→ 08/01/2007 @20:07

A vida receia a solidão cósmica [4]

Um LP para um gira-discos extraterrestre

 

Passar-se-ão muitos milhares de anos até sabermos os resultados da derradeira missão das Voyager – o mais certo é que nunca venhamos a saber.

Esta última missão poderá ser desempenhada muito depois de os geradores de plutónio deixarem de alimentar os componentes da nave, em 2020. As Voyager transportam uma carga valiosa: um testemunho para a posteridade do que somos enquanto espécie, onde vivemos e alguns dos belos empreendimentos que fomos capazes de erguer.

Toda essa informação está contida num LP, na esperança de que seres de uma civilização extraterrestre o ponham a tocar num gira-discos de outra galáxia. À cautela, incluímos no pacote também uma agulha para esse gira-discos.

Trata-se de um disco de cobre revestido a ouro contendo 115 imagens (estão incluídas fotos de pescadores portugueses ou da Grande Muralha da China, por exemplo), 35 sons naturais (vento, pássaros, água) e saudações em 55 línguas, incluindo Português. Excertos de música étnica, obras de Beethoven e Mozart e sucessos da história da música pop/rock (Exemplo: Johnny B. Goode, de Chuck Berry).

A ideia não é nova. Foi Carl Sagan o primeiro a lembrar-se de produzir uma mensagem da Humanidade para as estrelas durante a preparação das missões Pioneer em 1972 e 1974.

Inspirados pela ideia original de Sagan, com suficiente tempo e meios para produzir uma mensagem mais completa e ousada, os cientistas da missão Voyager decidiram enviar informações sobre o nosso mundo e a nossa civilização.

O primeiro problema que enfrentaram foi determinar que sistema de armazenamento de dados a escolher. Era fundamental encontrar um meio extremamente estável e de grande durabilidade. A escolha era ainda mais difícil porque deveria ser também muito leve e capaz de conter uma grande quantidade de informação. A solução óbvia foi fazer uso de uma tecnologia muito conhecida na época: a dos discos LP.

Os discos das Voyager são capazes de armazenar informação em gravuras que uma agulha traduz em sinais electromagnéticos. Este procedimento não só serve para gravar sons, como também permite gravar outro tipo de dados – incluindo imagens.

Duas matrizes metálicas de cobre foram coladas para dar os dois lados do LP – e depois cobertas a ouro para prevenir a oxidação. Uma vez que no espaço exterior não se verifica degradação, estes LPs são os artefactos tecnológicos com maior tempo possível de garantia: nada de riscos ou pó – e vão pelo menos durar um milhão de anos!

Para aumentar ainda mais a segurança dos discos, foi-lhes colocada uma capa de alumínio e ouro para os proteger dos micro-meteoritos. No interior desta «capa», encontram-se instruções de como tocar o disco e uma placa identificativa semelhante à que foi enviada pelas Pioneer. Incluiu-se também uma pequena quantidade de plutónio radioactivo para que os extraterrestres possam calcular a data em que foi fabricado.

As imagens nos discos incluem, em primeiro lugar, definições de códigos científicos que ajudarão a entender melhor o que se segue. E o que se segue são informações acerca do nosso Sistema Solar.

Contamos-lhes também muito do que sabemos sobre bioquímica terrestre, células, anatomia humana e reprodução do ser humano, mostrando-lhes diferentes estágios de crescimento das pessoas. Finalmente partilhamos informações acerca da geologia da Terra e dos outros seres vivos que nela habitam: animais e plantas.

Os discos incluem muitos dados acerca do que fomos e do que somos actualmente: costumes humanos primitivos, arte, cultura, mas também desporto, educação, alimentação, construções humanas, indústria, medicina, transportes e os avanços conseguidos em Astronomia.

Os cientistas optaram por não enviar cenas de guerra, fome e outras características mais vergonhosas da vida humana – não ficariam bem mostrarmos os nossos defeitos numa primeira apresentação formal.

Esta vontade em mostrar a nossa melhor face conduz-nos de regresso à Terra e à mais importante questão de todas: já sabemos como fomos e o que somos, sabemos identificar os erros cometidos – teremos aprendido alguma coisa quando a mensagem for interceptada?

 

A extraordinária aventura das Voyager

Quase trinta anos e 15 mil milhões de quilómetros depois, a Voyager 1 continua a transmitir informação para a Terra. São estas as últimas notícias avançadas pelo Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA.

Para o ex-director da NASA e cientista do projecto Voyager Ed Stone nada disto é uma surpresa: «Já esperávamos que os aparelhos a bordo da nave continuassem a funcionar sem problemas mesmo após 30 anos.»

O Projecto Voyager remonta ao ano de 1977, quando foram lançadas para o Espaço duas sondas – Voyager 1 e 2. 15 mil milhões de quilómetros equivalem a uma distância de 100 Unidades Astronómicas (UA). Esta é uma unidade de distância aproximadamente igual à distância média entre a Terra e o Sol: 150 milhões de quilómetros. É bastante utilizada para descrever a órbita dos planetas e outros corpos celestes.

Que tipo de informações poderá ainda transmitir a Voyager 1? É preciso ver que esta é a primeira sonda fabricada pelo Homem a cruzar o Espaço entre as estrelas – o espaço interestelar. Só isso é suficiente para lhe garantir um lugar de primeira fila em futuras compilações da História da Exploração Espacial.

Mas o que já foi feito foi significativo. Não saberíamos um décimo do que sabemos hoje sobre os planetas gasosos do nosso Sistema Solar se não fossem as peregrinações da Voyager. Além das informações que as sondas recolheram nas passagens efectuadas por Júpiter, Úrano, Saturno e Neptuno, novos dados sobre os ventos solares (correntes de partículas de energia que brotam do Sol) puderam também ser analisados.

As naves atravessarão uma «zona» do Espaço repleta de material libertado por estrelas mais próximas. Para onde se dirigem e durante quanto tempo ainda poderão funcionar, recolhendo e enviando informação para a Terra? À escala humana, muito tempo. À escala cósmica, uma insignificância.

As Voyager são dos engenhos mais rápidos fabricados pelo Homem: a sonda número 1 viaja a 17,2 Km/s, ou seja, quase 62 mil quilómetros por hora; a número 2 a 15 Km/s, isto é, a 54 mil quilómetros por hora. Em termos astronómicos, contudo, deslocam-se a uma velocidade patética. Se a Voyager 1 seguisse uma trajectória que a levasse ao encontro da estrela mais próxima de nós – a Alpha Centauri, a 4,39 anos/luz – demoraria cerca de 75 mil anos a lá chegar.

Mas nem é para aí que a Voyager 1 se dirige. Daqui a cerca de 300 mil anos, a sonda passará a 1,6 anos/luz de distância da estrela AC+79 3888, situada na constelação de Camelopardus.

Passar-se-ão mais de 100 mil anos até a Voyager 2 passar a 4,3 anos/luz de distância de Sirius – a estrela mais brilhante do céu e uma das abrangidas pelo projecto de busca de exo-planetas do tipo Terra da missão Terrestrial Planet Finder.

Quando isso acontecer já as naves estarão desligadas há muito. Calcula-se que em 2020 os geradores de Plutónio já não serão capazes de produzir a energia eléctrica que alimenta os instrumentos das naves – então, estas silenciar-se-ão para sempre e não poderão transmitir para os seres humanos as maravilhas que eventualmente encontrarão num futuro longínquo. Documento PDF: Localização prevista das Voyager ao longo dos anos