→ 21/11/2006 @16:03

A sentença de morte foi adiada

Tentar perceber os mistérios da física quântica é como caçar pulgas com luvas de boxe: exige uma paciência infinita e é bem capaz de vir a revelar-se uma caçada infrutífera.

Stephen Hawking, o maior físico teórico da actualidade, tão brilhante como Einstein ou Newton, segundo se afirma, terá sentido as mesmas dificuldades quando a sua deficiente formação em Matemática não lhe permitiu avançar muito na compreensão da Teoria da Relatividade Geral. Tinha ainda 21 anos e estava no seu primeiro ano em Cambridge.

Stephen W. Hawking Os três anos passados em Oxford tinham sido de muito divertimento e pouco trabalho no curso de Física. Hawking era daquele tipo de alunos que não precisava de estudar muito para obter excelentes notas. O estereótipo do génio encerrado no seu canto nunca encaixou no feitio de Hawking: era de trato simples, alegre, brincalhão e sociável, um tipo muito popular entre os colegas.

A popularidade acentuou-se quando se tornou timoneiro da equipa de remo de Oxford – o remo era uma actividade física dura e esgotante, mas ajudava a manter o status quo universitário e criava laços de camaradagem entre os alunos. As noites do jovem Hawkings eram muitas vezes passadas em jantaradas organizadas pelo clube de Remo no Salão Nobre da faculdade. Essas festas costumavam durar até altas horas da noite.

É possível imaginá-lo a participar nas batalhas de guardanapos de linho ensopados em vinho – assim acabavam os jantares.

As deficiências na Matemática eram o menos – todos os alunos a sentiam. Outro problema estava a surgir. No terceiro ano em Oxford, Hawking caíra uma ou duas vezes sem perceber muito bem porquê. No ano seguinte, já em Cambridge, começou a sentir dificuldades em fazer os nós nos atacadores dos sapatos. De vez em quanto tinha problemas na fala. Quando regressou a casa para passar as férias de Natal, o pai, que era médico, reparou nesses problemas físicos e levou-o ao médico de família. Este enviou-o a um especialista.

Em Janeiro de 1963, pouco depois de fazer 21 anos, Hawking foi internado num hospital para realizar testes. Duas semanas depois, os médicos deram-lhe alta e mandaram-no regressar a Cambridge e prosseguir os estudos – não era esclerose múltipla, afirmaram, mas também não era um caso «típico». Conclusão: Hawking sofria de esclerose amiotrófica lateral ou doença de Lou Gehrig (Gehrig foi uma lenda do basebol norte-americano a quem foi diagnosticada esta patologia em 1939).

Esta doença provoca a desintegração gradual das células nervosas da espinal medula e do cérebro que regulam a actividade dos músculos voluntários. À medida que as células se desintegram, os músculos atrofiam-se, acabando por acontecer o mesmo a todos os músculos do corpo. Torna-se impossível qualquer movimentação – até a capacidade de falar se perde. Quando finalmente os músculos respiratórios enfraquecem, a pessoa afectada pela doença pode morrer em resultado de uma pneumonia ou simplesmente asfixiar por não conseguir respirar.

Outra característica desta doença é o facto de o cérebro se manter lúcido até ao fim: muitas vezes os médicos administravam morfina não para combater a dor (ausente neste caso), mas para suprimir o pânico ou a depressão.

Aos 21 anos, enquanto tentava prosseguir a sua investigação de mestrado na Universidade de Cambridge, Hawking foi então confrontado pelos médicos com um duro prognóstico: dado que a doença não estabilizara, pelo contrário, parecera progredir rapidamente, só teria mais dois ou três anos de vida.

A doença e a dificuldade em concluir o mestrado deitaram-no abaixo. Refugiou-se no quarto da Universidade. Sentia-se uma personagem trágica, ouvia a música de Wagner o dia todo.

«Antes de a doença me ter sido diagnosticada, sentia que a vida era um grande aborrecimento. Parecia não existir nada por que valesse a pena lutar. Pouco depois de sair do hospital, sonhei que estava prestes a ser executado. De súbito, percebi que existiam muitas coisas que poderia fazer se a minha execução fosse suspensa», afirmou o cientista no livro biográfico «Stephen Hawking – Em Busca de uma Teoria do Tudo», de Kitty Ferguson.

Dois anos depois, a sentença parecia ter sido, de facto, suspensa. Andava com o auxílio de uma bengala, mas estava vivo. O primeiro encontro com uma rapariga, Jane Wilde, ainda em 1963, nas vésperas de dar entrada no hospital, o namoro e o noivado que se seguiram, deram novo alento a Hawking: «Ela deu-me uma razão para viver. Deu-me determinação para viver.»

A mulher acabou por tomar uma decisão que, na prática, lhe salvou a vida. Em 1984, ano em que o livro «Breve História do Mundo» estava ainda em processo de revisão, Jane recebeu uma mensagem urgente de um hospital de Genebra.

Hawking estava na Suíça para uma conferência e tinha contraído uma pneumonia – a doença que, em 1963, os médicos já suspeitavam que o haveria de matar. Quando ela chegou ao hospital, encontrou o cientista ligado a uma máquina que o mantinha vivo. A única forma de salvar o marido, comunicaram então os médicos, era autorizar uma operação em que a traqueia lhe seria removida. Salvava-lhe a vida, mas ele nunca mais seria capaz de falar ou, sequer, de produzir qualquer som vocal. Jane autorizou.

A progressiva degeneração física de Hawking é bem conhecida de todos – incluindo os que não se interessam por assuntos como gravidade quântica ou cosmologia teórica.

A imagem do «génio em cadeira de rodas» e o sucesso popular do livro «Breve História do Tempo» transformaram-no numa celebridade. O seu brilhantismo intelectual tornou-o uma lenda. É professor lucasiano de Matemática em Cambridge – a mesma cadeira outrora ocupada por Isaac Newton.

Hawking já não consegue falar. Actualmente nem os músculos do pescoço funcionam: não é capaz sequer de levantar a cabeça sozinho. Até há pouco tempo usava um teclado acoplado a um computador através do qual podia digitar e controlar um sintetizador de voz. Nem isso é possível, pois os dedos perderam a capacidade de digitar.

Experimenta agora um dispositivo que utiliza raios infravermelhos e se encontra acoplado na armação dos óculos. Através da movimentação dos músculos da face, Hawking pode desviar a direcção dos raios e controlar quais as letras que surgirão no ecrã do computador.

Aos 64 anos, a par da investigação teórica e das palestras que dá em todo o mundo, quer continuar a escrever livros para o grande público.

No ano passado lançou uma revisão de «Uma Breve História do Tempo», escrita a meias com Leonard Mlodinow. Mlodinow é físico e um dos argumentistas da série Star Trek: The Next Generation e MacGyver.

Recentemente revelou a intenção de escrever com a filha – a jornalista Lucy Hawking – um livro infantil de divulgação científica que o próprio já descreveu como «um Harry Potter sem a magia». A sentença de morte continua a ser adiada.

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