
Existiram tempos em que o domínio da língua portuguesa e alguma cultura geral eram muito importantes para quem quisesse ser jornalista. Havia até quem considerasse que jornalista que não soubesse escrever dificilmente saberia pensar.
Os tempos são outros – o dinheiro tomou conta de todos os nossos valores. Os jornalistas são números numa folha de papel da Contabilidade. Bons jornalistas estão no desemprego porque a qualidade e a experiência são descartáveis para quem visa apenas o lucro fácil do jornalismo fast-food. Não interessa o que são, importa é que sejam baratos.
É este o caminho que está a ser seguido. Não deixámos de saber o que é bom ou mau jornalismo, mas numa sociedade baseada no poder do dinheiro há valores que simplesmente não contam. Talvez achem exagerado que eu escreva este discurso todo a propósito desta imagem que nos faz sorrir, mas eu conheci jornalistas a sério que esconderiam a cara com vergonha se topassem um erro destes. Que poriam em causa o futuro da profissão por sentirem neste erro um sinal preocupante da qualidade da Educação em Portugal.
A malta anda muito entretida a especular sobre o futuro do jornalismo em papel e a sua vertente «multimédia», mas o que mais me preocupa é o futuro de uma profissão onde cada vez mais gente escreve «fassam» em vez de façam. Esta é a discussão mais importante, porque a tecnologia em si não resolve nada e certamente não substitui a Educação. E uma boa educação exige que o investimento seja feito nas pessoas, não em máquinas ou plataformas milagrosas. (Imagem original no blogue Reflexão de um cão com pulgas)
24 comentários
Aquele rodapé não é nada… Quando trabalhei no CNL, os textos dos jornalistas no teleprompter eram uma vergonha. Lidos, não se via os erros de português absolutamente básicos.
Os erros de português não são graves apenas pela ignorância da língua; é também pela falta de curiosidade e falta de cultura que representam.
Quando são engenheiros a escrever, isso então nem se fala…
A mim não me fez sorrir. Fez-me cair o queixo…
E fico eu preocupada quando aparecem erros destes na blogosfera!
Enquanto licenciado em engenharia custa-me admitir, mas isso é bem verdade. O jornal académico do sitio onde estudei parecia escrito por macacos
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“Fogo destroi casa de sem abrigo”
Quem escreve assim, só pode ser um produtor de textos de linha branca e não jornalista.
Um abraço do velho
É caso para dizer: que eu seja cego e veja a minha casa a arder!
E se estivermos atentos ao que dizem nos telejornais ocasionalmente ouvimos uns bons atentados à língua portuguesa
Inaceitável. O domínio da língua portuguesa devia ser um das capacidades básicas do jornalista.
Penso que o problema do jornalismo passa por um problema mais profundo do que a boa ou má escrita da língua. Acredito que a forma como se escreve é importante, um texto bem escrito passa melhor a sua mensagem por exemplo, porém quando a forma é boa mas o conteúdo não acompanha esta qualidade o problema torna-se maior. Quando falo em qualidade no conteúdo, refiro-me tanto ao que ele se refere como à forma como ele é exposto. É desta última que tenho um bitaite para dar.
Pede-se isenção ao jornalista e é isso que esperamos dele, não nos podemos esquecer que estamos a falar de seres humanos, inteligentes e (por isso) com sentido crítico, porém muito mais poderia ser feito, e o canal que possui esse rodapé é um bom exemplo disso.
Quando o esforço para a isenção é deposto pelo poder das massas e os benefícios que delas vêm, deixamos de ter um jornalismo de informação para passarmos a ter um jornalismo de avaliação que molda passivamente as ideias dos seus ouvintes, leitores, telespectadores…
Ataques a língua portuguesa até são relativamente normais, mas a última pérola que vi foi muito melhor: ataque a inteligência dos telespectadores:
O sacana que escreveu esta devia ser deixado no meio dos comunas durante a festa do Avante.
Caríssimo Miguel, não percebo o porquê de essa frase ser um ataque á inteligência dos telespectadores. Essa frase é uma pérola, quando muito, por ser a mais pura verdade.
Boas Marco,
Tenho vindo a acompanhar o blog já a algum tempo… no qual tenho tirado umas ideias, por sua vez muito boas… mas é o meu primeiro blog, até para começar a ver como são as coisas, espero ter sucesso como este… Gostei deste post tal e qual como da maioria dos posts aqui inseridos no blog, um grande abraço e continuação do sucesso do blog… Deixo aqui também o endereço do meu blog muito recente…
Espemos que gostem e que façam do nosso blog uma referência diária como o chá das 5 para os ingleses.
http://www.gluvox.com
OBRIGADO
Claro Gallant, o capitalismo é o único modelo económico que garante a defesa dos direitos humanos de alguns (poucos) em detrimento de outros (muitos).
Cheira-me que isso foi fruto do lançamento do Magalhães com os erros ortográficos que ficaram por ser revistos.
Este país é uma anedota. Infelizmente.
Por contrário acho que o capitalismo é o único sistema económico que impossibilita a total defesa dos direitos humanos.
Nem estou aqui para defender ou analisar os outros sistemas económicos.
No entanto nem do ponto de vista teórico o capitalismo garante a total defesa dos direitos humanos.
Mas sinceramente já não sei onde começa o capitalismo e acaba o comunismo, socialismo.
Sendo que pelos vistos, mesmo no seio do capitalismo selvagem, as grandes instituições financeiras recorrem ao estado para serem salvas. E chega a parecer que o dinheiro em divida esta no meio dos contribuintes, quando de uma forma ou de outra são sempre eles que pagam.
Já ninguém sabe quais são as regras do jogo.
A legendagem com erros, em filmes e séries, é constante.
O descalabro total verifica-se em canais cabo, onde a legendagem é feita sem o mínimo de atributos a cumprir, sem sequer se investigar as coisas. Isto, juntamente com o facto de as pessoas que a estão a fazer não serem portuguesas, origina casos hilariantes, como traduzir nomes de grupos rock (Alguém conhece os “Perigo Biológico”? Aparecem nas legendas de um filme que estava a ver no AXN…)
Este problema não se verifica somente nos noticiários televisivos ou impressos. É geral.
O problema, Marco, é que as expectativas vão decrescendo pela parte dos consumidores. Parece que já ninguém liga pêva a coisas deste género.
E não haverá a mais remota hipótese de o erro vir directamente de Queirós? Ele, já se sabe, diz “hádem”; talvez o gajo que estava responsável pelo rodapé interpretou o “façam” como um Queirosiano “fassam”. Não sei se já repararam, mas ambas as palavras soam muito parecidas, sendo necessário ter o chamado “ouvido de tísico” para descobrir a ténue diferença.
Estava capaz de escrever uma tese de doutoramento sobre estas merdas… É giro defender o absurdo.
As pessoas ainda ha-dem vir aqui dizer que a colpa é do acordo ortografico. Sim, por que ate agóra todos sabemos a difrença entre um pacto e um pato, ou um facto e um fato. E nós que gostaria-mos de consseguir escrever corretamente no futuro, ficamos anciosos com estas mudansas. Não pode ser! Assim o pais não vai pra frente!
Voçês não axam?
Post mui pertinente e assaz acertado. Também penso que a questão de fundo reside no sistema educativo. Mas também na mentalidade pato-bravo dos actuais patrões merdiáticos, para quem tudo isto, o ofício noticioso, não passa de um negócio como outro qualquer: o que interessa não é fazer bem, é fazer barato.
Antigamente não era melhor, não sou saudosista, também existiam problemas e grunhos, mas neste aspecto da redacção, apesar de não haverem cursos superiores de jornalismo, vínhamos todos de outras licenciaturas (Direito, História, Filosofia, Línguas e Literaturas, etc.) e alguns dos meus colegas de então terem apenas a quarta classe, penso que havia muito mais cuidado com esta questão do português. Mais preocupação de “escrever bem”. Atrevo-me a dizer que em geral e não só no jornalismo. No geral, creio que basicamente baixaram terrivelmente os níveis de exigência na Escola, seja ela primária, secundária ou alegadamente superior. O mais importante é que o puto passe de ano e engorde a estatística do “sucesso escolar”. Como ou porquê, são questões mais ou menos secundárias. E depois saiem das universidades exércitos de semi-analfabrutos. É isso, acho eu.
Quanto ao capitalismo, não tem muito a ver com este assunto mas também quero meter a minha colherada, até porque é a primeira vez que aqui boto faladura neste blog. Quanto ao capitalismo, dizia eu, como nos mostra a História, ainda é o tal melhor dos piores sistemas de que falava o velho Churchill. Mas já foi pior e acredito que esta crise (de crescimento) irá corrigir muitas disfunções. Sejamos optimistas! A realidade é que a condição humana, inclusive na sua dimensão social, é uma coisa muito complicada…
E isto ainda são exemplos mínimos.
Erros de sintaxe, ortográficos, gramaticais… enfim… e não é só na TVI (pela qual nutro um pseudo-ódio jeitoso), é na SIC e RTP 1 também!
Custa-em acreditar que se vejam erros destes.
É o que continuo a dizer, alunos com mais de 3 erros GRAVES em testes/exames deviam CHUMBAR… e sim, esquecer a universidade, pelo menos, até saberem escrever na sua própria língua.
É triste, muito triste.
Mas também se faz bom jornalismo.
Vejam a entrevista do Mário Crespo a Medina Carreira
http://sic.aeiou.pt/online/video/informacao/mariocrespoentrevista/2009/3/mario-crespo-entrevista.htm
Tudo isto começa na educação, mas afinal o que é a educação?
É uma coisa muito mais abrangente do que escrever correctamente, do ponto de vista ortográfico; o “fassam” até nem é relevante, mais importante é a ética/odontologia no jornalismo que é coisa do tempo dos dinossauros!
Maria Botelho: mencionar a educação a propósito de um erro ortográfico não é retirar-lhe abrangência. De resto, concordo consigo.