
Só descobri Jeff Buckley muitos anos depois de ele ter morrido – uma morte tão estúpida e imprevisível que ainda é difícil de aceitar, quase 13 anos depois.
Já gostava dessa voz antes de a conhecer, pois comecei a gostar de Jeff Buckley ouvindo primeiro Thom Yorke.
O vocalista dos Radiohead foi irremediavelmente tocado pela alma musical do músico falecido quando, durante as sessões de gravação de The Bends, em 1994, toda a banda assistiu a um concerto de Buckley.
Yorke ficou tão impressionado pela paixão e simplicidade no desempenho de Buckley – sozinho em palco com a sua tremenda voz e uma simples guitarra acústica – que logo a seguir gravou as partes vocais da canção Fake Plastic Trees com a mesma arrojada simplicidade, em apenas dois takes. Conta-se que chorou, depois de terminar.
Muitos anos mais tarde, haveria de confidenciar ao jornal New York Times o incómodo sentido em relação à própria voz quando esta lhe soava «bonita» e «educada», mesmo se cantasse letras «profundamente ácidas».
Jeff Buckley, mais espontâneo e visceral do que este Yorke dos primeiros tempos, mostrara-lhe o caminho.
Eis outra das mágoas deste desaparecimento: saber que Buckley e os Radiohead nunca se juntarão em palco, como estava destinado pelos deuses da música. Digo-o porque tenho uma fé que consiste em acreditar que, mais tarde ou mais cedo, os bons músicos acabam por encontrar-se.
A cantar, para sempre
Pouco depois das nove horas de uma noite de terça-feira, a 29 de Maio de 1997, Buckley e um amigo, o músico Keith Foti, tinham acabado de sair de um restaurante em Memphis quando descobriram que estavam perdidos, não eram capazes de encontrar o estúdio onde ficara combinado ensaiar para o que teria sido o segundo disco, My Sweetheart The Drunk.
A noite estava boa, sentiam-se bem-dispostos, Jeff Buckley trazia a guitarra e um ghettoblaster para ouvir música. Decidiram parar nas margens do Wolf River, um afluente do rio Mississipi, numa zona conhecida por Mud Island, a Ilha da Lama. Pensaram em ficar por ali a ouvir música até decidir o que fazer quanto ao caminho para o estúdio.
Jeff já lá tinha nadado, embora aquela não fosse propriamente uma zona muito acolhedora: as margens estavam cheias de rochas, calhaus, vidros e todo o tipo de lixo, e as águas cheias de lama. Quando decidiu entrar na água nem se preocupou em tirar os jeans, a t-shirt e as botas.
Segundo o testemunho de Keith Foti, entrou na água a rir-se e a cantar uma das suas canções favoritas, Whole Lotta Love, dos Led Zeppelin. Nadava de costas, enquanto cantava.
Quinze minutos depois, surgiu um enorme rebocador. Foti viu Jeff começar a regressar à margem à medida que o rebocador se aproximava. O barco era imenso e gerou uma onda considerável, fazendo com que Foti se virasse de costas para o rio com a intenção de proteger o equipamento estéreo das águas. Quando se virou outra vez, Jeff desaparecera.
A onda gerada pelo barco fez ricochete nas rochas da margem e o fluxo de água e de lama arrastou Buckley para o fundo. O cantor estava vestido e com umas botas pesadas, o que deve ter contribuído para se afundar, mais o pânico e a falta de ar, mas gosto de pensar que ele se foi a cantar.
A autópsia e os exames não revelaram sinais de álcool ou drogas. Não fora suicídio, concluiu a polícia, mas um simples caso de afogamento.
E assim se perdeu um dos maiores talentos da música dos últimos anos.
Quando o disco Grace saiu, três anos antes, em 1994, foi um sucesso crítico mas não pegou entre o público. A rádio passava-o pouco porque, dizia-se na altura, era demasiado comercial para as rádios alternativas e não era suficientemente comercial para as rádios comerciais. O mundo conheceu-o lentamente, levado pelo entusiasmo de quem o viu em concerto, daqueles que idolatravam o disco e iam passando palavra.
Foi uma cover de uma velha canção de Leonard Cohen – Hallelujah – que ajudaria a torná-lo mais conhecido. Na verdade, Buckley não estava a fazer uma nova versão do Hallelujah de Cohen, mas a cover de uma cover, feita por John Cale em 1991 para um disco de tributo ao cantor canadiano, I’m Your Man. Mas a reinterpretação de Buckley foi tão marcante que muitas das covers que se fizeram a seguir foram mais influenciadas por Buckley do que por Cale e muito menos pela original de Cohen.
A jornada desta canção é examinada em um excelente texto consultável aqui, bem como em clips das várias versões incluindo, claro, a de Buckley. Uma reportagem da revista Mojo – It’s Never Over: Jeff Buckley 1966-1997, escrita por Jim Irvin – conta-nos em maior pormenor a sua faceta artística e pessoal, e contém depoimentos dos músicos que com ele tocaram. Um bom tributo que os fãs adorarão ler.
Buckley é um músico genial. Canta com uma generosidade que me comove hoje e comoverá para sempre: o timbre de voz, cristalino e luminoso, a entrega absoluta a cada momento da música, a espontaneidade, o sentido de exploração e partilha que coloca nas suas interpretações, sempre diferentes de concerto para concerto, o seu gosto musical ecléctico, tudo nele contém a marca de um artista que viverá para sempre, mesmo tendo vivido tão pouco.






























24 comentários
bem, para uma noite de insónia nada como um texto destes. desconhecia como acontecera esta morte. tenho o “So Real: Songs From Jeff Buckley” do qual ouço o famoso “Hallelujah”. um talento que se foi e que vou tentar escutar mais atentamente.
Jeff Buckley é enorme, do tamanho do mundo.
E olha, o Jeff obscureceu o pai, Tim, que também morreu novo e que compôs uma das minhas canções favoritas, “Song to the Siren”, que toda a gente conhece na versão dos This Mortal Coil.
E o Jeff tinha bom gosto, gostava de Led Zeppelin. Ele sabia. Lamento que muitos não saibam (hint, hint).
Excelente texto, ainda que não haja palavras suficientes para descrever o músico. O JB é simplesmente genial, a cover de Lilac Wine faz-me chorar sempre que a ouço.
Eu também só fiquei a conhecer a música de Jeff Buckley na faculdade em 97 ou 98 e fiquei logo viciado. É simplesmente brilhante a forma como ele se entrega às músicas de forma crua e pura. Para mim, o álbum “Live at Sin-é” é o melhor álbum ao vivo que existe e mostra exactamente esta forma de ser dele de que falas.
Na minha modesta opinião, só quem não tivesse acompanhado o talento maior e evolução musical na curta vida de Tim Buckley é que dirá que Jeff o superava, embora tivesse inscrito no seu código genético a genialidade do pai.
Digamos que concordo parcialmente…
Marco, gostava de ver um post teu sobre Tim Buckley. Vai fundo (se não o fizeste já) e faz-te(me) (ou)vir!
Este está excelente.
Abraço.
Curioso, ainda ontem ofereci um pack do Jeff Buclkey a uma pessoa que deve estar agora a descobri-lo pela primeira vez.
A história da morte do Jeff Buckley é, para mim, uma das mais tristes da história da música. A atmosfera que se vive nas músicas dele é excelente. Recomendado. Bom post, Marco!
Manuel, não disse que o superava, mas que o obscureceu. Digo isto porque sempre que oiço falar de Jeff e pergunto “então e o pai, Tim?”, ninguém conhece.
O Tim Buckley foi um excelente músico, mas o Jeff é melhor, vá-me cá perdoar Pedro Couto e Santos.
Ora aqui está um excelente artigo sobre um excelente cantor, escrito por um excelente escritor.
Obrigado Marco
Texto excelente. Jeff Buclkey é inconfundível. Resta-nos a sua música.
Pois eu acrescento-te mais isto: só conheci Jeff Buckley ao ouvir a tal cover de cover de Leonard Cohen – Hallelujah – aqui na radio bitaites (5?). Já conhecia o tema, Já o aplicara como som de fundo em vários trabalhos executados ao longo do tempo que já levo enquanto profissinal, pela beleza do tema, ou das interpretações das demais vozes conhecidas, MAS, depois de o ouvir aqui no bitaites, nunca uma interpretação me deixará com tal pele de galinha e pelos arrepidados como sucedeu com esta do jeff.
Daí ter pensado em dar corpo à essa alma que pelo bitaites paira… coming soon
O Jeff é o único músico que alguma vez tive como ídolo, e olhem que não sou mesmo nada dessas coisas. A primeira coisa que ouvi dele foi o Live at Sin-é em 94 e ainda hoje me passo com a cover do The way young lovers do, do Van Morrison. Há 10 anos comprei o DVD do concerto dele em Chicago e nem tinha leitor par o ver. Tive uma namorada que me ajudou a adquirir algumas edições mas, como as mulheres atiram sempre a matar quando pode, no fim da nossa relação ficou-me com parte da discografia.
Graças a ele descobri outro grande mestre, o Nusrat Fateh Ali Khan, que deve ter sido para ele o que ele foi para muitos. Enfim, quando me perguntam qual é a minha banda favorita, eu nunca digo que é o Jeff, não se dá preferência a algo que é quase uma religião.
Eu fiz há uns anos um podcast sobre ele,( http://codigodesconhecido.podomatic.com/entry/eg/2007-06-01T16_52_54-07_00 ) é o meu pequeno tributo. Ainda hoje ando de volta de músicas dele na guitarra, e nunca resisto comentar posts destes.
curiosamente, o halellujah é das músicas que menos gosto do buckley.
eu gosto mais do buckley louco do que do buckley mais romântico – digo isto porque me parece que o buckley tinha essas duas facetas, não tão distintas assim, mas latentes na forma de estar e fazer música. o mais buckley que se pode escutar é a sobreposição das duas.
talvez por isso o póstumo scketches seja o meu álbum preferido deste tipo. não houve tempo para produção, as coisas estão como estão, gravadas em oito pistas ou algo do género (aquilo parece mais três pistas).
é inevitável falar do seu pai quando se fala dele. tim buckley, embora tenha sido um excelente músico, não é melhor nem pior do que o jeff… é simplesmente diferente e, por isso, não comparável.
apenas o acaso genético os liga.
boa escolha, marco!
@alex: é pena teres acabado com o código desconhecido, pá… era mais uma área de serviço para matar a sede!
Lover you should come over, ao vivo é linda! Adoro Jeff Buckley.
Creio que o segundo disco se iria chamar apenas My Sweetheart The Drunk. O material que está editado, muito dele destinado a esse disco, é que tem o nome Sketches for My Sweetheart The Drunk, exactamente por ser um esboço do que o disco viria a ser.
Ricardo, tens toda a razão. Vou já corrigir.
Amen my brotha! Descobri o Jeff através de uma amiga e de repente ficou um dos meus músicos favoritos. Ia fazer um reparo mas Saleiro adiantou-se. Mais: fico também um bocado triste com o aproveitamento que a senhora mãe de Buckley tem tido do génio do filho. Todos os anos, e contra a vontade do resto da banda, é lançado um novo disco de Jeff Buckley, com musicas inéditas, ou apresentações ao vivo. Não gosto. Fica mal. Não que me farte de o ouvir, mas é algo estúpido lançar mais cds depois de morto do que em vida. A sua memória deveria ser mais respeitada. Ponto.
Olá
Confesso que conhecia pouco do trabalho de Jeff Buckley, tirando 2 ou 3 musicas talvez, mas depois de ter lido este post aqui no bitaites , fiquei curioso e fui pesquisar mais sobre o seu trabalho. Tratei de arranjar rapidamente o Album “Grace” que consegui depois de carregar numas quantas teclas e links…
E… porra pá… já o ouvi duas vezes de ponta a ponta e não vou ficar por aqui… Fantástico
Obrigado Marco
Conheci o Jeff na antena 3 no dia em ele faleceu, fizeram uma emissao especial a meia-noite, penso que era o Alvaro Costa na altura, desde ai fiquei fã.
Para quem gosta, aqui fica uma pérola que nunca foi editada, nem sequer chegou a ser terminada, é um dueto Elizabeth Fraser dos Cocteau Twins.
http://my.opera.com/RichardCooper/blog/jeff-buckley-elizabeth-fraser
Uma vénia ao meu artista favorito. A música dele é brilhante. E como ele queria a sua música será lembrada para sempre.
Excelente post
Antes de mais os meus parabéns pelo fantástico e sentido artigo.
Fiquei a conhecer o Jeff através de uma boa amiga aproximadamente a 3 anos , e desde ai nunca mais consegui passar uma semana sem deixar de o escutar. Sem dúvida que será recordado para sempre por todos que apreciam boa música. Lover, You Should’ve Come Over,Last Goodbye e Forget Her são os temas que mais aprecio(pela mensagem que transmite e pela excelente melodia).
Já agora penso que Elizabeth Fraser dos Cocteau Twins que na participação do 1ºEP dos This Mortal Coil interpretou Song to the Siren, de Tim Buckley, foi companheira de Jeff Buckley.
Comprei hoje o meu primeiro CD, querem saber qual foi? Grace. E sim a culpa é do Bitaites e do indivíduo que o escreve. Por isso, se algum dia te acusarem de pirataria, pelas músicas que aqui partilhas, podes-lhe dizer que houve pelo menos uma gajo, que se não fossem elas nunca teria comprado um CD.
Obrigado.