Marco Santos — 14/07/2009 @17:26

Vamos lá puxar pela cabecinha II

Os blogues são usados por quase toda a gente que marca presença na Web como plataforma de publicação e não propriamente para blogar. O facto de se fazer uso desta forma simples e prática de publicar conteúdo não significa que todos os blogues sejam blogues ou pareçam escritos por pessoas.

Há blogues que na verdade são sítios ou portais: a sua escrita é a do press-release ou a mera tradução do que já vem publicado por outros portais disfarçados de blogues. Os de informática são bons exemplos do que estou a dizer: alguns são frios, impessoais e excessivamente factuais porque nunca quiseram ser blogues, apenas fizeram uso da plataforma.

Há até quem escreva «nós» em vez de «eu» nos artigos porque vê o blogue como uma entidade colectiva exterior à própria pessoa que escreve.

Cada um faz o que quer, é esse o espírito da blogosfera: liberdade até para se negar a própria essência daquilo que cada um julga que é blogar.

Quase cinco anos disto fizeram-me chegar a uma conclusão muito simples acerca dos blogues pessoais: as suas características mais marcantes e as que fazem a diferença são a sua vocação para a imperfeição e o desequilíbrio. Os temas sucedem-se uns aos outros, diferentes, às vezes antagónicos. O tratamento é desigual, demasiado sério nuns casos, leviano noutros, sombrio ou sarcástico – e é impossível que seja sentido por todos de forma unânime.

Jornais ou quaisquer outras publicações mais tradicionais não se podem dar ao luxo de falharem ou serem inconstantes na qualidade da informação que produzem. Aspiram à perfeição, na forma e no conteúdo.

Nos blogues, a perfeição a que se deve aspirar é a da autenticidade. Claro que um blogger deve trabalhar e sacrificar-se por um post para conquistar credibilidade junto de quem lê, mas o mais importante é aceitar a sua própria e bizarra dinâmica.

O leitor tende a desculpar estas falhas do blogger porque são precisamente estas falhas que o fazem ver que do outro lado está uma pessoa e não um funcionário das palavras. Identificamo-nos não só com as qualidades como também com os defeitos.

Quem faz um blogue não pode ter medo de falhar da mesma maneira que não pode ter medo de ser pessoa. Deve esperar o falhanço todos os dias. Deve saber que a um post bom se poderá seguir um post mau. E, ao mesmo tempo, evitar construir uma imagem de si próprio baseado apenas nos elogios que recebe. Outra coisa que aprendi nos blogues: devemos ser muito mais cautelosos em relação aos elogios do que em relação às críticas. As críticas obrigam-nos a estar alerta, mas são os elogios que nos obrigam a manter a sobriedade.

No seu melhor, o blogue é o triunfo da capacidade de comunicação que um único indivíduo pode conseguir por mérito próprio e de quem o pica ou incentiva – não uma vez por semana, como fazem os nossos cronistas preferidos, mas praticamente todos os dias, sem parar. A blogosfera rejeita o calculismo editorial dos jornais e não se alimenta do silêncio. A blogosfera não gosta de pausas, prefere princípios e fins.

Um blogue também pode ser feito com o objectivo de criar uma presença na Web que procure ser a representação mais perfeita possível do que somos e do modo como vivemos as nossas vidas. O Twitter foi inicialmente concebido para respondermos a uma pergunta – «Que estou a fazer agora?» -, mas essa é uma pergunta que o blogger já anda a responder há muitos anos, e de forma mais rica e completa.

Então reconstruímos o nosso dia-a-dia, pondo de parte as horas aborrecidas e triviais e escolhendo apenas o que há de mais rico em nós e nos outros, o que permite a quem visita reconhecer (pelo número de visitas ou nos comentários) que todos temos potencial para ser únicos, basta levantar a cabeça enquanto caminhamos entre o rebanho. Já não precisamos de um jornal ou de outro meio para que esse reconhecimento público aconteça: as pessoas decidem – e nem é preciso que o façam em grande número para nos sentirmos satisfeitos.

Se não queremos falar da nossa vida pessoal, partilhamos o melhor que existe em nós ao nível das ideias e das convicções, e deixamos os disparates para as pessoas da vida real que de facto nos conhecem e nos aturam fora da blogosfera. Mas mesmo este processo de filtragem que nos impele a mostrar o melhor de nós próprios é profundamente humano. Transparente como dois enamorados.

20 comentários

  • 1
    fez-se à net com Firefox 3.0.11 Firefox 3.0.11 em Windows XP Windows XP
    14 de Julho de 2009 - 17:44 | Link permamente

    Muito bem dito/escrito. É isto mesmo que penso e quero quando publico algo no meu blogue, é o reflexo daquilo que penso, não o reflexo do que é politicamente correcto. Quando escrevo gosto de pensar e saber que não tenho de agradar ninguém, escrevo para os outros lerem, sim, mas essencialmente, escrevo para mim e por mim, e é por essa razão que ainda tenho blogues, é por mim, apenas. A partir de certa altura cansei-me de escrever sobre “London Calling”‘s ou “Dark Side of The Moon”‘s, álbuns e bandas que todos conhecem. Acho que o mais valioso é falar de bandas desconhecidas e que tenham valor, para que se possa divulgar quem precisa e não quem já tem o seu nome espalhado por meio mundo, esses não precisam. Mas como tenho o blogue por mim, às vezes sinto necessidade de escrever sobre um cliché… não me importo, mas prefiro que dêm importância a outros posts do que a esses.

    Abraço

  • 2
    fez-se à net com Shiretoko 3.5 Shiretoko 3.5 em Ubuntu 9.10 Ubuntu 9.10
    14 de Julho de 2009 - 17:55 | Link permamente

    Desde que passem bem a informação como o WEBGRAU faz é o que me interessa =)

  • 3
    rui relvas
    fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    14 de Julho de 2009 - 17:58 | Link permamente

    boas

    no meu blog aquilo funciona como uma especie de diario, ja que comecei a escrever numa altura em que andava em baixo e tem servido de terapia. para teres uma ideia dsd que comecei no fimd e outubro apenas falhei uns 4 ou 5 dias e com o tempo fui criando umas rubricas para ser um pouco menos enfadonho( neste momento tenho 2 e planeio criar uma 3ª muito em breve).

    quanto as criticas aceito-as desde que não sejam insultos( o que acontece muitas vezes), já tive alturas em que me disseram que a qualidade dos temas que falava estava a decarir e tentei melhorar.

    abraços fiquem bem

  • 4
    keyser
    fez-se à net com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    14 de Julho de 2009 - 18:36 | Link permamente

    “Quem faz um blogue não pode ter medo de falhar da mesma maneira que não pode ter medo de ser pessoa.” Esta frase ilustra uma utopia na mente dos blogadores, mas como conselho não podia estar mais correcto. O que acho piada é o facto de continuar a ver-te com este cavalo de batalha e sempre bastante assertivo.

    um abraço

  • 5
    fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    14 de Julho de 2009 - 19:57 | Link permamente

    Tenho o teu blogue e, principalmente, posts desta natureza, como verdadeiros faróis de uma aventura que comecei há cerca de 4 meses atrás, desenvolver um blogue.
    Obrigado pelos teus proveitosos ensinamentos.

  • 6
    papacross
    fez-se à net com Google Chrome 2.0.172.33 Google Chrome 2.0.172.33 em Windows XP Windows XP
    14 de Julho de 2009 - 22:57 | Link permamente

    É precisamente pelas reflexões (como esta) que faz e pela maneira como “usa a cabeça” nessas reflexões, que eu venho regularmente ver aqui o sítio. Na realidade, hoje em dia é cada vez mais necessário sermos nós próprios e termos capacidade para pensarmos pela nossa cabeça… Por isso, e para bem de quem gosta de ver alguém a “usar a cabeça” continue com o bom trabalho “blogosférico”. :wink:

  • 7
    Carlos Afonso
    fez-se à net com Firefox 3.5 Firefox 3.5 em Windows XP Windows XP
    14 de Julho de 2009 - 23:15 | Link permamente

    Bom,

    No meu blogue publico literalmente quando me apetece, sobre o que me apetece. A porra toda é raramente ler duas vezes aquilo que escrevo antes de publicar.

    Mas o Marco escreve mesmo muito bem, refletindo uma forma bem organizada de pensar.

    Tenho uma tendência em qualquer segunda leitura para cortar muito texto, sopesando demasiado algo que tenha escrito. Sinto-me mais livre quando comento do que quando escrevo no meu canto.

  • 8
    Amarino França.
    fez-se à net com Firefox 3.5 Firefox 3.5 em Windows XP Windows XP
    15 de Julho de 2009 - 00:01 | Link permamente

    Muito sinceramente, desabafos da vida e do amor para mim já se tornam um pouco repetitivos e cansativos, notícias acerca do novo sistema operativo também, do novo iPhone igualmente, mas não em todos os sites. Por exemplo, nalguns a informação é bastante básica – não simples, básica mesmo -, noutros a informação é demasiada ou simplesmente uma cópia de um outro site qualquer, noutros simplesmente apetece-me por lá estar o dia todo, à espera de que o autor faça um novo post.
    Escrever um post pode ser, por vezes, complicado, mas não é por isso que vamos estar a copiar uma notícia do jornal local – ou nacional. Tenham calma, esperem, vão escrevendo aos poucos e, com sorte, ao fim do dia já têm um post em condições e original!
    O meu blogue vive, essencialmente do espontâneo e momentâneo, mas quando tento passar uma informação a alguém esforço-me sempre para que a mesma seja passada com a minha “marca de água”.

  • 9
    fez-se à net com Google Chrome 2.0.172.33 Google Chrome 2.0.172.33 em Windows Vista Windows Vista
    15 de Julho de 2009 - 00:20 | Link permamente

    A reter: “Nos blogues, a perfeição a que se deve aspirar é a da autenticidade.”

    Muito bom :-)

  • 10
    fez-se à net com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    15 de Julho de 2009 - 08:56 | Link permamente

    Olá Marco,
    bom post, mais uma vez.
    Suponho ser verdade que a aspiração de um blogger seja a autenticidade, já que a subjectividade é a forma de vida da blogosfera (para os que pensam que estão a ler jornais, também eles longe da objectividade utópica), e a isenção nem sequer é para aqui chamada.
    Mas a dúvida subsiste: até que ponto devemos, nós bloggers, estar atentos à responsabilidade que de elguma forma temos enquanto opinion makers, especialmente junto das camadas mais jovens da população?

    Um abraço!
    CJT

  • 11
    fez-se à net com Safari 4.0.2 Safari 4.0.2 em Mac OS X 10.5.7 Mac OS X 10.5.7
    15 de Julho de 2009 - 10:24 | Link permamente

    Parabéns por esta reflexão caro Marco. Está impressionante e em linha de tudo aquilo que aprendi e penso acerca de ser um blogger.

    Realmente um blog deve ser um espaço que reflecte com autenticidade quem nele publica conteúdos. Mesmo sendo uma noticia, uma informação, uma chamada de atenção, um artigo muito pessoal ou outra situação… a verdade é que tem um valor diferente e muito mais real quando o artigo transpira o “eu” de quem o escreve, com a sua versão e modo de ver e viver cada conteúdo que publica.
    Há dois anos neste meio aprendi imenso, obviamente que também aprendi imenso aqui no Bitaites, e devo referir que o percurso também passou da escrita fria e impessoal para a escrita pelo meu ponto de vista. E todos os dias tento melhorar mais… e mais…

  • 12
    fez-se à net com Google Chrome 2.0.172.33 Google Chrome 2.0.172.33 em Windows XP Windows XP
    15 de Julho de 2009 - 23:33 | Link permamente

    Ah, batoteiro: texto mexido! (notei o corte da última frase ;) )

    Apreciei, muito sinceramente, esta meta-reflexão. Discordo, porém, da visão inicial do antagonismo e da desigualdade do temas dos posts como indícios de imperfeição e desequilíbrio.
    Um blogue pessoal não pode ser previsível nem pode aspirar à unanimidade, pois que um blogue pessoal é tão proteico quanto à pessoa que o mantém.

    Ao fim e ao cabo é assim mesmo: “Nos blogues, a perfeição a que se deve aspirar é a da autenticidade.”

  • 13
    fez-se à net com Google Chrome 2.0.172.33 Google Chrome 2.0.172.33 em Windows XP Windows XP
    15 de Julho de 2009 - 23:36 | Link permamente

    Errata:

    * dos temas

    * quanto a
    :oops:

  • 14
    fez-se à net com Firefox 3.0.11 Firefox 3.0.11 em Windows Vista Windows Vista
    17 de Julho de 2009 - 01:50 | Link permamente

    Excelente raciocínio, partilhado neste post!!..

  • 15
    fez-se à net com Firefox 3.0.11 Firefox 3.0.11 em Windows XP Windows XP
    17 de Julho de 2009 - 11:18 | Link permamente

    Por enquanto, a democracia à distância de um click.

    Gostas, voltas. Não gostas, não voltas.

  • 16
    fez-se à net com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    17 de Julho de 2009 - 16:13 | Link permamente

    [off topic] marco: o que se passa com o endereço principal? bitaites.org, visto daqui, é 403…
    abraço.

  • 17
    fez-se à net com GranParadiso 3.0.12pre GranParadiso 3.0.12pre em Windows XP Windows XP
    17 de Julho de 2009 - 16:24 | Link permamente

    Carlos, é um problema com o plugin Bad Behavior, já desactivei.

  • 18
    fez-se à net com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    17 de Julho de 2009 - 19:49 | Link permamente

    yeap… também o tive. e também o desactivei. obrigado!

  • 19
    fez-se à net com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    17 de Julho de 2009 - 20:32 | Link permamente

    Pois eu acho muito interessante como esta reflexão resume os tópicos essências para o” bem blogar”. Eu sinceramente já não tenho grande paciência para me perder muito por espaços onde a criatividade e principalmente a autenticidade não existam. E isso sente-se logo, percorridas as primeiras três ou quatro linhas… Acho que um verdadeiro post, tem de ser “ipsis verbis” aquilo que queremos transmitir e que já agora, venha acompanhado do nosso -carimbo de qualidade – os nossos sentimentos, pensamentos e crenças :-)
    Gostei de cá vir :-)

  • 20
    fez-se à net com Firefox 3.0.11 Firefox 3.0.11 em Windows XP Windows XP
    20 de Julho de 2009 - 20:41 | Link permamente

    Muito bem escrito. Parabéns. Nem parece que és do benfica. (Enfim, ninguém é perfeito, e como tu bem dizes: “um blogue não pode ter medo de falhar da mesma maneira que não pode ter medo de ser pessoa.”)

    Abraço cafenao de Cabo Verde

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