Marco Santos — 30/11/2007 @20:20

Quatro filmes (e posts) que já passaram à história

Tanto se escreveu neste blogue ao longo destes quase três anos que de vez em quando socorro-me de reedições. Estas não só permitem aos novos visitantes tomar contacto com textos que de outra forma dificilmente conheceriam como me deixa a algum tempo para descansar quando não estou nada inspirado – é o caso do dia de hoje (e provavelmente dos próximos).
Os textos que se seguem são sobre dois filmes que não gostei (o terceiro episódio de Star Wars e A Paixão de Cristo, de Mel Gibson) e dois que sempre adorei (The Shining, do Kubrick, e Vem e Vê, de Elem Klimov), embora por motivos diferentes. O post está dividido em quatro páginas, pelo que quem acompanha o blogue pelos feeds terá que vir cá pessoalmente fazer uma visita, se quiser ler tudo.

Matar saudades do Terror The Shining é um filme de Stanley Kubrick baseado numa história de terror de Stephen King, um dos mestres do género.
É impossível escrever sobre The Shining como se fosse uma crítica de cinema. Para mim nem é filme, é recordação. Uma memória de um tempo já desaparecido quando nós, miúdos deslumbrados por tudo o que víamos no ecrã, começámos a descobrir que o cinema era mais do que um espectáculo de circo bem montado.
Criticar um filme que nos fez descobrir o cinema é como recordar as nossas brincadeiras de infância quando fazíamos de soldados: não nos passa pela cabeça dizer agora que não prestavam porque eram demasiado ingénuas e não tinham em conta os jogos de xadrez de políticos e militares. É como na música: os Pink Floyd, pelas mesmas razões, serão sempre especiais.
Mas ontem à noite – lixado por uma gripe do caraças e semi-adormecido diante do televisor – vi que o canal Hollywood estava a dar o The Shining. Não resisti e fiquei. Dei por mim a rever o filme, antecipando as minhas cenas preferidas com o Jack Nicholson e a tentar esquecer-me dos erros e imperfeições que lhe encontro agora.
Ao The Shining continuo a perdoar tudo: os erros na montagem, a sombra do helicóptero na sequência de abertura dos planos aéreos e a desequilibrada interpretação de Jack Nicholson – ora cabotino ora brilhante, e às vezes na mesma cena. Mas foi ao vê-lo pela primeira vez que descobri a arte da representação em cinema, foi nesse filme que descobri que a nossa percepção de uma cena pode ser manipulada pela montagem – e isso para mim é arte – foi com Kubrick que notei a fotografia, os planos, os enquadramentos, os travellings. E a música de Bartók.
A verdadeira história de terror em The Shining não assenta nos truques do género – assusta e mata, assusta e mata – mas na caracterização psicológica do pai Jack: mesmo nos momentos iniciais do filme, quando ele ainda está normal, se notam já as expressões de enfado e os sorrisos sarcásticos. Jack é pai de família mas está farto da mulher e do filho. Não se conseguindo evadir através da escrita, vive dividido entre representar o papel que a sociedade espera dele e o desejo de fugir e abandoná-los. Os momentos em que ele se consegue livrar desse papel e encontra os fantasmas do hotel não são momentos de terror, como seria de esperar em filmes do género, mas verdadeiros momentos de libertação.
Mas é melhor deixar ficar The Shining intacto na memória. Continuo com uma gripe do caraças e não me sinto inspirado para escrever. O acto mais libertador que me tem acontecido nas últimas horas é assoar o nariz. Enfim – tal como no passado nunca resisti em mostrar The Shining com a urgência de quem está a revelar Cinema pela primeira vez, também agora não resisti em escrever um post sobre o assunto. Fiquem bem. [Escrito a 2 de Abril de 2006]

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4 comentários

  • 1
    fez-se à net com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    30 de Novembro de 2007 - 21:03 | Link permamente

    Confesso que o filme me decepcionou.Pela violência gratuita e sádica nos preparativos punitivos antes da crucifixação.Mel Gibson deve ter tido orgasmo atrás de orgasmo na direção de tais cenas, Hitler e sua entourage se pudessem ter visto o filme achariam que os campos de concentração eram jardins de infância com aqueles sabonetes de pedra e aquele gás apenas…

  • 2
    fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    30 de Novembro de 2007 - 22:37 | Link permamente

    “(…) antevi naquela reacção à tortura uma manifestação de carácter divino. Depois despoletou-se-me o velho conflito entre a minha fé na Ciência e a sensação subjectiva de que um Universo sem Deus não pode fazer sentido.”

    :) ) a “sensação subjectiva” é a voz do teu coração. é o portal para a nossa sabedoria interior. tu tens é o hábito de racionalizar a vida ;) daí o conflito. experimenta a perspectiva da “semana dois” aqui: http://semear.blogs.sapo.pt/3036.html

    ainda bem que tens grandes momentos de inspiração para preencher os momentos de ausência ;)

  • 3
    FNP.PT
    fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    1 de Dezembro de 2007 - 23:37 | Link permamente

    O filme de um “murcão” que escreve “murcons” é dos tais que só se apresenta em festivais. Foi exibido na casa dos “rosinhas”, com lotação esgotada.

  • 4
    fez-se à net com Firefox 2.0.0.11 Firefox 2.0.0.11 em Windows XP Windows XP
    11 de Dezembro de 2007 - 18:04 | Link permamente

    Perfeito, Marco. Uma das melhores resenhas que já vi sobre The Shining. E vou mais além: para mim sempre foi uma comédia de humor negro.

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