Berlioz, Sinfonia Fantástica e um amor assolapado
Marcadores: Hector Berlioz
Relacionado (ou não): Pelos vistos, não.

«O compositor demasiado avançado para o seu tempo» e «romântico quase até ao limite», como mencionam praticamente todos os textos sobre Hector Berlioz que consultei (ver fontes), encontrou a sua grande musa inspiradora na noite de 11 de Setembro de 1827.
Berlioz tinha 24 anos e sempre fora um homem de paixões assolapadas. Aos doze apaixonara-se por uma rapariga seis anos mais velha, Estelle. A diferença de idades não permitiu ao fogoso rapaz concretizar o primeiro amor.
À medida que os anos foram passando, Estelle desvaneceu-se: «Esqueci-me da cor dos seus cabelos; penso que eram negros» – escreveria o compositor nas suas Mémoires. «Mas quando a recordo tenho o vislumbre de uns olhos muito brilhantes e uns sapatos cor-de-rosa».
Berlioz reencontrou o amor na noite em que se dirigiu ao Teatro de Paris e viu Harriett Smithson representar o papel de Ofélia na peça Hamlet, de Shakespeare. Nos meses que se seguiram entregou-se cegamente ao impulso de se arrastar aos pés de Harriett, se fosse preciso, até conseguir conquistar os seus favores. Não teve sorte. Ela não se deixou impressionar e rejeitou-o sempre.
«Se as paixões aconselham por vezes mais ousadamente do que a reflexão, isso deve-se a que elas dão mais força para executar», escreveu Shakespeare. Berlioz decidiu que haveria de a conquistar com a genialidade da sua música. Desta paixão resultou uma obra que é unanimemente reconhecida como uma das mais importantes do século XIX: Sinfonia Fantástica, completada três anos após o luminoso encontro com Harriett, em 1830.
Sinfonia Fantástica narra a história de um jovem e ambicioso compositor. De cabeça perdida por uma bela donzela, tenta cometer suicídio com uma overdose de ópio. Em vez de morrer, alucina cinco vezes – tantas quantos os movimentos que compõem a peça.
Primeiro encontra a sua amada e é dominado pelo desejo; depois vê-a a dançar num baile; segue-se uma cena tranquila numa pastagem; depois assassina a mulher que deseja e é executado na guilhotina; no último movimento, o corpo do compositor é atirado de um lado para o outro num sabat de bruxas, no qual a sua donzela morta reaparece como vampiro, acompanhada por uma distorção do seu tema e pelo cântico medieval pelos mortos, o «Dies Irae».
Poderia o compositor conquistar o que o homem não conseguira? Sabê-lo-ia Berlioz pouco tempo depois, em Paris, quando um amigo de espírito diligente conseguiu convencer Harriett a estar presente durante um concerto da Sinfonia Fantástica. Berlioz estava na orquestra, pois era o próprio compositor a encarregar-se do tímpano, um instrumento de percussão.
Um poeta chamado Heinrich Heine estava no concerto – e é graças a ele que sabemos mais ou menos o que aconteceu na noite em que Harriett compareceu. «Um amigo chamou-me a atenção para o compositor que estava sentado na extremidade do palco, tocando tímpano. Depois notou: ‘Está a ver aquela mulher inglesa? É a senhora Smithson; nos últimos três anos Berlioz tem estado loucamente apaixonado por ela e é a esta paixão que devemos agradecer o facto de estarmos aqui e agora a ouvir esta ousada sinfonia’. Sempre que o olhar da donzela se cruzava com os do compositor, o homem tocava o tímpano como um maníaco. Foi assim que o vi pela primeira vez, e assim o recordarei para sempre.»
Encantada com a música, Harriett reconheceu então o genial compositor como o estranho homem que a cortejara incessantemente – e dessa vez não o rejeitou. Acabaram por casar, mas não foram felizes para sempre.
Só após o casamento Berlioz tomou conhecimento da confusão em que se transformara a vida da sua musa. Harriett já não era a actriz da moda. À amargura que sentia por uma carreira em inevitável decadência, juntava-se uma enorme quantidade de dívidas que contraíra devido a uma série de representações de Shakespeare que produzira com o seu próprio dinheiro – produções fracassadas, pois por essa altura Paris achava Shakespeare «bárbaro» e ridicularizava a ex-rainha dos palcos. A carreira de Harriett terminou de vez quando partiu uma perna ao descer de uma carruagem. Ao abandono definitivo dos palcos, juntou-se uma série de empreendimentos económicos desastrosos que a obrigaram finalmente a declarar falência.
Quem pagou todas as contas foi Berlioz. Arranjava dinheiro com os concertos e escrevendo muitos artigos para os jornais, mas nem o nascimento de um filho conseguiu salvar uma relação tão desequilibrada. Enquanto Berlioz acumulava sucessos, Harriett, solitária no seu fracasso, tornou-se cada vez mais ciumenta. Quatro anos depois da estreia de Sinfonia Fantástica, separaram-se. Apesar disso, este post tem um final feliz.
Fontes: Wikipédia – Sinfonia Fantástica, Hector Berlioz | The Project Gutenberg EBook of The Love Affairs of Great Musicians, Volume 2 | The Hector Berlioz Website
























Adoro música clássica. Berlioz também entre nas contas.
È de facto uma sinfonia fantástica.
Só a música seria capaz desta transcendente horizontalidade numa linha de gosto que vai de Zappa a Berlioz, passando por Coltrane.
Parabéns. Vou ouvir a sinfonia.
Essa horizontalidade é uma trave-mestra da música de Zappa: rejeição dos espartilhos e academismos e das fronteiras entre géneros. Foi ele, a par de Miles Davis, o primeiro a lançar, em 1969, um disco de jazz/rock. Ao ouvir Zappa somos educados a ter ouvidos mais eclécticos.
Excelente post, Marco. Conseguiste capturar perfeitamente o espírito da época. Já agora sugiro que oiçam esta sinfonia lendo um qualquer poema de Rimbaud, Baudelaire ou Verlaine. Também eles dados a amores “violentos” e assolapados, a uma vivência nos limites, ao ópio claro, enfim … Fleurs du Mal recomendaria talvez.
Também esta história prova a velha sabedoria oriental: «cuidado com o que desejas porque pode realizar-se»
O meu gosto pela “clássica” vem dos longínquos tempos do vinil. Por essa altura, recordo-me de ouvir o meu prof. dizer que Berlioz havia introduzido na Fantástica, sonoridades produzidas por instrumentos até aí nunca usados. Em boa verdade devo referir que, das pesquisas que efectuei, não consegui comprovar tal facto.
Uma sugestão: que tal um post sobre esse músico/compositor único chamado Paganini?
Abraço