Ele que nunca foi crescido, mas que não deixou de crescer

Publicado por Marco Santos [25/Março/2008]. Categoria: No mundo da Lua

Foram numerosas as homenagens prestadas pela blogosfera ‘geek’ ao escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, falecido a 19 de Março.
Clarke foi recordado pela co-autoria do argumento do melhor filme de ficção científica alguma vez feito – 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (consultar posts A Banda Sonora do Cosmos e 2001: A história acaba primeiro que o filme) – e por ter sido o primeiro a sugerir o uso de satélites geoestacionários através dos quais a Humanidade revolucionou a sua forma de comunicar.
Clarke expôs a ideia em Outubro de 1945 num artigo intitulado Extra-Terrestrial Relays — Can Rocket Stations Give Worldwide Radio Coverage?, publicado numa revista britânica de entusiastas de Electrónica, a já desaparecida Wireless World. (Reprodução do artigo original de Clarke)
Ao contrário do que se tem escrito na blogosfera, Clarke não foi o primeiro a sugerir o uso de satélites de comunicação, muito menos a inventar o conceito. Já em 1923, um físico austro-húngaro chamado Hermann Oberth descrevera o conceito de satélites geoestacionários num livro intitulado The Rocket into Interplanetary Space. Cinco anos depois, um engenheiro de foguetes esloveno, Herman Potočnik, pegou no conceito apresentado por Oberth e aplicou-o às comunicações, defendendo que os satélites podiam ser usados para comunicar via rádio. Foi também Potočnik o primeiro a sugerir a ideia de uma estação espacial, tanto para fins pacíficos como militares, tendo mesmo realizado cálculos para definir a sua órbita geoestacionária.
O homem que liderou a equipa de investigação que haveria de desenvolver o primeiro satélite comercial de comunicações – Telstar 1 – foi o engenheiro John Robinson Pierce, à data Vice-Presidente da Divisão de Investigação dos laboratórios Bell. Face às contribuições de Oberth e Potočnik, Pierce afirmou que a ideia de satélites geoestacionários usados em comunicações rádio já «andava no ar há algum tempo» e que teriam sido postas em prática «mesmo sem o contributo» de Arthur C. Clarke.
Pierce, também um escritor de ficção científica (pseudónimo: J.J. Coupling), acabaria por considerar que o artigo de Clarke teve o mérito de apresentar todas estas ideias de uma forma mais minuciosa do que todos os outros. Dado que o artigo de Clarke foi considerado Prior Art (explicação do termo aqui) no que diz respeito à informação disponibilizada antes das investigações lideradas por Pierce, não foi possível à Dell patentear o conceito de satélite geoestacionário.
Também se atribui a Clarke a ideia de um elevador espacial: apresentou-a num livro de ficção científica chamado The Fountains of Paradise, título em homenagem ao país que o acolhera desde 1956, o Sri Lanka. Em vez de utilizarmos dispendiosos foguetões carregados de combustível poluente, seríamos impulsionados por energia electromagnética. Segundo Clarke, o elevador tornaria os Vaivém espaciais «obsoletos».
Os desafios tecnológicos e económicos de construir um elevador que transporte carga e pessoas da superfície terrestre a uma estação espacial em órbita não permitiram concretizar ainda esta sugestão de Clarke, mas a NASA levou-a em consideração: além de ainda investigar as possibilidades de um sistema desses, organiza anualmente concursos públicos com prémios monetários aos génios da engenharia capazes de apresentar um projecto seguro, fiável e possível de executar sem levar a agência à falência ou provocar uma catástrofe.
Sobre este projecto, Clarke haveria de escrever: «O elevador espacial ficará pronto 50 anos depois de as pessoas pararem de rir dessa ideia». (Ver De Elevador Para o Espaço).

Arthur C. Clarke nunca perdeu a capacidade de sonhar com o futuro: talvez tenha sido o seu maior legado. Nele, a ficção científica não era uma fantasia épica, um tratado de psicologia social, um pesadelo de labirintos cibernéticos ou mesmo uma excelente obra de Literatura: era simplesmente a Ciência enquanto sonha. Clarke nunca se preocupou muito em tornar os seus personagens psicologicamente densos, como o fizeram Philip K. Dick, Stanislaw Lem, Brian Aldiss ou Ursula K. Le Guin, que como escritores lhe são bastante superiores. A personagem mais memorável que criou nem sequer era humano, mas um computador: HAL 9000. A sua escrita era seca e, de certo modo, estéril, sem capacidade de arrebatar o leitor com uma simples frase. A Literatura era um apenas um meio, não um fim em si.
Mas era um visionário a quem Kubrick soube retirar poesia. Só quem nunca parou para pensar na nossa insignificância perante a vastidão do Cosmos poderá considerar a imagem final de um bebé a flutuar no Espaço (no filme 2001) como bizarra ou incompreensível: a Humanidade já gatinha entre planetas, mas ainda não aprendeu a andar. O importante é que deseje sempre crescer mais. E para desejar crescer é preciso também que deseje sonhar.
Clarke deu uma entrevista à Wired em 1993 e perguntaram-lhe qual seria o epitáfio mais adequado para gravar na sua pedra tumular. Clarke respondeu como se já andasse a pensar no assunto há muito tempo: «Ele que nunca foi crescido, mas que nunca deixou de crescer».
Em Dezembro do ano passado, o sonhador Clarke fez uma lista de três «presentes» que gostaria de receber no seu derradeiro adversário (fez 90 anos a 16 desse mês): primeiro, que o mundo adoptasse recursos enérgicos mais «limpos»; segundo, que a paz fosse duradoira no seu país de adopção, Sri Lanka; terceiro, que fossem descobertas provas inequívocas da existência de seres extraterrestres.
O escritor manifestou estes desejos perante uma plateia de cientistas, astronautas e políticos, reunidos no Sri Lanka para lhe prestar homenagem. Alexei Leonov – o primeiro astronauta a dar um passeio espacial (fê-lo em 1965) – ofereceu-lhe uma medalha enviada pela Federação Russa de Cosmonautas.
Ao longo da vida, Clarke saboreou muitas honras: o módulo de comando da missão Apollo 13 (do célebre pedido de socorro Houston, we’ve had a problem), foi baptizado Odissey por causa de 2001: Odisseia no Espaço. O pai da aeronáutica espacial norte-americana, o alemão Wernher von Braun, usou um livro de Clarke – The Exploration of Space, publicado em 1952 – para convencer um relutante presidente J. F. Kennedy de que era possível colocar um homem na Lua. E em 1996, foi nomeado para o Prémio Nobel da Paz.
Mas Clarke também teve um grave dissabor: a acusação de pedofilia. A história teve origem numa suposta entrevista conduzida em 1998 e na qual o escritor confessava «desconhecer a idade dos seus parceiros sexuais, mas que a maioria atingira a puberdade». Questionado se considerava tais relações como moralmente erradas, terá respondido: «Não. Depende do país. Não se pode ter uma moralidade absoluta».
A entrevista saiu pouco tempo depois de ser tornado pública a intenção, por parte do Príncipe de Gales, de armar cavaleiro o famoso súbdito de Sua Majestade. Por causa destas alegações de pedofilia, a cerimónia foi adiada dois anos. E quando finalmente se realizou, em 2000, foi presidida pelo embaixador britânico no Sri Lanka, não pelo príncipe.
Até hoje se desconhece se esta foi uma entrevista real, se uma conversa off-the-record publicada à traição: Clarke nunca processou o jornal, afirmando que seria um desperdício de tempo e de dinheiro. «Estas alegações foram apenas uma maneira de embaraçar o Príncipe Carlos», afirmaria o escritor.
Pouco tempo depois, tornou pública uma declaração mais contundente: «Tendo tido sempre uma profunda antipatia pelos pedófilos, poucas acusações poderiam ser mais revoltantes do que ser classificado como um. Nego por completo essas acusações. A minha consciência está limpa.»
Finalmente, a 23 deste mês, quatro dias após a morte do escritor, as autoridades locais anunciaram que todas as acusações contra Clarke tinham sido retiradas: «Não haverá mais investigações sobre essa matéria. Esse capítulo está encerrado. Arthur C. Clarke é o orgulho do Sri Lanka.»
Nos derradeiros meses de vida foi visitado pelo mesmo repórter da Wired que o entrevistara 15 anos antes: «Não me lembro de si. Não me lembro de você ter estado cá» - disse então o escritor, já confinado a uma cadeira de rodas. «Não me lembro de muita coisa. Nem me lembro de um único dia em que passei com Kubrick a trabalhar no 2001.» Nos últimos dias o cérebro de Clarke foi tomando consciência de que estava a desligar-se aos poucos - tal como o super-computador HAL 9000, numa das mais famosas sequências do filme. Portanto só nos resta cantar e esperar que, no fim, my God, tudo esteja repleto de estrelas.

  1. Francisco
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    Comovente… Não tenho mais nada a dizer… COmovente…

  2. Fernando Vasconcelos
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    Marco,

    Excelente, extraordinário post. Concordo contigo quanto às personagens de Clarke serem menos densas do que K. Dick, Le Guinn ou Lem (ou Bradbury acrescentaria) mas se as personagens são um bocado frágeis as histórias essas não ficam nada a dever …

  3. Mª João Nogueira
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    Estava à espera deste post.
    Não li os outros todos, porque sabia que este chegaria.

    Agora vou ler.

  4. romudas
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    Ora aqui está o post sobre Clarke que gostava de ter escrito. No entanto qualquer homenagem é plausível por parca que seja, não será. Bom texto, como de costume. Tanto tempo a olhar para a foto de um bocejo tinha que dar algum resultado :wink:

  5. Victor Afonso
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    Belo texto.
    E não lhe suscita urticária este tema aqui?
    http://ohomemquesabiademasiado.blogspot.com/2008/03/msica-do-enterro.html

  6. Marco
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    @Victor: Estou tão habituado a imprecisões dessas que já não me suscita urticária nenhuma. Mas as questões que levantas no teu blogue são pertinentes, realmente, tendo a conta a riqueza e diversidade da música em 2001 (ou em qualquer outro filme do Kubrick, já agora. Descobri Bartók por causa do The Shining!)

  7. Nuno
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    Texto espectacular.

    Parabéns.
    No fundo, é uma excelente homenagem. :grin:

  8. jocaferro
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    Estou quase como a Maria João.
    Grande post.

    @braço.

  9. O Mundo Misterioso de Arthur Clarke at 100nexos
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    [...] a Sir Arthur Charles Clarke, falecido no último 19 de março, vale destacar da blogosfera o comentário do Bitaites. E como céticos, o que podemos comentar a mais sobre o escritor são suas peripécias com o [...]

  10. Carlos Afonso
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    A MJ e o José têm toda a razão.

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