Pode tocar-se muito melhor quando se está furioso? Miles Davis poderia responder de caras que sim, dando como exemplo uma ocasião em que foi testemunha privilegiada: o célebre concerto dado a 12 de Fevereiro de 1964.
Nesse concerto, a banda de Miles (Herbie Hancock, piano; George Coleman, saxofone; Ron Carter, contrabaixo; Tony Williams, bateria) tocou magistralmente. E quis o destino que essa maravilhosa música que então se ouviu ficasse gravada para a posteridade tornando possível que tu, 43 anos depois do evento, possas conhecer as maravilhas do jazz e apaixonar-te como tanta gente antes de ti. Ufa!
Segundo recordaria o próprio Miles, «eles estavam todos muito zangados uns com os outros – a fúria criou uma chama, uma tensão criativa que afectou a maneira como toda a gente tocou. Essa foi talvez uma das razões porque todos tocaram com tanta intensidade.»
O que se terá passado nos bastidores? O habitual entre músicos que não são ricos e que tiram dos concertos, e não dos discos, grande parte do seu sustento: discussões por causa de dinheiro.
Aquele concerto de 12 de Fevereiro era muito especial para Miles Davis porque os lucros da venda dos bilhetes ajudariam a financiar associações que lutavam pelo direito ao recenseamento dos negros do Lousiana e Mississipi. 1964, lembrem-se.
Davis não só decidiu que iria prescindir do seu cachet como, numa atitude muito típica, decidiu que os seus músicos fariam o mesmo. O problema é que nunca lhes pediu opinião, limitando-se a apresentar-lhes o facto consumado poucas horas antes do concerto.
Os músicos da banda não gostaram nada de saber que tinham de tocar de borla e fizeram barulho. Diziam que prescindir do cachet era um sacrifício muito maior para eles do que para Miles, o líder da banda, que ganhava muito mais. Os protestos foram em vão: tocavam de borla naquela noite, avisou Miles, e quem não quisesse estaria fora da banda.
E foi assim que um grupo de quatro músicos muito irritados – madder than a motherfucker, é a expressão de Miles – deu um dos melhores concertos das suas vidas. Dos temas que tocaram e que foram reunidos no duplo CD The Complete Concert 1964: My Funny Valentine plus Four & More, deixo-vos o clássico All Blues, sublime, sublime, sublime. Saca






























5 comentários
Não querendo faltar ao respeito nem ao Miles nem ao autor, Senhor de Direito do Blog, pergunto-te se por acaso não queres fazer um post sobre o Tom Jobim e o Bossanova. Ainda que não seja sobre fado (ah pera, isto é jazz), dava-me jeito;P
Agora, isto é um post que não dignifica nada, nem o blog, nem a mim, nem aos posts no geral. Mas a verdade é que dava mesmo jeito! Ou por outra, chamava-lhe um figo.
Miguel, se escutares a musiquinha do Miles calas-te logo…
Divinal!! Jazz como gosto. Lá vou ter de comprar o CD, raios!!
MARCO
Mais uma reliquia de grande qualidade. Ando a descobrir outras sonoridades e cada vez aprecio mais o jazz.
Obrigado pela influência
Jorge Feio
Jorge, tenho todo o gosto nisso!
Marco: compra o CD que não te vais arrepender!