O programa de debates da SIC «Aqui e Agora» sobre Fraudes na Internet, deixou-me tão irritado que tive de conter o impulso de ligar o portátil e começar logo a escrever.
Quando se pretende comentar determinados debates, sobretudo quando um dos intervenientes é o homem dos sete ofícios Moita Flores, é preferível escrever com dedos mais frios.
Ao ouvir aquele tipo falar sobre blogues e Internet, dei por mim quase a suspirar por mais uma intervenção esclarecida do Pacheco Pereira – ora, isto é um sintoma de stress demasiado sério para ser ignorado.
Moita Flores diz que as pessoas blogam por solidão ou narcisismo, reduzindo assim a blogosfera à sua visão preconceituosa de uma vivência que não conhece. Eu não quero chegar aqui e dizer que o Moita Flores é burro, desejo antes ficar com a sensação de que o homem me lembra um certo animal de quatro patas mais pequeno que um cavalo. Portanto mais vale contar até 100 antes de abrir o portátil. 1,2,3, por aí fora, vocês percebem,
100!
Ora bem. Quanto à escolha editorial da SIC, nada vi de realmente inédito. Ao apresentar a Web como um «mundo novo», quando os males ou os bens que a Rede contém são reflexo de um mundo velho e sobejamente conhecido, ou seja, reflexo das nossas escolhas, inquinou o sentido do debate e transformou uma maravilhosa ferramenta de trabalho, partilha, cultura, comunicação e informação em algo de ameaçador.
Tendo em conta que muitos dos telespectadores do programa ainda não tiveram um contacto mais profundo e conhecedor com a Web, imagine-se os estragos que um ângulo de abordagem destes provoca na percepção das pessoas do que é «este mundo das internetes».
O que ainda não consigo perceber é se a perspectiva deste debate se deve à ignorância, ao sensacionalismo ou ao medo de perder a hegemonia da comunicação, ou seja, dito de uma forma que todos possam compreender: medo de ficar sem o guito.
À medida que as pessoas vão descobrindo a Internet, vão passando menos horas diante do televisor – se é esse o caso, medo do Bicho Papão e de perder o guito, então este debate esteve ao nível das tácticas FUD (Fear, uncertainty and doubt, Medo, incerteza e dúvida) usadas em primeiro lugar pela IBM para abater a competição da recém-criada Amdahl Corp e, mais tarde, copiadas com sucesso pela Microsoft.
Nada disto é novo, claro.
No livro por duas vezes já citado no Bitaites – Geração Blogue, de Giuseppe Granieri – recordam-se no primeiro capítulo os tempos em que os media tradicionais falhavam de forma catastrófica no seu papel de «únicos mediadores na dificílima tarefa de divulgar a Rede e de a abrir a um público mais vasto. Diferentes da escola e da Universidade, os media têm um tempo de acção mais adequado para relatar à velocidade das novas tecnologias, mas frequentemente não têm (ou não se permitem) o tempo, mais lento, necessário para entender fenómenos complexos.»
Granieri recorda algumas gaffes, como o caso – relatado pelo Messaggero em Janeiro de 2003 – da webcam que espiava um locutor de rádio com o computador desligado, desafiando assim as próprias leis da Física. Investigações posteriores acabariam por revelar que o presumível hacker obtivera as informações ao ouvir casualmente uma conversa do locutor de rádio que não tinha desligado bem o telefone.
«No entanto» – prossegue o especialista italiano – «mesmo sem mal-entendidos, prevaleceu a tendência jornalística para dar relevo àquilo que faz notícia: a prisão de alguns pedófilos ou as fraudes com cartões de crédito constituem decerto mais notícia do que milhões de pessoas que, silenciosamente, trocam entre si conhecimentos e modos de ver o mundo.»
Ao invocar as palavras de quem de facto entende o que se está a falar, chego à conclusão que qualquer irritação é inútil, uma perda de tempo – excepto no caso de Moita Flores.


Duas mensagens em rodapé, mas nenhuma faz sentido (Imagem original: Ecos Imprevistos)
O homem tem o notável talento de dizer lugares-comuns com a mais absoluta das convicções. E esta é uma qualidade óptima para quem quer aparecer em televisão, como qualquer político sabe. E ele também é político. Ele é tudo e mais alguma coisa. Ser ou não ser, para Moita Flores, não é questão que se coloque. Um especialista em banalidades tem convicções sobre o caso Maddie, a polícia, os ladrões, o mar e o campo, o céu e a terra, os santos e os terroristas, as mensagens instantâneas e as comunicações encriptadas, os blogues, a Internet, o que se quiser. Acho que seria até capaz de dissertar sobre a psicologia da torneira da minha casa de banho, se isso implicasse um debate público. Obviamente, não precisava sequer de a usar. Quem viu uma torneira, viu todas.
Dizer que «a exposição pública da vida privada na Internet» (referindo-se às pitas do Hi5, as menores e as que já têm idade para ter juízo) «é uma enorme demonstração de solidão» e que «quanto maior a exposição, maior a solidão» é sem dúvida uma frase sonante. Fica no ouvido como um refrão dos Tokio Hotel ou do Vítor Espadinha. Se Moita Flores não fosse Moita Flores, o que mesmo para ele é difícil, teria imediatamente entendido que na grande maioria dos casos não se trata de uma questão de solidão, mas sobretudo de exibicionismo.
A Internet, tal como de resto a televisão, potencia o exibicionismo. A diferença neste caso é que a Internet potencia o exibicionismo de todos, enquanto a televisão potencia o exibicionismo de Moita Flores.
20 comentários
Bom artigo este! Apesar de te só concentrares no coitado do moita Flores que não sabe mais mas dá jeito à SIC. Também acho esse Moita Flores um comentador de tudo e especialista em quase nada…
Vi o programa com a atenção melhor que pude e acho que abordaram os temas pelo lado sensacionalista e negativo. Faltou o outro lado que corresponde a todos aqueles que contribuem positivamente na internet.
Repara que o iluminado do Moita Flores ao falar em blogues lembrou-se logo do terrorismo e afins. Assim não dá…
O meu artigo (com fotos):
http://armpauloferreira.blogspot.com/2008/05/aqui-e-agora-os-perigos-da-net.html
Marco, discordo com a tua opinião. Acredito que o exibicionismo respira solidão.
No debate da SIC eles (ainda) encaram um blogue como a sua suposição inicial: Um web log. Daí atribuírem a exposição da vida privada à solidão. Na parte do blogue, até concordo contigo porque hoje em dia nem todos os blogues são diários: já nem todos escrevem quantas borbulhas têm na cara porque a puberdade chegou.
Agora aumentar a exposição no hi5 (ou algo equivalente) acredito que seja uma nova forma de ostentação dos novos tempos. A ostentação deixou de ser «o meu carro é mais potente que o do vizinho» para ser «estive em Paris e tu não». Para quê demonstrar ao mundo isto ou parecido? Não é uma demonstração de solidão?
PS: Estou contente por finalmente teres escrito algo que discordasse contigo, para podermos ter um debate saudável de ideias.
Meu caro Pedro, terei muito prazer em discordar contigo e responder-te. Mas hoje não. Estou demasiado cansado. Amanhã há mais!
Caro Pedro
Pois eu concordo inteiramente com o Marco. Tens razão quando dizes que eles pegaram apenas num aspecto e que nesse aspecto até podem ter razão. O problema é que não o disseram – que estavam apenas a analisar um aspecto – entre milhares de milhares de possibilidades. E repara que isso é que é a essência da net e por consequência dos blogs. Aliás sempre foi mesmo antes da web no tempo dos newsgroups por exemplo. Diversidade. Uma imensa, espectacular diversidade. Mecanismos de auto-controlo, etc … Não reconhecer isso e falar apenas de angulo é como se eu fizesse um programa sobre digamos por exemplo Portugal e escolhesse falar sei lá da Quinta da Marinha. Imagina a ideia com que se ficaria de Portugal, entendes ? A questão é que para nós é obvio que aquilo retracta apenas uma parte da realidade mas para 80% das pessoas que viram o programa os blogs vão passar a ser aquilo. Isso é grave. É mau jornalismo, é má informação, é má televisão.
«Fica no ouvido como um refrão dos Tokyo Hotel ou do Vítor Espadinha.»
E também faz os ouvidos sangrarem?
Tive pena de não ter visto todo – só vi os minutos finais -, mas vindo da SIC, acredito que tenha havido sensacionalismo quanto baste.
Onde está «Tive pena de não ter visto todo», devia estar «Tive pena de o não ter visto todo».
Que o Sr. Moita Flores mande umas postas sobre o caso da Maddie, eu ainda compreendo. Mas, sobre o assunto em debate, que crédito tem alguém que nem se preocupa em fazer algo tão básico como backups dos seus ficheiros?
http://jn.sapo.pt/2008/05/13/ultimas/_Apag_o_inform_tico_na_C_.html
E tu viste o debate… porquê? Tu és obviamente masoquista.
Eu acho que estes debates são importantes: metem medo às pessoas e mantêm-nas afastadas da internet. Isso é óptimo! Pessoas que se assustam com o que diz Moita Flores, não fazem falta nas internetes.
Esta boca era para mim??
só vi um poucochinho… e deu para perceber que o programa destinava-se a assustar os telespectadores… cada vez que a um canal de televisão promove um debate destes, fico com a ideia de que eles cada vez têm mais medo da "fuga" da publicidade para a internet…
o mais caricato do que vi, foi acusarem a internet de promover a exposição do mais íntimo de cada um… quando os canais de televisão apostam em programas tipo big brother & afins! é ridículo! mas, infelizmente, o ridículo não mata…
Actualmente quase que não vejo televisão e digo quase por causa dos "60min" e do "californication", o resto é incrivelmente desinteressante e por norma de má qualidade.
Jornais e revistas já não tenho memória de quando comprei o último.
Com a net filtro o que não gosto e por vezes encontro nos blogs histórias que podiam muito bem ter sido escritas para a antiga revista "Grande Reportagem".
O teu Bitaites assim como outros são a minha nova TV Jornais e Revistas.
Com isto quero dizer que para mim é como tu dizes: "medo de ficar sem o guito."
definitivamente concordo contigo, pá. a desinformação e o medo que provocam serve apenas para manter afastadas as massas ainda não convertidas ao mundo on-line. tentando escrever uma teoria ainda mais conspirativa que o terrorista Al-Marco Bin-Santos, diria mesmo que o estado está por trás, pois um povo ignorante é mais facilmente manipulado. começo a acreditar que um dia um cenário próximo do que aconteceu no filme "V de Vingança" parecer-nos-à amargamente familiar…