O Jazz adora os Radiohead (Parte 1)
Marcadores: Brad Mehldau, Herbie Hancock, Jazz, Radiohead, Robert Glasper
Relacionado (ou não): Brad Mehldau: Paranoid Android (3)

O jazz anda sempre à procura de novos standards. Possivelmente o esforço mais notável que conheço é o de Herbie Hancock. Em muito boa companhia – Michael Brecker (saxofones tenor e soprano), John Scofield (guitarras acústica e eléctrica), Dave Holland (baixo), Jack DeJohnette (bateria) e Don Alias (percussão) – o pianista lançou em 1996 um disco apropriadamente chamado The New Standard.
Embora nenhum novo standard tenha nascido de forma unânime a partir do repertório escolhido, Herbie Hancock apropriou-se das canções, tornou-as suas e criou um belo disco. Os nomes escolhidos são díspares em estilo e género, mas o resultado destas transfigurações nunca deixou de soar como jazz: Paul Simon, Beatles, Peter Gabriel, Stevie Wonder, Sade, Prince e Kurt Cobain foram os escritores de canções escolhidos. A propósito, se quiserem conhecer a versão jazzística de All Apologies (Nirvana), força.
Em 2006, Herbie Hancock voltou ao seu papel de construtor de pontes musicais ao lançar um disco de duetos que incluiu nomes como Carlos Santana, outra vez Paul Simon, Annie Lennox, John Mayer, Christina Aguilera e Sting – uma jazz-pop thing, como lhe chamaram alguns críticos. Nada disto é novo, pois o lendário Miles Davis, pouco antes de morrer, já se associara a gente do rap e do hip-hop no álbum Doo-Bop, em 1992, quando estas músicas se faziam nas ruas das cidades e ainda não tinham sido aburguesadas pela MTV. Se estão curiosos em relação ao resultado desta associação entre Miles e o hip-hop, então saquem estes temas: Mystery e The Doo-Bop Song. É por aqui.
A relação com os Radiohead iniciada por um outro grande pianista de jazz, talvez o melhor da sua geração, o meu preferido, Brad Mehldau, tem por base o mesmo princípio: o futuro do jazz, afirmou Mehldau numa entrevista ao Guardian, passa por «devorar todos os géneros de música e, deste modo, tornar-se mais vital do que nunca.» Para esta visão ecléctica da música terá contribuído o facto de, a partir dos quatro anos, quando começou a aprender a tocar piano, gastar horas a devorar toda a música que passava na rádio, sobretudo Steely Dan, Stevie Wonder, Led Zeppelin, Steve Miller Band e Joni Mitchell. Aos dez, um novo professor de música incutiu-lhe o gosto pela música clássica. Aos treze, descobriu o jazz. «Naquela altura, no liceu, a maior parte do pessoal queria era futebol [futebol americano, não o nosso] e então a mensagem que os mais velhos passavam aos mais novos era ‘Pá, têm de aprender a atacar a bola’. Nós ouvíamos mais do género ‘Pá, têm de conhecer Charlie Parker e aprender os seus solos’».
A descoberta e o entusiasmo pela música de Elliott Smith, Fiona Apple, Rufus Wainwright e Nick Drake, que nada têm a ver com o jazz, levou alguns amigos a chamar-lhe atenção para os Radiohead. «Conheci-os numa altura em que já estava um bocadinho cansado de andar pelas discotecas a comprar todos os discos de jazz que conseguia». A partir daí, a música dos Radiohead começou a fazer parte do seu reportório jazzístico. Paranoid Android (*) e Exit Music (For A Film) (*), ambos de OK Computer, Everything in Its Right Place (*), de Kid A, foram os primeiros. O disco de 2005, Day Is Done, inclui o tema Knives Out (*), de Amnesiac.
Brad Mehldau não é o único jazzman a fazer covers da banda – é apenas o mais conhecido. Muitos outros entraram na onda dos Radiohead. Como explica outro pianista, Robert Glasper, que incluiu no seu último disco, In My Element, um medley formado pelo tema Maiden Voyage, de Herbie Hancock, e Everything in Its Right Place (*) «muitos músicos de jazz adoram os Radiohead. Eles têm mudanças de acordes tão bizarras como esquisitas, tempos completamente loucos, mas também belas e incontornáveis melodias. Eles têm uma forma de complexidade muito subtil, nem dás por ela; mas é destas características que se faz a força da boa música».
A lista cresce à medida que se investiga. The Bad Plus, Yuri Honing e Chris Potter são alguns dos exemplos sobre os quais falarei no post que se segue. O fenómeno é tão notório que o Guardian desafiou cinco músicos de jazz a criar uma versão jazzística de Nude, o belíssimo tema do último disco da banda, In Rainbows. Os resultados podem ser ouvidos nesta página.
























E a selecção lá foi outra vez…
Gostei das músicas, obrigado.
Boas Marco,
O Miles Davies até Michael Jackson tocou num desses álbuns de fusão nos idos de 80.
Eu tenho a certeza, porque a música era o genérico de um programa sobre cinema que eu tinha na altura numa rádio pirata.
Ando há anos para me lembrar do nome da música, mas não consigo. Se souberes o que é e tiveres por aí…
Abraço,
Mário Gamito
Gamito, não sabia dessa.
Tiago: selecção, o que é isso? Não conheço. Mas ouve jazz que só te faz bem!
Boas Marco,
Ok, “Human Nature” é o nome da canção, o álbum é de 1984 e chama-se “You’re Under Arrest”.
Ao vivo aqui no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=0jkKTcG0xuw
Na discografia do Miles Davis:
http://www.jazzdisco.org/miles-davis/discography/session-index/#841226
O original do Michael Jackson é de 1982, do álbum “Thriller”:
http://aboutmichaeljackson.com/m-cdbase+index+id_art-1.html
Um gajo às vezes para coisas do passado, até se esquece que o Google existe
Sacado o vídeo e convertido para mp3.
O álbum do Miles Davis à venda na Amazon por 6 Libras:
http://www.amazon.co.uk/s/ref=nb_ss_w_h_?url=search-alias%3Dpopular&field-keywords=miles+davis+you%27re+under+arrest&x=0&y=0
Comprado
Abraço,
Mário
PS. Da Amazon: “Although Miles Davis didn’t die until 1991, 1985′s YOU’RE UNDER ARREST is one of his last releases. True to his sometimes deliberately antagonistic form, it’s also one of his mostcontroversial albums. YOU’RE UNDER ARREST includes a remarkable amount of funk, soul, and even pop influences, completewith a vocal interlude by Sting. While this angered a number of jazz purists, it suits Miles, who had almost single-handedly established jazz-rock as a viable form with IN A SILENT WAY and BITCHES BREW.
More to the point, it’s simply impossible to argue with the album’s contents. The two-part “Katia” is one of Miles’ finest late compositions, and his cover of Michael Jackson’s “Human Nature” reveals unseen depthsto the tune. The masterpiece, however, is a spellbinding reinterpretation of Cyndi Lauper’s “Time After Time”, which the trumpeter recreates into something entirely new.”
Obrigado pelas dicas, Gamito!
P.S. – O teu comentário ficou em moderação por causa do número de links. Desculpa lá.
Boas Marco,
Obrigado ??? Eu ???
Eu e todos os outros é que te temos a agradecer tudo o que nos dás aqui a conhecer. E não é nada pouco.
Abraço,
Mário
PS. Já agora, eu não vi que o meu comentário tinha ficado em moderação. Para mim, ficou aprovado.
No meu blog (onde os comentários são apenas moderados, não é necessária inscrição), acontece o mesmo a quem comenta. Já escrevi para a mailing list do WordPress sobre o assunto e parece que é assim mesmo. Embora uns tenham dito que é um bug recorrente e outros, uma feature.