O desafio das sete canções (mais ou menos)
Publicado por Marco Santos [11/Novembro/2008]. Categoria: Música
Marcadores: Carla Bley, John Coltrane, Keith Jarrett, Miles Davis, Radiohead, Uri Caine, Zappa
Nunca alinhei em memes, mas abri uma excepção para este. A ideia é dizermos quais as sete canções que nos marcaram e porquê, portanto não é necessário responder se fosse uma flor gostaria de ser um eucalipto ou merdas do género. Além disso, gosto do blogue que me desafiou. Obrigado pela referência, Felipe Marques.
Sete canções não escolho, prefiro escolher sete momentos musicais que foram e continuam a ser importantes para mim por diversas razões: coincidem na perfeição com os meus gostos eclécticos (Uri Caine), coincidem na perfeição com os meus gostos eclécticos e fizeram-me descobrir novas músicas (Zappa), fizeram-me amar o jazz tanto quanto odeio a música que passa na MTV (John Coltrane, Keith Jarrett, Carla Bley, Miles Davis) e porque, finalmente, me deixaram emocionado por terem surgido numa época tão musicalmente medíocre (Radiohead).
De fora desta selecção ficaram os Pink Floyd e as nuvens distantes fumegando nos horizontes de Roger Waters, os Queen do disco A Night at the Opera, os músicos clássicos contemporâneos que Zappa e os filmes do Kubrick me fizeram descobrir (Varèse, Bartók, Ligeti, Debussy); o grande saxofonista Wayne Shorter; o bar de sombras e copos cintilantes de Tom Waits; os violinos do Wagner; a voz de Lene Lovich; bandas como os Morphine ou os Soul Coughing; os solos de guitarra do Mark Knopfler dos Dire Straits, porque no meu processo de aprendizagem o Knopfler foi para a guitarra o que Jack Nicholson foi para a representação; os novos mothers of invention, filhos bastardos de Zappa (X-Legged Sally, Fukkeduk, dEUS, bandas originárias da Bélgica); enfim, talvez numa segunda série mencione toda esta malta. O meme dá pano para mangas – e é por isso que gosto dele.
As regras do meme determinam que devo passar o desafio a outros sete bloggers – não estou para isso. Passo a batatinha quente a três: Pedro Marques, do Fora de Cena; Seven e Júnior, do Obvious; Nelson Moraes, do Ao Mirante, Nelson. E pronto, fica assim.
Seguem-se os sete momentos, devidamente documentados.
Uri Caine Este grandioso disco – Ulricht/Primal Light – é tudo ao molho e fé nos arranjos, e resulta maravilhosamente. Explico: Uri Caine, músico de jazz, pianista, judeu nascido na Filadélfia em 1956, pegou em trabalhos do grande compositor erudito Gustav Mahler, reuniu um grupo de músicos da vanguarda nova-iorquina (Don Byron, Dave Douglas, Mark Feldman, Michael Formanek, Larry Gold, Arto Lindsay) e criou as suas próprias e blasfemas versões das belas composições do mestre austríaco.
O resultado é um quebrar de barreiras entre géneros musicais que eu não ouvia desde Frank Zappa – daí o meu grande entusiasmo quando descobri o disco. A fusão entre sagrado e profano, passado e presente, resulta maravilhosamente bem, ao contrário do que sucedeu com Charlie Parker ou Bill Evans que gravaram com orquestras – vou usar as palavras do próprio Parker no filme do Clint Eastwood – «músicas tão bonitas como margarina no rabo da irmã».
Uri Caine apropria-se do jazz, da música kelzmer, dos blues, do rock, do funk, da música electrónica, do que lhe soar bem; chega a colocar DJ Olive, outro dos membros da banda, a samplar discos em vinil de Mahler, integrando-os nos arranjos, picos e tudo, misturando-os e colocando-os em confronto com os nossos próprios preconceitos musicais. Não é fácil de ouvir, mas é inspirador. Documentação que talvez queiram consultar: I Went Out This Morning Over the Countryside/Symphony No.5: Adagietto
Radiohead Foi Paranoid Android que me fez conhecer Radiohead. No meu local de trabalho ouvia-se a saudosa XFM e o tema passava todos os dias, às vezes mais do que uma vez. Devia ser também uma paixão assolapada de muitos dos que trabalhavam naquela estação de rádio. Ouvi-los era como regressar aos bons velhos tempos em que passava noites a ouvir o The Wall dos Pink Floyd até decorar todas as letras e cantar o disco de uma ponta à outra.
Para mim foi uma revelação – não é todos os dias que a música de uma banda me consegue fazer arrepiar até à raiz dos cabelos, bater o pé com vontade de dançar e ficar em silêncio deslumbrado – e tudo na mesma canção. Não descansei enquanto não comprei o disco. Depois, como é costume comigo – e vocês que acompanham este blogue não me deixariam mentir! – chateei toda a gente até à exaustão para que conhecessem a nova maravilha do mundo. Os discos que se seguiram – Kid A e Amnesiac – são obras-primas: mostram os Radiohead no seu mais absoluto estado de graça musical. Em vez de seguir a linha de OK Computer, a banda arriscou e seguiu em frente, tornou-se mais experimental, mais arrojada nos arranjos, em suma, magnífica. Os Radiohead são actualmente a maior banda do mundo e arredores – sem espinhas. Este documento poderá demonstrar a veracidade desta afirmação: Paranoid Android/Pyramid Song/How To Disappear Completely
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pode (ou não!) estar a usar
Data: 12/Novembro/2008 | Hora: 14:19
«Os Radiohead são actualmente a maior banda do mundo e arredores – sem espinhas. »
nop! apesar do belíssimo kid a, não são a maior banda do mundo… nem dos arredores…
esse epíteto ficaria bem melhor aos einstürzende neubauten… ou aos tinariwen…
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Data: 12/Novembro/2008 | Hora: 17:50
Tinariwen? Quem? O quê?
Lá vou ter de investigar esse nome em sítios demoníacos…
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Data: 12/Novembro/2008 | Hora: 22:21
Homem, só agora – falha minha – fui ler o convite.
Vou procurar (ou como dizemos aqui, caçar) tempo para tentar responder. Me aguarde.
abraço
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Data: 12/Novembro/2008 | Hora: 23:00
Não conhecia Carla Bley mas ainda vou a tempo.
Obrigado pelos brindes.
@braço.
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Data: 12/Novembro/2008 | Hora: 23:57
Ao Mirante: boa caça!
Jocaferro: depois diz-me o que achaste da menina!
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Data: 13/Novembro/2008 | Hora: 02:32
Fiquei contente de ver alguém fã de Radiohead – já sabia há algum tempo pelo profile – e escrever tal como eu penso. Porque quando falo com alguém desta banda ninguém a conhece para além de um creep e pouco mais. E poucos a apreciam.
Na altura do Kid A e do Amnesiac (penso não estar errado) foi exactamente uma miúda da XFM a um programa de televisão e disse que foi do melhor que já tinha ouvido e outras maravilhas. Falou de se complementarem e tudo o mais…
Já agora existe muita gente (e críticos) que os comparam aos Pink Floyd (que por acaso nem aprecio. Comprei o Pulse e ficou aganhar pó).
O how to disappear é por demais belo e comparo o seu final (apoteótico) ao magnífico street spirit.
Abraço
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Data: 13/Novembro/2008 | Hora: 11:35
Marco,
procura em sítios quentes & secos… aqui é um sitio quente e seco.
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Data: 14/Novembro/2008 | Hora: 22:38
Marco,
Estes links, quando se tem um blog pequenino, fazem diferença ali por uns dias, o que é porreiro. Obrigado.
Quanto aos Radiohead, discordo aqui do Joaquim quando diz que ninguém os conhece para além de uma “Creep” e pouco mais. Felizmente, há por aí muito boa gente a gostar deles convenientemente. Infelizmente, deve ser essa boa gente que leva as promos e os singles da feira do disco da estação do Oriente antes de mim…
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Data: 15/Novembro/2008 | Hora: 01:10
Olá Filipe,
Quando falo refiro-me às pessoas com que contacto (ou já contactei): colegas de curso, amigos, conhecidos, …
E é um fenómeno interessante: quando as bandas estão (quase) no anonimato «têm interesse» e quando se tornam conhecidas a nível mundial parece que perdem aquela “frescura”, vigor, … Com os Radiohead tal não aconteceu. Ainda bem.