
Ilustração e dedicatória de Zack Furness ao jornalista Muntadar al-Zaidi, o iraquiano que lançou os sapatos a Bush. Zack Furness apresenta-se como um membro do sítio Bad Subject e um indíviduo actualmente desagradado pelos reflexos rápidos do presidente dos EUA
O presidente dos Estados Unidos da América, o intrépido George Bush, conseguiu sobreviver a um ataque de sapatos. Estes saíram dos pés de Muntadar al-Zaidi, correspondente do canal de televisão Al- Baghdadiya, estação iraquiana que opera a partir de Cairo, no Egipto.
Não foram os agentes dos Serviços Secretos que o salvaram, pois o chefe resolveu o assunto sozinho. Bush desviou-se dos sapatos com tanta calma e agilidade que muitos na Web especulam se terá sido realmente esta a primeira vez que alguém lhe atirou qualquer coisa à cabeça. Seja como for, com a CNN a elogiar os «reflexos do presidente», Bush ficou bem na fotografia: está visto que o homem reage muito melhor a sapatos cheios de lama do Iraque do que a perguntas incómodas sobre o que ficou soterrado na lama do Iraque.
Também não é possível criticar os Serviços Secretos por não terem conseguido antecipar o ataque. Contra o presidente da nação mais odiada do mundo espera-se uma declaração esmagadora, aviões, bombas, rockets, tiros, qualquer coisa que desfaça corpos e crie nascentes de rios de sangue que percorram a América de Norte a Sul – um ataque à sapatada é demasiado extravagante para qualquer americano maior de idade que já tenha ultrapassado as suas divergências com o irmão mais velho. Os elementos dos Serviços Secretos usam sapatos e estou convencido de que também os tiram – mas apenas na intimidade e nunca quando o seu superior se encontra presente na mesma sala.
A explicação óbvia para tanta barbaridade é que não se tratavam de sapatos americanos, mas árabes – o que significa que a intenção do atacante não era tanto partir o nariz mais poderoso do mundo, mas sobretudo faltar-lhe ao respeito da maneira simbolicamente mais terrível de que um árabe é capaz.
Compreender as motivações de alguém que coloca a carreira profissional em risco para produzir uma única declaração moral com escassas consequências práticas – «O teu beijo da despedida, cão», gritou o jornalista enquanto lançava os sapatos – exige uma abertura de espírito que eventualmente esperamos de Barack Obama, mas nunca do ignorante Bush – por isso acredito que o assunto ficará para sempre arrumado na sua memória como o dia em que conseguiu desviar-se de um sapato com uns reflexos de atleta de basebol.
Mostrar a sola do sapato ao interlocutor é uma atitude considerada grave entre os árabes, quanto mais lançar-lhe o sapato inteiro. Se alguém se sentar diante de nós, cruzar as pernas e virar a sola dos sapatos na nossa direcção o mais provável é não darmos conta – para um árabe, que a considera a parte mais suja do corpo, é uma grave ofensa.
Bush não pareceu sentir-se muito ameaçado ou sequer ofendido, até porque não se pode comparar o poder de um sapato ao poder de uma bomba lançada por um daqueles aviões furtivos que parecem ter sido fabricados em Marte.
É portanto natural que Bush tenha arreganhado a tacha depois do incidente: uma bomba usada como sapato mete medo; um sapato usado como bomba dá vontade de rir. E foi com deleite que Bush fez questão de transmitir «os factos correctos» aos jornalistas, ao informá-los de que os sapatos eram de «tamanho 42.»
Uma descrição dos factos bastante adequada à sua mentalidade, não acham?
Um comentário
Não gosto do tipo
(eu sei, ninguém gosta) mas não consegui conter um sorriso com resposta dele… “não são do meu tamanho”. Tem sentido de humor este Bush.