Por esta altura já todos os fãs dos Radiohead sabem que a banda decidiu colocar o seu último álbum – In Rainbows – disponível para download. O preço é decidido pelo comprador – e é possível descarregar o álbum todo de forma gratuita em formato MP3. It’s up to you, dizem os Radiohead. Outra característica importante é o facto de nestes ficheiros estarem ausentes as nefastas protecções DRM (Digital Rights Management, consultar post).
Este sistema Paga o que quiseres, se quiseres, é legalmente possível porque desde que entregaram o álbum Hail to the Thief à EMI/Capitol, em 2003, os Radiohead ficaram livres de compromissos contratuais com a editora e novamente detentores dos direitos de distribuição das suas próprias músicas.
O vocalista Thom Yorke explicou na altura à revista Time esta opção pela independência: «Eu gosto do pessoal da editora, mas chega o momento em que te questionas ‘Afinal porque razão todos devem precisar de apenas um?’. Sim, muito provavelmente iríamos sentir o perverso prazer de dizer a esse decadente modelo de negócio: ‘Vai-te foder’.
Quatro anos depois destas declarações, com o lançamento online de um disco tão aguardado pelos fãs, muitos esperam pelo resultado desta experiência. Um sucesso estrondoso de uma banda desta dimensão poderá pôr em causa o modelo de negócio em que se sustentam as editoras.

Por muito que se possa elogiar os Radiohead, eles não foram os primeiros a mandar as editoras à merda. Prince já o fez, e várias vezes. A última de Prince constituiu um insulto a toda a indústria da música: milhares de exemplares do seu último CD – Planet Earth – foram distribuídos gratuitamente numa edição do tablóide inglês Mail on Sunday. Estamos a falar de um jornal cuja circulação média é de 2,3 milhões de exemplares.
No princípio de Abril deste ano, a RIAA (vocês sabem: Recording Industry Association of America, associação de cariz mafioso que reúne as grandes editoras dos EUA), anunciou a intenção de processar os fãs que disponibilizaram algumas músicas do então ainda-por-lançar CD Year Zero, dos Nine Inch Nails. A verdade é que as músicas tinham sido disponibilizadas pela própria banda como parte de uma estratégia de divulgação do álbum. A RIAA não quis saber e avançou com os processos contra a vontade dos músicos. Em resposta, a banda meteu no seu site o CD completo para os fãs fazerem o download de forma gratuita.
Não querendo puxar a brasa à minha sardinha (vocês já vão perceber a seguir) décadas antes de a malta sonhar que a net ia existir nos moldes actuais, em 1977, já o mestre Frank Zappa se sentava num estúdio de uma estação de rádio local e fazia um programa especial durante o qual passou, sem interrupções, todas as músicas de um projecto, Lather, que esteve na base de uma disputa com a poderosa Warner.
Zappa queria lançar um quádruplo disco, mas a Warner, por razões comerciais, preferia que Lather fosse dividido em quatro discos separados. A Warner acabou por reunir canções e temas para formar artificialmente os quatro discos e lançou-os à revelia de Zappa – sem lhe pagar. Pior ainda: violou grosseiramente a ‘continuidade conceptual’ da sua carreira (este termo é só para zappófilos, desculpem).
Zappa iniciou então o programa convidando os fãs a gravar as músicas todas. Não duvido que, se tivesse acontecido hoje em dia, disponibilizaria todo o projecto Lather online como o fizeram os Nine Inch Nails.
Afinal de contas, como poderá dizer qualquer músico que se preze, porque razão os direitos de distribuição da minha música terão de ser detidos por burocratas que nem sequer a entendem?
Um eventual sucesso dos Radiohead poderá fazer com que outros músicos importantes decidam livrar-se do jugo das editoras e da RIAA. Estou a torcer por eles.
Dado que o site dos Radiohead neste momento se encontra a funcionar mal (excesso de tráfego, provavelmente) deixo aqui um belo tema de In Rainbows: Nude anda a ser tocado nos concertos da banda há dez anos e começou a ser composto nos gloriosos tempos de OK Computer. Toma
Aos que poderão sentir algumas dúvidas em relação ao que ganham as editoras e o que ganham os músicos com a sua própria música (resposta: para as editoras quase tudo, para os músicos quase nada), façam o favor de ler a seguinte transcrição de uma intervenção que Courtney Love fez na conferência da Digital Hollywood Online Entertainment, a 16 de Maio de 2000. (Courtney é a vocalista da extinta banda feminina Hole e mulher do falecido Kurt Cobain). A tradução original é do brasileiro Derneval R.R. Cunha que pediu, e obteve, permissão da cantora para distribuir o texto [Nota para quem está a ler este texto pelos feeds: o post está dividido em duas páginas]. Segue-se um excerto significativo:
Esta história é sobre uma banda que consegue um contrato fabuloso: uma parte de 20% em direitos de autor e um milhão de dólares como avanço. (Nenhuma banda consegue uma parte de 20% em direitos de autor, mas enfim…)
Estas contas são baseadas na realidade e tenho a certeza de que são mais credíveis do que as que Edgar Bronfman Jr. [Presidente da administração da Seagram, detentora da Polygram] possa apresentar.
Que acontece ao milhão de dólares?
Eles vão gastar meio milhão a gravar. A banda ainda fica com 500.000. Pagam 100.000 ao agente pela sua parte dos 20%. E pagam 25.000 ao advogado e outro tanto ao administrador de negócios.
Restam 350.000 para distribuir pelos quatro membros da banda. Depois de pagarem 170.000 em impostos, sobram 180.000. O que dá 45.000 para cada um. Ou seja, 45.000 para viver durante um ano, até que o disco seja lançado.
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7 comentários
Excelente iniciativa dos Radiohead!
Antes de ler o post todo, fiquei com a ideia que iriam ganhar mais dinheiro desta forma do que lançando o álbum através de uma editora. Mas depois de ler o texto da Courtney, tenha a certeza disso.
Agora compreendo compreendo o porquê de alguns artistas se estarem a cagar para os downloads piratas, eles já não ganham nada de qualquer maneira… Enquanto as editoras lá organizam a sua caça ás bruxas, por que será €€€€…
Ainda não tive “a sorte” de conseguir fazer o download deste CD…já ouvi dizer que está muito bom.
Apesar de, como dizes, não serem pioneiros talvez toda esta publicidade mediática incentive outros a optarem por lançar alguns trabalhos desta forma…
Acho isto tudo muito bonito, mas só está à disposição daqueles que “já não precisam” do contrato com a editora para poderem viver da música. Sim pois esse bicho é quem os lança no mercado, é quem os faz crescer, é quem lhes propõe um vídeo para poder passar nos “Top+’s” dos seus países e difunde a sua música através das rádios pelos milhares de ouvidos que após 5 audições diárias de uma música lá se decidem que gostam delas.
No fundo, a escolha de música continua limitado às Editoras, através da sua influência junto das Rádios e dos jornais da especialidade. E o contrato com as editoras compra isso tudo.
Apesar de tudo, creio que com a profundidade da Internet em todos os lares e através daquela técnica horrível chamada “Spam” será possível para todos os músicos encherem as nossas caixas postais com as suas obras e nos permitirem conhece-las, deixando ao nosso critério se gostamos ou não.
é bom ver que depois do grande mestre Trent Reznor mandar as editoras defecar, mais bandas de renome se “revoltam” contra a exploraçao por parte das editoras, já que grande parte do dinheiro que estas bandas ganham vem dos concertos
Marco
encontrei um site interessante só com quotes Zappianos: http://sam.hochberg.com/zappa.html
enjoy
Obrigado, André!
Não sei se já conheces estes links, mas se não acho que vais gostar
1º-Trent Reznor, um caso de estudo na industria músical: http://www.youtube.com/watch?v=Njuo1puB1lg&eurl=http://ninpt.7forum.net/a-banda-f2/nin-e-o-futuro-da-industria-t63.htm
2º- Trent Reznor: Radiohead’s ‘In Rainbows’ promotion was ‘insincere’: http://news.cnet.com/8301-10784_3-9894376-7.html?tag=blog.1
Cumprimentos