Giuseppe Graniere é considerado um dos maiores especialistas italianos em cultura digital, escrevendo há muitos anos sobre tecnologia e sociedade. Entre os livros que publicou, destaca-se um através do qual procurou analisar o fenómeno dos blogues, Geração Blogue, onde cumpriu um duplo objectivo: escrever tanto para o recém-chegado à blogosfera como para bloggers mais experientes.
Já não é a primeira vez que este livro é aqui citado – por ocasião da problemática Page Rank, transcrevi parte de um capítulo onde eram explicados os mecanismos de indexação do Google; agora volto a transcrever outra parte, muito bem conseguida de resto, onde Granieri propõe uma analogia entre o funcionamento da blogosfera e o dos formigueiros, entre a feromona e o link, entre os bloggers e as formigas.
(…) O exemplo mais apropriado [para descrever o funcionamento dos blogues] é o da colónia de formigas. A analogia é evidente, visto que a organização destes pequenos insectos sociais reflecte bastante fielmente a de uma rede. Em síntese perfeita, a capacidade de uma formiga encontrar o percurso mais curto é comparável à exigência de um utilizador em encontrar a informação que procura no menor espaço de tempo.
Aquilo que as formigas resolvem parece um problema simples, mas não o é. Vejamos um caso prático recorrendo ao clássico exemplo do mensageiro. Um transportador tem de entregar, suponhamos, vinte e cinco encomendas em tantos outros locais diversos. O seu problema é encontrar a melhor sequência de entregas, aquela com que efectivamente poupa tempo, gasolina, pneus, etc.
Embora possa parecer uma questão sem importância, para analisar todas as variáveis e todos os percursos alternativos (com o método definido «da força bruta» porque enfrenta todas as encruzilhadas possíveis) um computador muito potente, capaz de processar vários milhões de combinações por segundo, empregaria bem mais de mil anos. No entanto, as formigas encontram sempre o caminho mais rápido. Simplesmente cooperando.
Quando uma formiga encontra o melhor percurso, comunica através do ambiente (deixando vestígios de feremonas) e coloca a sua experiência à disposição das outras, que assim conseguem encontrar o caminho mais curto entre o formigueiro e o alimento. Uma experiência no terreno demonstrou que, perante dois percursos iguais, as formigas começaram a seleccioná-los casualmente. A certa altura, por mera flutuação estatística, um grupo mais numeroso percorreu um dos caminhos, depositando uma maior quantidade de feromonas e influenciando as escolhas sucessivas das outras formigas. Numa segunda experiência, estabelecidos dois percursos de diferente comprimento, as formigas mais rápidas a regressar (as que tinham escolhido ir e vir pelo mesmo caminho) deixaram mais feromonas porque tinham percorrido duas vezes este percurso. E todas as outras se encaminharam pela via mais rápida. É deste modo que praticamente todas utilizam o conhecimento comum.
Na realidade, sem percursos preestabelecidos, a pesquisa verifica-se através de um processo estocástico, que é como quem diz, baseado na probabilidade, em que cada formiga age segundo os dados comuns e cujo resultado é uma solução encontrada colectivamente.
O fascinante estudo da swarm intelligence – a sofisticada inteligência comportamental das colónias de insectos – ensinou-nos muito. Estes grupos, embora não possuindo coordenação, conseguem estruturar um comportamento colectivo complexo e eficaz, que resulta de uma correlação de acções elementares por parte de cada um dos indivíduos. São modelos de tal maneira funcionais que inspiraram muitos algoritmos, entre os quais o célebre Ant Colony Optimization (ACO) desenvolvido pelo italiano Marco Dorigo, que permite chegar a uma solução do problema do mensageiro e de outros problemas complexos.
A analogia entre a blogosfera e a organização descentralizada dos insectos sociais é muito forte. Para além da característica comum de base, isto é, a existência de sistemas de cooperação espontâneos derivados do facto de cada indivíduo se organizar por si, em ambos os casos há regras simples de funcionamento, aspectos de pura casualidade (percursos diversos, erros, etc) e forma de competição ou controlo que ajudam a estabilizar o comportamento global.
É claro que a analogia se detém a nível abstracto, porque, como é evidente, no comportamento humano pesam variáveis diferentes. Contudo, se a descrição se verifica a nível do sistema, também pode funcionar para alguns modelos de actividades humanas: «As expressões matemáticas que utilizamos para caracterizar um podem ser utilizadas para caracterizar o outro, se bem que as variáveis e os parâmetros nas equações tenham significados muito diferentes.»
Vejamos a tarefa colectiva do filtro de conteúdos, que não esgota a actividade do bloguista mas tem uma parte relevante nas prestações de todo o sistema, tornando-o atraente para o público exterior e interior, e girando os fluxos de informação.
Tal como uma formiga procura alimento, o bloguista (que é um operador da read/write Web) procura informações. Cada bloguista age por sua própria conta e, como sucede quando se observa uma única formiga, parece que age de maneira desligada de todos os outros. Contudo, a verdade é que alguns imperativos comportamentais simples, seguidos por todos os indivíduos, permitem o funcionamento do sistema.
A primeira regra, de certo modo instintiva (e vital, como para as formigas pode ser a procura de alimento) é aquela a que poderíamos chamar a «regra do interesse». Trata-se efectivamente, de uma acção espontânea que, no entanto, se torna útil do ponto de vista colectivo. De facto, como é normal, cada bloguista procura na Internet estímulos que considera interessantes e propõe aos seus leitores os melhores frutos da sua pesquisa ou, em qualquer caso, tudo aquilo que de algum modo lhe provoca um comentário ou lhe sugere que, através de um link, possa interessar aos seus leitores. Graças à regra do interesse estabelecem-se contactos e as relações de confiança nos clusters, que se agregam em volta de temas comuns.
Depois há a regra do «link para a fonte». Por vezes, quando necessário, também se aponta para a fonte intermédia. Muito frequentemente se descobrem conteúdos interessantes graças a um outro blogue e, além do link para o material original, cria-se também uma ligação com o blogue que prestou o serviço. A fórmula pode ser diversa («Graças a [Nome-Blogue]» ou «Via [Nome-Blogue]», etc).
Se por um lado é evidente a analogia coma feromona (mais links são «depositados», mais pessoas seguirão o percurso), por outro não há dúvida de que esta regra imanente venha a ser adoptada como convenção social e primeiro se faça notar o desrespeito e depois, em caso de recidiva, ele seja publicamente condenado. Nos Estados Unidos houve recentemente uma polémica feroz sobre uma presumível tendência por parte de alguns bloguistas famosos para não respeitarem esta norma. Entre outras coisas, esta leitura de links explica bastante bem como se realiza o preferential attachment, que gera a lei rich get richer [falada em capítulos anteriores].
Por vezes, sobretudo no caso de pessoas recém-chegadas à blogosfera, há alguém que «erra» e não põe o link. Em casos muito raros, arriscando a exclusão – visto que por um lado os referrers no-lo dão a conhecer e por outro é um gesto não apreciado -, essa pessoa nem chega a construir o blogrolling. Com o tempo, observando a prática comum, todos acabam por se adaptar.
Obviamente que a regra também se aplica à produção de conteúdos originais, quando possível. Em geral há sempre algum livro para citar (com link para a página de determinada livraria online), um ensaio, um conceito expresso por outros. Se há uma fonte, o bloguista estabelece um link. O público, estando habituado a ter a possibilidade de aprofundar se o deseja, conta com isso. E se o link não existe, frequentemente pede-o nos comentários.
É uma regra simples, que gera, porém, um efeito complexo. Graças a esta regra, sistemas como a Technorati podem sintetizar a «agenda» da blogosfera, filtrando automaticamente os conteúdos e estabelecendo os interesses dominantes. Mas também no interior dos vários topic clusters a observância desta norma consegue regular o tráfego e dirigir os leitores para os seus objectivos.
Como no caso das colónias de formigas, trata-se de um processo estocástico, de probabilidades e não necessariamente isento de erros. Existem factores evidentes de casualidades.
No grupos de insectos sociais, erros e casualidades não são bugs; pelo contrário, contribuem para o sucesso ajudando-os a descobrir novos percursos e a explorar. A auto-organização alimenta-se dos erros, que dão à colónia flexibilidade (a colónia consegue adaptar-se às mudanças ambientais) e robustez (mesmo quando um ou mais indivíduos erram, o grupo consegue nas mesma desempenhar a sua tarefa. (…)
3 comentários
Quando li esse livro, em 2006, também achei interessantíssima a analogia que o autor faz entre os links e as feromonas.
Outra das suas frases bem conseguidas é aquela que diz, salvo o erro, qualquer coisa como “A Web, nos tempos que correm, é uma ginástica para as ideias“.
Por esta razão vim eu para aqui dar que fazer aos neurónios.:mrgreen:
Ah!, lembrei-me agora de outra de Granieri: «…a popularidade de um blogue é a opinião dos bloguistas.»
Assim, pela parte que me toca e segundo o que me é dado a observar, caro Marco do blogue bué querido, você diz/escreve umas coisas interessantes.
depois de ler esta transcrição (obrigado por te teres dado ao trabalho), o que verifico, é que à semelhança de outras actividades humanas, ter/publicar um blog se faz como todas as outras coisas – faz-se com a mesma estrutura, da mesma forma, para se ser aceite.
até que surge alguém que rompe com o normal, e depois é imitado, acabando por seguir também de modelo. tal como na sociadade da vida real, se me faço entender.
a analogia com as formigas… é pá, é daquelas coisas que tão cedo não me passava pela cabeça, mas tem a sua lógica
Nos meus tempos de escola, na década de 80, século XX, o meu professor de química, uma daquelas pessoas que nasce para ensinar, explicou numa aula esse “fenómeno”, o das formigas fazerem carreiros perfeitos, umas atrás das outras, nas suas deambulações em busca de comida. Nesse tempo não se falava em feromonas! A primeira vez que li sobre estas “hormonas” defendia o autor que, estas estariam implicadas na atracção química entre um homem e uma mulher, justificando assim, aquelas atracções assolapadas que por vezes acontecem entre um casal. Dizia o meu professor que as formigas deixam um rasto de ácido fórmico, por isso sentimos, ao trincarmos uma, acidentalmente, um ardor ou um género de picadas na língua. Se limparmos a superfície no meio de um carreiro de formigas, as que seguem atrás vão dispersar-se, desorientadas, porque perderam o rasto das que as precediam. Certo ou não foi isto que aprendi na escola!
Como vê também eu tenho andado a deambular aqui pelo o seu blogue feita uma formiguita inquiridora!