Que relação existe entre a graciosa rapariga terrestre da foto e o falso humanóide grotesco aqui em baixo?
Esperem. É necessário primeiro recapitular a famosa história da autópsia ao extraterrestre de Roswell.
Nunca ouviram falar do caso Roswell? É uma delícia. Eis a lenda: no dia 7 de Julho de 1947, um disco voador despenhou-se numa zona desértica perto da pequena localidade de Roswell, no Novo México. Os destroços da nave e os corpos dos seus ocupantes extraterrestres foram recuperados por elementos da Força Aérea dos Estados Unidos, que os esconderam numa base situada na fatídica Área 51.
Autópsia de uma aldrabice

Isto é o que diz a lenda, que tem sido aperfeiçoada desde 1947.
Quanto ao mundo real, os destroços que alguns habitantes de Roswell dizem ter encontrado eram os restos de um balão de alta altitude ultra-secreto destinado a missões de observação – o Projecto Mogul, cuja tecnologia na época deveria parecer tão alienígena a um habitante rural dos Estados Unidos como uma nave espacial. A Força Aérea acreditava que seria possível usar estes balões para detectar experiências nucleares e mísseis balísticos da União Soviética. Os fumos da II Guerra Mundial já se haviam dissipado, pelo menos nos Estados Unidos; no Verão de 1947, o antigo aliado de guerra transformara-se já no Godzilla estalinista que iria devorar o mundo livre.
Quanto aos corpos dos ET, nenhuma das testemunhas originais alguma vez os mencionou – só nove anos após a história ser conhecida surgiram os primeiros relatos. Examinados à lupa, estes acabaram por revelar-se inconsistentes ou produto da mente de aldrabões. Graças a um investigador OVNI mais escrupuloso, Karl Pflock, sabe-se que Glenn Dennis – uma testemunha que prometera mostrar os desenhos que fizera dos cadáveres recolhidos no local da queda pelos militares – pediu a um amigo artista do Novo México que os desenhasse por ele com a promessa «de que poderiam fazer uma pipa de massa».
Não quero alongar-me muito na descrição do caso Roswell – esse trabalho já foi feito por Nuno A. Montez da Silveira, licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Ovnilogia. Se lerem o excelente artigo que escreveu – «Roswell: avaliando o mito», publicado no sítio «Ceticismo Aberto» (mantenho a grafia original do título brasileiro) – só continuarão a acreditar na história de extraterrestres em Roswell se não vos restar um único neurónio de bom senso dentro da cabeça.

O mito beneficia a indústria turística e folclórica montada em Roswell – sem extraterrestres, ninguém teria nenhum motivo em especial para visitar a pequena localidade do Novo México. Roswell continua a ser também uma oportunidade para ganhar dinheiro à conta da curiosidade das pessoas e do seu genuíno desejo de que a existência de vida extraterrestre inteligente seja demonstrada de forma inequívoca. É neste contexto específico (ganhar papel à conta da credulidade dos outros) que entra o filme da autópsia do ET e o seu produtor e distribuidor, um aldrabão de falinhas mansas chamado Ray Santilli (o tipo aqui em cima).
Lembram-se do filme e do impacto que causou? Foi em 1995. Em Portugal a notícia da existência de filmagens mostrando a autópsia ao extraterrestre teve direito a uma emissão especial conduzida por José Rodrigues dos Santos, que de forma muito apropriada apresentou o caso como a ‘descoberta ou a fraude do século’.
A emissão consistiu na exibição de um documentário sobre Roswell, depois veio o filme da autópsia, seguiu-se uma entrevista em directo ao produtor que descobrira os rolos de filme nos Estados Unidos, o já mencionado manhoso e esquivo Ray Santilli; por fim, Rodrigues dos Santos moderou um debate com vários convidados.
A história de Santilli era a seguinte: durante uma viagem a Cleveland, Ohio, no Verão de 1993, comprou filmagens inéditas de Elvis Presley actuando ao vivo em 1955. O operador de câmara que lhe vendeu essas imagens perguntou então se não estaria interessado «noutro tipo de filme.» O operador, descrito por Santilli como uma «pessoa nos seus oitenta anos e de aspecto genuíno», trabalhara nas décadas de 40 e 50 para a Força Aérea Americana e afirmava ter filmado o local da queda da nave espacial em Roswell, os destroços e, mais importante ainda, uma autópsia efectuada a um dos tripulantes. Santilli regressou a Inglaterra, reuniu o dinheiro necessário, voou para os Estados Unidos e comprou o filme ao operador.
A 5 de Maio de 1995, Santilli apresentou o filme no Museu de Londres a diversas personalidades dos media e investigadores do fenómeno OVNI. Como resultado, mais de trinta estações em todo o mundo adquiriram os direitos de exibição do filme da autópsia, para além de todas as organizações OVNI que ao longo dos tempos pagaram a Santilli para mostrar o filme nas suas reuniões e conferências – um grande negócio.
Na emissão especial da RTP, um dos convidados teve uma intervenção decisiva: o médico legista José Eduardo Pinto da Costa, conhecido também por ser irmão do presidente do FC Porto, arrasou por completo (e com grande veemência) o filme. Pinto da Costa é provavelmente uma das pessoas em Portugal com mais experiência na condução de autópsias e logo ali denunciou a aldrabice: os «médicos» do filme manuseavam os seus instrumentos «como talhantes, não como patologistas», as feridas no cadáver não eram consistentes com as que se esperariam em caso de queda de uma aeronave, não se percebia no filme nenhum critério ou metodologia científica na dissecação do cadáver, por aí fora. Um arraso total. Depois de o ouvir falar, restavam poucas dúvidas sobre a origem fraudulenta do filme.
Apesar da desmontagem feita por pessoas como Pinto da Costa, a nova história criada à volta do mito de Roswell continuou com a habitual discussão entre os crentes dos OVNI, que se recusaram a aceitar as evidências, e os cépticos.
Enquanto a malta discutia o sexo dos novos anjos tecnológicos, Santilli continuou a encher os bolsos: em 2006, foi um dos produtores executivos do filme «Alien Autopsy», uma comédia britânica que reconstituía, de forma leve e humorística, o «making of» do filme.

Dois dias antes da estreia de «Alien Autopsy», dá-se o definitivo golpe publicitário para promover o filme: o manhoso Santilli aparece no documentário Eamonn Investigates: Alien Autopsy a dizer que afinal o filme da autópsia tinha sido reconstituído por ele e pelos seus colaboradores a partir do que tinham visto no filme original. Não se tratava de uma aldrabice, atenção, porque o filme de facto existia e era verdadeiro; simplesmente encontrava-se tão danificado que o pobre Santilli se vira obrigado a filmar uma «reconstituição» para não defraudar a expectativa daqueles que estavam tão desejosos de o ver. «O verdadeiro filme», avisou no documentário de Eamonn Holmes, «tenho-o guardado em local seguro na Alemanha». Embora afirme que só tenha conseguido incorporar alguns «frames» do filme original na reconstituição, não foi capaz de os identificar.
O extraterrestre que tanto impressionou as pessoas em 1995 era apenas um boneco construído pelo escultor e especialista em efeitos especiais John Humphreys. As entranhas do humanóide foram compradas num talho em Londres que Humphreys costumava frequentar: carne e restos de galinha, miolos de carneiro envolvidos em geleia de framboesa – imaginar tanta gente a discutir a possibilidade de vida extraterrestre a partir de miolos de carneiro é uma visão demasiado deprimente mesmo para um céptico como eu.
Tudo o que é visto no filme, incluindo os destroços e os hieróglifos nos destroços, é produto da imaginação artística de Humphreys. O operador de câmara filmado a ler uma declaração sobre a autenticidade do seu filme e da sua identidade foi escolhido ao calhas por Santilli em Los Angeles: pressionado por todos aqueles que duvidavam da existência do tal operador de câmara que lhe vendera o filme original, descobriu um sem-abrigo octogenário, pagou-lhe 500 dólares e uma noite num hotel em troca do trabalho. «Ele saiu-se tão bem porque, conforme descobrimos mais tarde, o homem já tinha sido actor. Tivemos imensa sorte». Toda esta farsa é admitida por Santilli e seus colaboradores com um sorriso no rosto.
Mas eis que entra finalmente em acção a menina da foto lá em cima e assim se conclui a nossa história. Martina Tycova, apresentada como «uma supermodelo checa, terceiro lugar no concurso Elite Modelling Agency’s Look of the Year», contratou os serviços da «prestigiosa firma de advogados Horak e Chvosta para processar Ray Santilli e colaboradores por ‘fraude ao consumidor’». No comunicado, lançado na Web, oferece ao criador do boneco, John Humphreys, «imunidade em troca do seu testemunho». Seria um desfecho merecido para o aldrabão Santilli, mas tudo indica que a supermodelo Martina Tycova – sobre quem não encontrei uma única referência em lado nenhum na Net excepto sítios de OVNIs – e o seu processo seja uma criação tão autêntica como o extraterrestre autopsiado.
Saber mais: The Alien Autopsy: Game Over | The Story Behind the ‘Alien Autopsy’ Hoax | Eamonn Investigates: Alien Autopsy (Filme) | The Roswell Report: Fact vs. Fiction in the New Mexico Desert
4 comentários
sim, senhor, um post bem escrito!
mas estou um pouco confuso, porque ali a meio, quando começas a falar do especial do josé rodrigues dos santos e do debate, dizes que este se deu em 1995, mas que o santilli só apresentou o filme no museu de londres em 2005
percebi mal??
Não percebeste mal, não. Eu tenho é esclerose múltipla galopante, estou a ver…
Obviamente, é gralha: foi em 1995, não em 2005
Bom post.
Lembrei-me do sketch que o Herman José fez na alturar a satirizar essa emissão da RTP. Bons tempos…
“Eu tiro-te o pipo”
Roswell, ou melhor, a “prova de vida extraterrestre”, foi um briharete conseguido pelos Estados Unidos para encobrir aquilo que andavam a fazer, experiencias ultra-secretas que nunca deveriam ter sido conhecidas. Quando a suposta “nave” caiu, e com a misssao a um passo de ser expoxta, foi necessário encontrar uma solução! E neste caso foi uma bastante conseguida!
Gosto especialmente da forma como estes casos são aboradados nos “Ficheiros Secretos” :p