O Fotógrafo Invisível
Autoria: Marco Santos [2/Junho/2008] [133]O francês Henri Cartier-Bresson é considerado um dos maiores fotógrafos do século XX e o mais influente de todos. É tido como o pai do chamado fotojornalismo porque foi o primeiro a vislumbrar no momento decisivo da fotografia uma forma de estabelecer a comunicação entre o homem e o seu mundo.
Com Cartier-Bresson, fotografar é um acto livre, espontâneo e discreto. Truman Capote, aos 22 anos um jovem jornalista que o acompanhou em reportagem, descreveu-o como um solitário que disparava cliques com intensa alegria e uma concentração religiosa.

Não era nada fácil entrevistar o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, muito menos fotografá-lo.
«O reconhecimento é um fardo muito pesado para se carregar. Não quero ser fotografado, identificado, quero ser anónimo. A celebridade é horrível. Eu sou libertário. Tenho horror ao poder. A notoriedade como fotógrafo é uma forma de poder que recuso».
À jornalista e crítica de arte Sheila Leirner que o contactou em 1996 para uma entrevista ao jornal Estado de São Paulo, o fotógrafo, «bem vivo, um pouco mal-humorado e completamente imerso na sua produção de desenhos», começou por dizer logo que não, não havia fotografia nem entrevista.
O pai do fotojornalismo, o mestre dos mestres, o co-fundador da agência Magnum em 1947, chegara então à respeitável idade de 87 anos. Desde os anos 70 que abandonara a fotografia para se dedicar à sua grande paixão artística: a pintura.
Sobre a sua arte fotográfica, afirmou vezes sem conta que já tinha dito tudo que tinha para dizer. «Pode fazer uma crítica do meu trabalho, se quiser» - disse a Sheila Leirner. «Mas não estou interessado no lado anedótico das entrevistas.»
Depois reconsiderou. Lembrou-se que Leirner era brasileira, não francesa, que no Brasil tudo o que tinha para dizer e estava dito ainda não fora escutado: «Bem, talvez esteja de acordo, vamos ver…»
Leirner aproveita a abertura do fotógrafo e tenta combinar de imediato uma data. Como a entrevista não pode ser marcada para a semana seguinte, Cartier-Bresson sugere que seja feita no próprio dia: «Pronto, vamos encontrar-nos hoje mesmo».
Esta súbita viragem nos acontecimentos não teria surpreendido a documentalista e fotógrafa Nádia Meucci, para quem Cartier-Bresson é um artista inato. «Pensa e vive como artista, é genuíno em tudo o que faz e em tudo o que diz, um poeta com a câmara fotográfica», escreveu num pequeno ensaio sobre a obra e a vida do fotógrafo.
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