
E esta foto de Paulo Whitaker é estupenda, observem lá.
O mais notável é as expressões e os gestos dos tipos. Vejam aquele ali com o gorro. Faz lembrar o Borat, estende o braço em direcção às mamas da stripper com o objectivo de beneficiar a gloriosa nação do Cazaquistão.
E o outro cromo, cá mais em baixo, meio encolhido, aquele que tenta testar os seus poderes telecinéticos no vidro de protecção?
Bem, acho que esta imagem serve como preparação psicológica para contar a história de um taxista que apanhei há dois dias e que não teria destoado na fotografia.
O homem acaba de receber uma chamada no telemóvel quando entro no táxi; fala docemente com a namorada Sim, combinamos um jantar, depois vamos dançar, fazemos um programinha, como tu quiseres, deixa-me só sair do serviço, só mais um, eu sei, espera por mim, mal possa, mal consiga, vou logo
e eu a desejar que a conversa acabe antes de chegar à auto-estrada porque telemóveis nas mãos de um condutor açucarado fazem-me pensar naquelas estatísticas em que comparam o número de acidentes de carro com o número de acidentes de avião para concluir que voar é mais seguro mesmo tendo em conta que não temos asas, portanto eu a amargar com o trânsito cá em baixo e ele, nariz no ar, docinho inconsciente, Adeus, fica à minha espera, mal possa, mal consiga, vou logo, saudades, beijinhos
desligou e preparava-me para ler o jornal mais descansado quando o tipo se vira para mim, cabelos brancos, uns quarenta anos, vestido como um elemento de uma boys band em decadência, olhar vivaço, malandro até aos ossos, cúmplice, Desculpe lá isto, o telefonema, mas um homem tem de mandar uma foda não é, um homem faz tudo pra mandar uma
e ria-se, cheio de nervoso miudinho. Fiquei sem resposta. Não sei o que me aborrece mais, conversa típica de gaja histérica ou conversa típica de gajo histérico. Este era kafkiano: sussurrava como um poeta calimero na Rua Duque de Loulé; à entrada da rotunda do Marquês de Pombal, babava-se como um garanhão do wrestling. E se tratasse o carro como trata as mulheres, às guinadas? Fiz um daqueles sorrisos de circunstância que, no interior de um táxi, significa Tou a ler o jornal, pá, quero lá saber, e deixei-me ficar pregado numa notícia sobre um tipo com ar de playboy, com apóstrofos em vez de brincos, que se preparava para salvar o BPP.
O taxista estava nitidamente a precisar de desabafar, porque, sabe, ela é preta, eu gosto muito de africanas, sempre tive um fraquinho por africanas, e esta aqui com que eu estava a falar ao telefone, ui, tão boa
e cá para mim, já mais animado, bem, com esse paleio de tarado sexual racista ainda vais parar à secção de cromos do Bitaites, pá, então levantei os olhos do queque que deseja comprar o BPP por um euro, ai sim, disse eu com as sobrancelhas, e foi o suficiente para o gajo desbobinar, eufórico, ui, boa, e você nem imagina como eu a conheci, se eu lhe contar nem acredita
Acredito, acredito, Pois, eu apanhei-a na [uma rua qualquer que já não me lembro], ela estava com uma amiga, ela tem pra aí uns vinte anos, ui, boa
Bem, ela vinha com uma amiga, outra preta, uma ganda gorda, a gorda sentou-se ao meu lado e passado uns minutos já estava a roncar, a minha ficou lá atrás e eu sempre a galá-la pelo espelho retrovisor, a gente quando fala com um cliente não precisa olhar para trás né, e ela a ver, às tantas tinha a TV dos táxis ligada, devia tar a dar uma passagem de modelos ou o caralho e ela diz ‘Ai esta aqui no ecrã vê-se mesmo que tem umas mamas pequenas’ e eu respondo-lhe ‘ora uma mulher pode ser sexy e não ter mamas grandes’
já divertidíssimo, a puxar por ele: ai é, como se diante de mim estivesse o Neil Armstrong a contar o que sentiu ao meter o pé na Lua.
Mas este cromo vive só na Terra. É um Napoleão sexual (tem o bolso nos colhões) e continua sem perder o fôlego de conquistador
ela estica-se toda cá prá frente, tá a ver, abre a blusa, sem soutien nem nada e diz ‘ela pode ser gira mas não tem umas mamas como as minhas’, mostra-me as mamas e pronto, foi assim que nos conhecemos, imagine lá, a preta gorda a ressonar ao lado e eu a esticar o braço para apalpar as mamas da outra preta e que mamas tão boas e depois
e depois este tipo deve ter visto o mesmo filme pornográfico tantas vezes que acredita que estas situações são plausíveis de suceder. Se calhar, são – e eu estou a ficar velho, perdido nas margens de um novo tempo, cada vez mais veloz e poluído. Mas não acredito. O diálogo que ele recordou tem a marca inconfundível dos mestres da erecção instantânea.
São óptimos, esses diálogos. Adoro-os. Lembro-me de um desses filmes em que uma conversa entre duas fufas começava assim Olá, dizia a lésbica número 1, Olá, respondia a lésbica número 2, Tudo bem, perguntava a número 1, Sim e contigo, respondia a número 2, Tá tudo bem… olha, ouvi dizer que és estudante de psicologia é verdade, e a número 1 Sou, sou, na Universidade
Ah!, comentava a número 2, muito surpreendida (é uma falha de representação que os críticos de cinema classificam como over-acting), Então… estudas psicologia, que interessante, queres ser psicóloga! – e por aí fora até ao gemido final.
Acho que o taxista da história iria delirar com este diálogo. Pensando bem, talvez as fufas tenham tido esta conversa no seu táxi. Será? Bolas, não consigo lembrar-me. Mania que um gajo tem de se esquecer dos cenários, que são sempre tão importantes nestes filmes.
10 comentários
Marco Santos,
começo por dizer que a mim, a conversa de gajo histérico irrita-me mais. Assim como entrar num Táxi e ele cheirar a óleo de coco. O melhor é também não pensar no que já possa ter acontecido no cabedal seboso do banco traseiro do táxi Mercedes.
A fotografia é estupenda e prova que em todos os espectáculos eróticos existem sempre situações que podem gerar fotografias caricatas. O que será está a acontecer lá para o Festival Erótico Medieval, em Vila Nova de Gaia?
Quando foi o Eros Porto 2009, vi esta foto (creio que no Jornal de Notícias). Inclui essa foto num inimigoMarafado, com o texto:
O consultório do Dr. Carlos Prostah, médico Urologista, é no mínimo, inovador. Segundo o próprio, a ideia terá nascido na visita que ele fez ao “Eros Porto 2009”.
- Os meus pacientes, homens na sua maioria, aguardavam sempre com enorme ansiedade a hora da consulta. Afinal, a possibilidade de fazerem um toque rectal é sempre intimidatória. Assim, decidi trocar a televisão na sala de espera por Shows Lésbicos e Strips. Agora, segundo o que eles dizem, o tempo passa a correr e estão sempre desejosos que eu lhes marque uma consulta para breve
Aqui está um exemplo de como se pode pegar numa história fraquinha e transformar num GRANDE texto!
Muito bom!
Esse taxista é o meu herói!
Entram, a outra ressona, um “galanço” no espelho retrovisor(!), conversa de mamas e num ápice já lhe lhe está a apalpar toda. Provavelmente, uns 10 segundos depois já estava no banco de trás a dar-lhe uma.
Também provavelmente a gorda não estava a roncar mas sim a fingir!
Se o apanhares para a semana que vem, (provavelmente) já descobriu que a outra estava a fingir e “ai tu queres é fruta”. E Tumba!
@braço.
Parece-me relevante para o post este link: http://naturlink.sapo.pt/article.aspx?menuid=11&exmenuid=76&bl=1&cid=5800
Um bocado gorda, não?
Rui
Também acho um piadão a estes gaiteiros de lata do «pumba» pumba» que… falam (falam)
, em autoficção, mas quando lhes aparece uma «mula» decente à frente nem sabem o que fazer com aquilo – complexo de inferioridade, vá-se lá saber porquê.
Os piores ainda são aqueles que aproveitam a coisa mais fora e corriqueira para fazer uma piada sexual. Haja paciência para estes.
O que me ri com este post!
De facto tu tens cá uma sorte: os cromos sentem-se sempre atraídos por ti…
Tenho espírito de caderneta…
Ena, até no navegador o LN é apetecível!
Gosto de Ópera