Carbono, oxigénio, hidrogénio, azoto, enxofre e fósforo. Sempre acreditámos que estes seis elementos eram indispensáveis à vida. A descoberta da NASA acrescenta outro – arsénio, um elemento químico tóxico para a maioria dos seres vivos – e dispensa o fósforo, até então considerado imprescindível.
Isto é demasiado confuso para um leigo como eu que passava as aulas de físico-química a pensar no rabo da Joana, por isso vou usar uma analogia antes de passar às (ex)citações. Porque revistos os textos e digerida a informação, esta é bem capaz de ser uma das descobertas mais importantes da história da Biologia. E as implicações são realmente extraordinárias – não no sentido hollywoodesco do termo, mas no sentido científico.
A ver então se me safo com analogias. Imaginem a nossa busca pela condições em que a vida pode surgir como estando confinada a uma auto-estrada de seis vias. Cada uma destas vias representa os seis elementos químicos presentes no ADN de todos os seres vivos na Terra.
Quando os astrobiólogos faziam as contas à possibilidade de que a vida pudesse surgir noutros planetas – deste Sistema Solar ou de outros – partiam do razoável princípio de considerar que essa vida não poderia existir sem estes pré-requisitos. Regressando à analogia: metiam-se nos carrinhos à procura de sinais de vida apenas nessas seis faixas.
O que a NASA descobriu foi a existência de uma sétima via onde transita o fluxo da vida, um caminho de espinhos venenosos que até agora se julgava intransitável: o arsénio.
Não a descobriram nos confins do Sistema Solar, mas no Lago Mono, na Califórnia. Uma vida que nos é «extraterrestre» esteve sempre escondida nas barbas da Terra. O sítio da BBC explica-se bem: «Combinando luz e arsénio, estas bactérias alimentam-se e multiplicam-se usando um químico que é tóxico para a maioria das outras formas de vida.»
«Estas bactérias são fotossintéticas, pois tal como as plantas usam a luz solar para transformar o dióxido de carbono em comida», prossegue o artigo da BBC. «O que as diferencia é o facto de nesse processo usarem arsénio em vez de água».
Este artigo de Tom Schivers, editor do Telegraph, contextualiza a notícia e faz uso de artilharia mais pesada.
Ele diz que todas as outras formas de vida na Terra usam o fósforo no seu ADN, ARN (Ácido ribonucleico, responsável pela síntese de proteínas da célula) e em Trifosfato de adenosina, uma molécula que fornece energia às células. (Obrigado, Wikipédia).
O arsénio é quimicamente semelhante ao fósforo, chegando ao ponto de tomar o seu lugar nas reacções químicas das células e provocando o descarrilamento do nosso comboio bioquímico. Alguns seres vivos desenvolveram tolerância ao arsénico, mas até agora nunca tínhamos descoberto um que o usasse.
Ao descobrirmos uma bactéria capaz de usar veneno como substituto do fósforo, estamos a descobrir que esta vida descoberta no Lago Mono foi capaz de evoluir por caminhos completamente diferentes de todos os outros seres do seu planeta.
E se uma tal diversidade de opções é possível de ocorrer num único planeta, o que dizer dos milhões de sistemas solares que quase de certeza existem só na nossa Galáxia?
Da próxima vez que analisarmos um planeta, já não poderemos ter tantas certezas no que respeita à possibilidade ou não de sustentar vida. A existência da vida não será mais uma raridade ou um acidente impossível de repetir, mas uma emergência capaz de assumir múltiplas formas.
E pronto, aqui têm o vosso extraterrestre: não é um verde de Roswell, mas é um verde-esperança.






























6 comentários
adorei.. leve e inteligente!
Ora, obrigado Diana! Sem falsas modéstias, é um post mais do tipo leve e desenrascado
Isto no final soou um pouco Sportingista.
Boas Marco. Física quântica! sim senhor, interessante. Há vida fora do nosso planeta? Sim senhor, terá também o seu interesse.
Tudo muito didáctico e, sem sombra de duvida, fascinante. Mas não pude deixar de seguir a ligação para o teu poste de 2008 -altura em que ainda não fazia ideia que o Bitaites podia estar na net- e perceber que afinal escondes um segredo que, pelo menos enquanto o mantiveres no domínio da nossa imaginação, conseguirá ser ainda mais fascinante que tudo o resto.
Bem hajas… Joana!
Sempre pus em questão essa acérrima certeza com que os cientistas defendiam a existência da vida apenas neste planeta, com a possibilidade de existir se houvesse algum outro que tivesse as mesmas características que o nosso. Por exemplo, quando se discutia o tema com algum defensor da vida extra-terrena, em geral costuma alegar: “Em bilhões de galáxias provavelmente há algum com atmosfera igual à Terra”. Quando para mim, grande leitor de ficcão científica, a resposta mais certa seria: “Provavelmente, há extra-terrestres a discutirem neste momento se há possibilidade de existir vida no planeta terra, visto que este está cheio de oxigénio.” Enfim, coisas assim.
E ainda bem que esta descoberta se fez, pois o seu lado bom seria deixar os cientistas mais flexíveis na sua opinião, mas duvido que tal aconteça, pois tal como disseste, agora vão procurar vida em mais uma faixa em vez das seis anteriores, em vez de abrirem a possibilidade para outras tantas.
A propósito, muito bom o blog.
Mais uma descoberta que nos obriga a pensar fora da caixa. Mais uma descoberta que obrigará umas quantas religiões a reformular as suas tentativas de ler a biologia de uma forma criacionista. Mais uma descoberta que fará o Homem sonhar com novos horizontes e possibilidades – de expansão e lucro. Vamos ver se disto resulta algo de bom.