→ 25/01/2011 @0:27

LUME e as radioactividades musicais

Bem-dita a hora em que o Victor Afonso me enviou um email a perguntar se eu conhecia os portugueses Lisbon Underground Music Ensemble (LUME, para os amigos). As composições, a electrónica e a produção do disco são de Marco Barroso, que toca piano.

O Victor conhece suficientemente bem os meus gostos musicais e a minha costela zappiana para poder desafiar-me desta forma sabendo muito bem que vai acertar em cheio. E acertou. Obrigado, pá!

Quero fazer um aviso aos que acompanham com regularidade as emissões da Rádio Bitaites: estas são geralmente pensadas como uma viagem calma e agradável, sem grandes sobressaltos.

A música do LUME e do seu disco de estreia é uma viagem na Montanha Russa. E quanto menos se gostar de jazz, mais incomodará essa viagem.

A música do LUME é uma lição de História do Jazz dada em cima de um carrinho da Montanha Russa por um professor com ar de cientista maluco – assim é que é. O percurso é sinuoso e insinuante. Nunca se espatifam, a não ser quando o fazem de propósito.

Não é uma recriação asseada das músicas do passado como às vezes costuma fazer o Wynton Marsalis (também gosto, mas não me empolga).

O olhar do LUME sobre o passado é uma representação arrojada e só ao alcance de grandes músicos – um faz de conta absolutamente delicioso. Brincam com os meus ouvidos e a minha memória musical a cada curva dessa viagem.

Talvez por causa dessa representação todo o disco me soe como a banda sonora de um filme em que a história é contada por um conjunto de personagens irresistíveis: Frank Zappa, John Zorn e Mr.Bungle a desbundar, os X-Legged Sally e as suas guinadas frenéticas, e mais uns quantos que ainda não identifiquei (ou não conheço).

A sexta faixa – Curves on the the Points to Find – é o momento da absoluta rendição ao disco: como num sonho, a viagem na Montanha Russa leva-nos para cima, cada vez mais para cima, afastando-nos da Terra em direcção a Júpiter e, para além dele, o Infinito: os sopros transformam-se e evocam os oceanos cósmicos de Kubrick no 2001: Odisseia no Espaço e os instrumentos de sopros, belíssimos, têm o hálito de Ligeti.

Até um sample da respiração do astronauta Dave Bowman podemos ouvir: é a cena em que invade o compartimento onde estão armazenados os circuitos sensíveis da memória do computador HAL e os desactiva.

Gosto de manter o paralelismo com 2001 até ao final do disco: a música do LUME dá-me essa liberdade.

Em vez de ser conduzido ao mistério do monólito numa sala branca, gélida e oitocentista, o astronauta em que nos transformámos acaba a viagem numa festa com hologramas de Count Basie e Duke Ellington e Carla Bley, fantasmas dentro do piano de Marco Barroso (bebeu muito suminho Lumpy Gravy quando era pequenino, só lhe fez bem), grafonolas, discos riscados, discos picados, microfones dançarinos, o John Cage a brincar aos silêncios e uma abelha do Roger Waters.

A máxima de Lavoisier – «Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma» – é aplicada à exaustão para um sem-número de circunstâncias. Para mim também faz todo o sentido aplicá-la à música de vanguarda que se faz actualmente. No caso do LUME, reconheci um sample de Dark Side of the Moon!

Até Pink Floyd? São mesmo uns grandes sacanas – no sentido Tarantino da expressão.

E se tivessem samplado a voz do Tom Waits, eu já lhes podia chamar irmãos.

É um dos melhores discos portugueses que ouvi nos últimos cinco anos.

17 comentários

  • 1
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    25 de Janeiro de 2011 - 08:47 | Link permamente

    É sempre bom partilhar boa música com quem a sabe, realmente, apreciar. :-)

    Bom texto, que subscrevo, claro.

  • 2
    rui eduardo paes
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    25 de Janeiro de 2011 - 09:25 | Link permamente

    right on!

    • 3
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      25 de Janeiro de 2011 - 14:35 | Link permamente

      Grato :oops:

  • 4
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    25 de Janeiro de 2011 - 09:53 | Link permamente

    As capacidades de persuassão aqui no “Bitaites” é tão forte que me fez ir atrás do MySpace dos LUME, que desconhecia até ler o texto. Dos 3 exemplos que por lá se podem fazer a rápida apreciação no momento… diria que a “coisa” é mais um cocktail molotof que pode explodir onde menos se espera. Uns mal chega aos ouvidos outros… no coração.
    Não é algo que ficaria para desbundar a qualquer momento mas afiguram-se como desafiante som para ter a “tocar” nos momentos mais concentrados ao computador (sim às vezes, preciso de algo que não ande formatado pela rádio…).
    O paralelismo com o jazz faz sentido, realmente.
    Uma proposta a descobrir, deveras intrigante, que o Victor Afonso te partilhou.

    Ò Marco… sabes que quando escreves as palavras mágicas, aquelas duas palavras que constituem identificação de certa banda, que até isso é música para os ouvidos… neste caso até pareceu cinema (Let’s Kill Nazies!)

    Entretanto, porque será que ao ouvir um pouco LUME me deu vontade de ir ouvir o “Future Days” dos The Can… há coisas inexplicáveis…

    • 5
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      25 de Janeiro de 2011 - 14:33 | Link permamente

      @Arm
      Sabes que aquele disco do LUME faz sentido se ouvirmos o disco todo de uma ponta à outra. As faixas isoladas umas das outras não perdem força, mas perdem significado.
      Não sei se me explico bem, é realmente como um filme, uma metáfora do passado, não sei. O Rui explica isso bem na review. Mas sem chauvinismos, fico orgulhoso por ver tão bons músicos nascidos em Portugal a fazer música destas sem qualquer tipo de concessões. Há mais, felizmente.
      Mas a vontade de ouvir Can faz todo o sentido pra mim, têm a mesma força desbundatória :D

  • 6
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    25 de Janeiro de 2011 - 10:14 | Link permamente

    Já agora: excertos da nota do Rui Eduardo Paes sobre o disco – http://www.facebook.com/note.php?note_id=435866196241

  • 7
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    25 de Janeiro de 2011 - 14:30 | Link permamente

    Victor, eh pah ler o Rui Eduardo Paes a invocar o Zappa numa review heheh grandes recordações e o ar já enfadado do Rui sempre que eu o melgava por causa do Zappa… E com razão :mrgreen:
    A música do mestre sobrevive em tipos como o Marco Barreto.
    Para um hardcore fanatic como eu estas coisas são comoventes… Vou ali limpar uma lágrima e já volto.

    • 8
      rui eduardo paes
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      25 de Janeiro de 2011 - 15:06 | Link permamente

      Marco Barreto não, Marco Barroso, um gajo porreiro dali de Algés.
      E não é uma review – são as liner notes do disco, incluídas no libreto do mesmo.
      Não me enfadaste com o Zappa – eu nunca tinha encontrado era um tão grande entusiasta. Mas ele é, sem dúvida, um dos meus músicos favoritos.
      Tinha aqui em casa, para quando pudesses dar cá um salto, uma selecção de orquestras ou grupos alargados de familiaridade zappiana que começava precisamente com o LUME e que eu tinha a certeza que te poria aos saltos. Esse já conheces, falta ouvires os outros e sei por antecipação que te vão deixar apopléxico. É para quando quiseres…

      • 9
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        25 de Janeiro de 2011 - 15:14 | Link permamente

        Oops Marco Barroso, ok. Só fixei o nome Marco :mrgreen:
        Bem, pronto, já percebi, ficavas enfadado comigo!
        Bem, Rui, agora fora de brincadeira, sabes bem que estou desejoso de passar umas horas contigo a descobrir música e a conversar um bocado e também sabes por que razão ainda não foi possível. Vou mandar-te um email!

  • 10
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    25 de Janeiro de 2011 - 15:17 | Link permamente

    Rui: não queres dar umas dicas que outras orquestras são essas no registo do LUME? :wink:

    Eu julgo que te podes referir aos Flat Earth Society ou à Viena Art Orchestra…

    Abraço

    • 11
      rui eduardo paes
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      25 de Janeiro de 2011 - 15:45 | Link permamente

      para o marco: enfadado nada, eu estava mesmo era assustado, e à espera de um dia encontrar o zappa numa cruz pregada à parede, com um altar cheio de velinhas a seus pés, e de te ouvir relatos de aparições fantasmáticas do francesco na casa-de-banho.
      para o victor: sim, a flat earth society era um deles, parabéns. é um grupo descendente dos x-legged sally, com mais sopros e ainda mais pujança e densidade sonora. mas também o novo dos incríveis e maravilhosos fight the big bull, “all is gladness in the kingdom”, que não só foi um dos melhores discos de 2010 como de todos os anos 00. e uma pérola da eddy palermo big band, “eddy loves frank”, com uma secção de metais com a mesma força que têm as guitarras numa banda de heavy… pois… metal.
      havia mais, mas não me lembro agora…

      • 12
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        25 de Janeiro de 2011 - 15:49 | Link permamente

        Rui, já estou a ver que isto só se resolve à galheta. Duelo na sexta-feira! Mandei-te um email.
        P.S. – E tens gravador de CDs, certo? Tu vê lá!

  • 13
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    25 de Janeiro de 2011 - 15:56 | Link permamente

    Rui: eu sabia que os Flat Earth Society eram um desses colectivos. Quanto às outras sugestões – que não conhecia – vou ardentemente procurar (abriste-me o apetitie!). Obrigado.

    • 14
      rui eduardo paes
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      25 de Janeiro de 2011 - 16:09 | Link permamente

      o marco é um piratão…
      acho que o programa de gravação do meu computador está estragado, eheheh.
      lá vou eu ter de limpar o pó à casa, caraças.
      grande victor: há muito tempo que não falávamos. de vez em quando vou tendo é notícias no homem que sabia demasiado… ainda não me recompus de me teres acrescentado à lista da admiração em que está o john cage. esse é que o tenho pregado à cruz, com um altar por baixo. o zappa é um dos santinhos…

  • 15
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    25 de Janeiro de 2011 - 16:19 | Link permamente

    É bem verdade, Rui: acho que se passam anos sem trocarmos uma palavra (escrita ou oral). E diz-se que a tecnologia aproxima as pessoas…

    Ora, tens todo o mérito em estares “ao lado” de John Cage nas lista das pessoas que admiro (com as devidas diferenças, o Cage era músico, tu és crítico/ensaísta). Já agora, ainda guardo num dossier qualquer o texto que escreveste sobre o Cage no ano em que morreu (1992), nas páginas do BLITZ, imagina (uma página que lhe dedicaste). E sempre foste uma referência para mim na abertura às música improvisadas, electroacústicas, experimentais, whatever. Míticos alguns encontros que tivemos no Festival Ó da Guarda!

    Entretanto, se te interessa (creio que sim), o próximo disco de KUBIK já tem data de edição: Maio deste ano. Chama-se “Psicotic Jazz Hall”. Mais informações oportunamente. :wink:

    • 16
      rui eduardo paes
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      25 de Janeiro de 2011 - 16:32 | Link permamente

      quero! sou fã…