Marco Santos — 30/10/2007 @16:29

Marte, marcianos e pânico na América

A 30 de Outubro de 1938, Orson Welles deixava a América em pânico por causa de uma emissão de rádio baseada num livro de HG Wells e onde se contava a invasão marciana do planeta Terra. Como hoje faz exactamente 69 anos que esse episódio ocorreu, decidi repescar este post. E podem fazer o download da histórica emissão, também.

A Guerra dos Mundos, escrito em 1898, é um clássico da literatura de ficção científica (FC). O seu autor – HG Wells – já tinha publicado romances notáveis dentro do género: A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moreau (1895) e O Homem Invisível (1897), mas foi a história de uma invasão de Marcianos que fez dele um pioneiro da FC (Ficção Científica). A versão original do livro – em inglês – pode ser lida nesta página.
HG Wells não descobriu a pólvora ao imaginar um planeta Marte habitado. Nos finais do século XIX tinha-se como certo que vivia no planeta vermelho uma civilização muito mais antiga e avançada que a nossa, lutando pela sobrevivência face a um clima instável e hostil e à escassez de água.

O que um erro de tradução pode fazer. O mito dos canais marcianos teve origem numa má tradução do italiano para o inglês. Tudo começou nas observações do astrónomo italiano Giovanni Schiaparelli (1835-1910). Observando Marte ao telescópio, ele reparou numa série de linhas finas que uniam áreas escuras na superfície do planeta. Schiaparelli baptizou estas linhas de canali, no sentido de canais naturais como aqueles que unem regiões alagadas. Acontece que a expressão de Schiaparelli foi traduzida para canal que, ao contrário de channel, significa canal artificial. E a maior obra de engenharia da época era precisamente o Canal do Suez.

Não admira que cientistas de renome, como o americano Percival Lowell, se tenham deixado levar pela imaginação, entusiasmando-se com o trabalho dos engenheiros marcianos. Lowell ficou apanhado pelos canais de Marte e nunca abandonou esse fascínio até à sua morte, em 1916.
Construiu um observatório com o seu próprio dinheiro e, durante quinze anos, dedicou-se a observar os canais de Schiaparelli e imaginar obras de engenharia que serviam para trazer água dos pólos e irrigar as regiões equatoriais.

Os canais de uma civilização marciana lutando pela sobrevivência foram uma realidade durante anos. Imagine-se, então, o impacto de uma novela em que se conta a invasão da Terra por parte de alienígenas de Marte agressivos e mais avançados que nós. O mais fascinante (pelo menos para mim) na novela de Wells é a forma como acaba. Tomou-me completamente de surpresa, pois nunca me passou pela cabeça que um escritor de FC, em 1898, imaginasse que os marcianos seriam vencidos por contaminação bacteriológica e não por uma qualquer acção militar heróica.

Em 1938, com melhores meios de observação, já se suspeitava ser improvável existir vida em Marte, quanto mais inteligente.
Mas tais avanços no conhecimento não impediram que um então desconhecido Orson Welles, de 23 anos, juntasse a trupe do Mercury Theatre para uma emissão radiofónica baseada no livro de HG Wells e colocasse a América em pânico.
Eram tempos difíceis. O fracasso diplomático da Inglaterra e da França tivera como consequência a entrega da Checoslováquia a Hitler. Nas vésperas da II Grande Guerra Mundial, o temor do expansionismo nazi era tão real para os americanos como os canais marcianos para Lowell. Notícias sobre a situação na Europa interrompiam constantemente a programação da rádio.
A 30 de Outubro, Welles faz a célebre dramatização radiofónica de A Guerra dos Mundos. As consequências dessa emissão criaram episódios de pânico colectivo tão clássicos como o livro em que se baseou: mais de um milhão de pessoas nos EUA foram afectadas. Muitos fugiram de casa, outros suicidaram-se, acreditando que o seu país estava a ser invadido por marcianos.
Embora não estivesse à espera que um milhão de pessoas entrasse em pânico por causa dos seus marcianos, o pequeno génio de Citizen Kane assumiria, logo em 1955, num especial da BBC que lhe foi dedicado – Orson Welles Sketchbook -, o carácter pouco inocente da dramatização. O mundo parecia ser alimentado por tudo o que saía daquela máquina, afirmou então Welles. Nesse sentido, a transmissão fora um assalto à credibilidade daquela máquina e um alerta para que as pessoas não se deixassem orientar por opiniões pré-formatadas, viessem elas ou não da rádio. [Download: a histórica emissão radiofónica de Orson Welles]

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6 comentários

  • 1
    FNP.PT
    fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    30 de Outubro de 2007 - 19:04 | Link permamente

    Engraçado como os adeptos do “open” (palavra do baú das velharias) acreditaram nisso, mesmo vindo da USA monopolista.
    Isto quer dizer que eles (do open) também são enganados como os outros marmelos :) Com a agravante. Continuam, nos dias de hoje.

  • 2
    FNP.PT
    fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    30 de Outubro de 2007 - 19:14 | Link permamente

    FNP.PT escreve: Os comentários no Bitaites são moderados. Desculpe e obrigado pela sua compreensão. Adoramos enfurecer os trolls!

    Ké isto pá? Eu não escrevi nada disso! Mas como “open” pela frente, que são “troleis”???? Os que conheci, já acabaram (aki) há uns anitos, que eram uns autocarros com uma antena eléctrica.

  • 3
    fez-se à net com BonEcho 2.0.0.9pre BonEcho 2.0.0.9pre em Windows XP Windows XP
    30 de Outubro de 2007 - 19:56 | Link permamente

    As coisas que eu invento só para te enervar, pá :mrgreen:

  • 4
    FNP.PT
    fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    30 de Outubro de 2007 - 20:36 | Link permamente

    Tu, pá, és dos poucos que NUNCA me enervam! És puro e NÃO anonimo :)
    Saudações open!

  • 5
    Mª João Nogueira
    fez-se à net com Firefox 2.0.0.2 Firefox 2.0.0.2 em Mac OS X Mac OS X
    31 de Outubro de 2007 - 18:29 | Link permamente

    Fico curiosa, imagino se a cena se desse hoje. Se numa CNN ou sucedâneo se emitisse algo desse género. Os processos legais deixariam o canal à beira da bancarrota, a blogosfera rejubilaria, e o autor da brincadeira nunca mais conseguiria fazer nada de jeito na vida.

    Não?

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