Este português não passa o dia no sofá a ser adormecido pelas televisões.

A segunda foto mostra-nos o mesmo bacano e um polícia num gesto apaziguador. O que gosto mesmo nesta foto é ver o manifestante a mostrar-nos os dentes, à maneira de um guerreiro espartano e, ao lado, um pálido polícia que ainda usa aparelho nos dentes. Um enquadramento, duas dentaduras.

Foto: AP, autor não identificado

 

T-shirts para as manifestações

 

HenriCartoon

→ 23/03/2012 @1:32

The Fast and the Furious

Fotos: Hugo Correia/Reuters

O mundo seria um lugar mais simples se o braço daquele polícia lhe pertencesse por completo.

Se de facto lhe pertencesse por completo, talvez o homem preferisse usá-lo para levantar uma imperial na esplanada, brindando à saúde da estátua do Fernando Pessoa e gozando o sol lisboeta em vez de malhar nas costas de uma mulher indefesa – indefesa, mas não desarmada: mais abaixo no post, estão três das fotos que a fotojornalista Patrícia de Melo Moreira acabara de tirar.

Aquele braço também pertence ao governo, aos senhores do FMI, às agências de rating que qualificam e desqualificam países e povos inteiros, talvez até à senhora Merkel – dele já não é, muito menos nosso, os que pagam os impostos que também pagam os bastões e as fardas e os coletes.

Kafka criou uma excêntrica metamorfose, transformando um homem num inseto, e não há nada de mais deprimente do que ver um homem transformar-se numa estúpida e cega formiga guerreira, inebriado pelas feromonas da farda.

O rosto do polícia – sobretudo na primeira fotografia – faz lembrar o Vin Diesel do filme The Fast and the Furious. Ele sabe muito bem o que está a fazer, e a quem se prepara para o fazer: toma balanço para acertar, e acertar com força. Rápido, e furioso.

O alvo não é uma multidão desenfreada e potencialmente perigosa, desta vez não é, mas uma mulher, uma jornalista, uma fotógrafa.

Ao centro, o Vin Diesel fotografado pela própria Patrícia de Melo Pereira

Este Vin Diesel está programado para malhar e, neste estado semi-catatónico, não vê a lente de uma câmara fotográfica mas o que está lá dentro, um par de olhos que nos representa a todos. Não suporta este olhar que o humaniza com a força de dez mil catanas e, por isso, procura forçá-la a desviar o olhar. Indefesa, sim, mas não desarmada.

Só assim se percebe (percebe-se, mas não se perdoa) que José Sena Goulão, fotojornalista da LUSA, um dos melhores que conheço, tenha sido agredido por outros Vin Diesels mesmo quando se identificou, aos gritos, como jornalista.

Não sei se estes acontecimentos são suficientes para questionar o futuro da Democracia ou se estas cenas terão o poder de incendiar as ruas à maneira grega, mas sei que há duas formas de nos forçar a olhar para o lado: à maneira do Vin Diesel, Fast and Furious; de uma forma muito mais poderosa e pacífica, e com resultados comprovados: procurando alienar-nos, fechando-nos os olhos enquanto nos sussurram canções de embalar. Tenho muito mais medo desta.

 

Nunca desvies o teu olhar, Patrícia

Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP

Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP

→ 16/03/2012 @1:36

A beleza da confrontação

Foto: EPA/Lindsey Parnaby

Dificilmente esquecerei o último momento do jogo entre Manchester City e Sporting, muito bem captado nesta foto de Peter Powell.

Desesperada por dar a volta à eliminatória, a equipa do City lança-se toda ao ataque à procura do golo redentor. O Sporting cerra fileiras cá atrás.

Nos últimos segundos do período de compensação o guarda-redes dos ingleses, Joe Hart, ganha uma bola nas alturas ao Carriço, salvo erro, e cabeceia para o golo…

A bola vai entrar e todo o esforço dos jogadores do Sporting se desmoronará pela combatividade de um guarda-redes. Mas é outro guarda-redes, o Rui Patrício, a conseguir defendê-la com a ponta dos dedos, negando ao colega de baliza o que teria sido o maior momento de glória da sua carreira.

Toda esta história se desenrola em dois, três segundos. Segundos de grande Futebol.

→ 15/03/2012 @16:14

Post nº 3621

→ 11/03/2012 @16:10

Senologias 2: O corpo não é uma tela em branco

O corpo humano não é propriamente uma tela em branco, pela simples razão de que não é liso e uniforme. Há nele volumes e reentrâncias, zonas de luz e de sombra, côncavos e formas, partes. Como tal, dispõe de uma linguagem que lhe é própria, uma linguagem silenciosa que o erotiza.

Se os seios têm um lugar fundamental na erotização do corpo da mulher é porque se encontram em destaque…

Ora, a sexualidade não é mais do que a fala deste corpo poliforme. O órgão sexual por excelência é aquele que nos garante a unidade corporal «dada a ver», a pele. E o que é um seio senão uma superfície de pele, com enervações extremamente condensadas e numerosas, sobretudo no mamilo, que o fazem tão receptivo?

A palavra seio, note-se antes de mais, provém do Latim «sinus», que possuía o significado de curvatura, volta ou bojo, e dizia-se, no vocabulário da marinharia, em referência a uma vela de navio ou a qualquer tecido enfunado pelo vento.

A verdade é que a nossa sociedade hipervaloriza o seio. É a herança cartesiana: temos a tendência para particularizar.

Depois acontecem os empolamentos e os fetichismos, e aí temos toda a máquina publicitária que utiliza os seios femininos para vender automóveis. Até no espectáculo político os seios entraram, com o fenómeno Cicciolina.

Em grande parte, tal é possível porque os seios já têm por si um carácter distintivo, mesmo na sua função «estratégica» natural. À semelhança de outras formas arredondadas e até do tom de voz, são um sinal contra-agonístico, inibidor de agressão, distinguindo o sexo feminino do masculino.

Enquanto as mamas dos primatas só estão tumefactas no período da aleitação, na espécie humana o volume do peito da mulher é permanente, pois esta deixou de ter as oscilações de ciclo sexual que têm as fêmeas de orangotangos e chimpanzés.

 

Criar laços

Estes sinais, chamados de epimeléticos, permitem a permanência da ligação sexual, suscetíveis que são de criar laços e captar ternura, suscitando a proteção do macho.

Há etnias primitivas em que mesmo as crianças com 4 ou 5 anos de idade, quando assustadas, saltam para o colo das mães e começam a mamar, apesar de já não haver leite. O peito é sempre um sinal apaziguador, o que demonstra que o contacto corporal que inclui o seio é mais importante do que o fator alimentício em si.

Montagner, um etólogo que trabalha com crianças, fez algumas curiosas experiências sobre este aspeto da ligação mãe-filho, descobrindo que, seis horas após o nascimento, o bebé já conhece o cheiro da progenitora.

O cientista utilizou duas gazes, uma delas impregnada com as feromonas dos seios maternais (uma feromona é um produto químico segregado para o exterior do corpo que também funciona como sinal), e à proximidade desta o recém-nascido reagiu como se estivesse na presença da mãe. No contacto com a outra gaze nada acontecia.

A faculdade de reagir a uma feromona desaparece ao chegarmos a adultos. Tais substâncias são, no ser humano, apenas vestigiais – a sua finalidade vai-se perdendo.

O que se explica facilmente: entre a infância e o estado adulto dá-se o desenvolvimento do córtex, que nos distingue dos outros animais e impõe a predominância do cultural sobre a dimensão biológica.

A própria sexualidade humana ultrapassa os limites da organização reprodutora dos primatas, escapando ao estrito âmbito da necessidade para se concretizar enquanto fantasia. Ler mais »

→ 05/03/2012 @19:18

Senologias 1: o nome e o objeto

Pérolas rolavam em direção ao seio da mulher. O fio da viagem parecia ao corpo regressado. Falava-se, a vida suspensa na mesa branca e lisa. / Olhava-se curiosamente, na perplexidade dos instantes de paragem. Falava-se do que parecia ser-lhes exterior. / Pérolas rolavam insistentemente sobre a mesa em direção ao seio da mulher. Bela, muito direita, o fato branco. / O cigarro e o prazer discretos, os dedos terminando finos junto à unha, talvez finos de mais para tanto corpo. / Uma pérola rolava muito lenta em direção ao seio da mulher. Falava-se de música. O piano, a hora disponível. A voz.

(in «Nervura», Isabel de Sá)

Estamos rodeados de seios: encontramo-los na publicidade, na literatura, na pintura, no cinema, nas praias… É uma zona do corpo sublimada como nenhuma outra o foi até hoje. E de múltiplas maneiras.

Numa tela de Louis Soutter, intitulada «Oú sont nos seins?», são a revelação da perda torturada. Num inquérito da Playboy, pede-se a sua descoberta: «De quem são estes seios?»

O escritor Philip Roth tem um conto justamente chamado «The Breast», no qual dá kafkianamente conta de metamorfose de um homem… num seio. A verdade é que, no mundo de hoje, os seios – e sobretudo os femininos, por motivos óbvios – estão profundamente arreigados nas nossas cabeças e na nossa cultura.

 

No princípio era o Verbo, não o Nome…

«- Como sabes que era ela? – Tinha-a visto com aquele vestido. Além disso, reparei no verniz prateado das unhas. E nas tetas. Nunca reparaste nas tetas de Laurel?»

(in «Os Duros não Dançam», de Norman Mailer)

As coisas têm o seu começo antes de qualquer designação. Mas porque as falamos, e falamos frases estruturadas entre nomes, este e o outro, sujeito e objeto, já as coisas ficam para nós com outra feição.

Quando se diz algo, diz-se conforme as circunstâncias o exigem ou o permitem. E como são essas circunstâncias que nos fazem falar, reparamos que existem palavras diferentes com um significado único ou uma só palavra com vários significados.

Ficamos a saber, de imediato, que as razões que determinam a escolha e que julgam da sua adequação são estranhas ao discurso.

Tome-se como exemplo a nomeação de um objeto que seja um órgão do corpo humano com características e funções definidas que o fazem, logo à partida, não ser um objeto como os outros – a mama.

E tenhamos como um dado adquirido que «mama» é o radical que aparece no género designativo da classe zoológica dos possuidores desse órgão, os mamíferos, machos e fêmeas. Que esse é o uso médico e também o registo do quotidiano em tudo o que se relaciona com o corpo e particularmente com os lugares sensual e sexualmente ativos.

Partamos do princípio que é essa a atribuição primeira do nome ao «objecto» significado. Lembremo-nos, todavia, que as coisas podem tornar-se outras para alguém, como nos ensina a psicanálise.

Para os humanos uma coisa não é ela mesma, mas o que significa para cada um de nós e para a comunidade que lhe deu o nome…

Perguntemo-nos, em suma, se poderá haver objeto que não seja totalmente passivo. Ler mais »

→ 03/03/2012 @20:16

A invenção de Hugo

Os primeiros minutos nem parecem um filme de Scorsese, o Scorsese dos gangsters e das ruas de Taxi Driver. O percurso do órfão Hugo fez-me lembrar Charles Dickens e pensei que talvez não passasse daí: um filme típico de óscar filmado com a sabedoria e o talento de um velho mestre.

Outras sequências – sobretudo as que nos mostram o complicado mecanismo dos relógios da estação de comboios e, mais tarde, a história do autómato, fizeram-me sentir como se estivesse dentro de um filme de Tim Burton.

A presença de Sacha Baron Cohen como o guarda da estação especializado em caçar órfãos também me transportou para fora do universo de Scorsese: fisicamente faz lembrar aquele polícia/espião que não sabe falar francês da série «Alô, Alô».

À medida que o mistério da mensagem escondida no autómato vai sendo desmontado, o filme transforma-se numa das mais bonitas homenagens ao cinema que já vi, pelo menos tão emocionante como «Cinema Paraíso», e em tributo a um dos seus pioneiros, Georges Méliès, o autor do famoso «Le Voyage dans la lune».

É então que a associação de Scorsese a este projeto começa a fazer todo o sentido: Méliès, que começou a carreira como ilusionista, é um criador de sonhos e um artífice dos efeitos especiais – é tido como um dos principais responsáveis por tantos anos depois (e se calhar demasiadas vezes), ainda usarmos a expressão magia do cinema para definir o que vemos no grande ecrã.

Não sei como escrever sobre «A Invenção de Hugo» sem revelar demasiado da história. Quero apenas mencionar uma cena em que Scorsese recria uma sessão durante a qual os irmãos Lumière, durante a digressão de apresentação da sua invenção, o cinematógrafo, mostram o pequeno filme Chegada de um Comboio à Estação da Ciotat: o público, que toma contacto com a ilusão pela primeira vez, grita e salta das cadeiras, com medo de ser atropelado pelo comboio.

Scorsese filmou em 3D – a tecnologia da moda que procura provocar no espectador, mais de um século depois da chegada do comboio à estação da Ciotat, a vontade de se levantar da cadeira com medo de ser atropelado. Claro que a nossa relação com o que vemos no grande ecrã nunca poderia manter a inocência desses primeiros dias, mas não deixa de ser uma ironia que um filme que celebra o poder da imaginação, mais do que as proezas da tecnologia, seja todo ele apresentado em 3D.

Adivinharam: não tenho grande simpatia pelo 3D, mesmo sendo Scorsese a usá-lo. Alguns efeitos são excelentes, mas não passam disso mesmo – efeitos. A cor e o brilho perdem-se, ofuscados pelas lentes escuras dos óculos que temos de usar; e os personagens e objetos em primeiro plano parecem ter sido recortados e colados sobre o cenário.

Scorsese consegue momentos em que o 3D é usado com a mestria de um velho ilusionista: a sequência de abertura, por exemplo; o órfão Hugo pendurado nos ponteiros do relógio, à maneira de Harold Lloyd em «Safety Last», de 1923, é outro exemplo – e dos vertiginosos! Ainda assim… Chamem-me antiquado, mas teria preferido vê-lo em duas dimensões.