→ 07/03/2008 @21:37

A Desagregação da Primavera

Os modernos meios de comunicação – Rádio, Televisão, Internet – levaram a música a quase toda a gente. Hoje em dia é possível ouvi-la em todo o lado, dos restaurantes aos centros comerciais, dos comboios aos aviões. Até podemos levá-la connosco em leitores de MP3 e colá-la aos nossos ouvidos com auscultadores minúsculos de qualidade duvidosa. Mozart morreu coberto de dívidas, mas hoje em dia existem sucessos comerciais capazes de transformar músicos medíocres em multimilionários.

Nunca tantos ouviram tanta música – e é por isso que sinto haver qualquer coisa de profundamente errado na forma como aproveitamos as maravilhosas tecnologias de que dispomos. Deveríamos ter uma relação íntima com a música, mas as pessoas, quanto mais a ouvem, mais lhe ficam indiferentes.

Numa entrevista na década de 70 num talk-show qualquer, perguntaram a Frank Zappa o que achava ele da música Disco, que estava na moda e invadira as discotecas. Zappa encolheu os ombros como se aquilo fosse um fenómeno banal e respondeu: «Enquanto as pessoas quiserem ir para a cama umas com as outras, existirá sempre um estilo de música que facilite essa forma de interacção social». Em Zappa, já agora, a eloquência costuma ser uma forma de sarcasmo.

Zappa acertou em cheio: músicas tão massivamente divulgadas e divididas em géneros comerciais não são avaliadas pela sua estética, mas pela sua funcionalidade. Queremos música para correr. Música gourmet. Música bonita e que entre no ouvido com a mesma facilidade com que uma fotografia num cartão postal nos vicia os olhos. Queremos música para ver vídeoclips. Música para engatar. Música para mandar uma queca. Aceitamos com uma complacência escandalosa o facto de que a música como mero objecto de consumo é possível porque, hoje em dia, apenas se divulga música para fazer dinheiro. Somos roubados e condicionados a ansiar por mais. Não queremos educar os nossos ouvidos, queremo-los domesticados. Gozamos com a chamada «música de elevador» sem nos apercebermos de que ela está em todo o lado, embora se apresente com nomes diferentes.

A tecnologia devia estar ao nosso serviço, mas nós é que estamos ao serviço da tecnologia. Já perdemos o hábito de ouvir a música pela música e agora estamos a ficar escravos do MP3. Não sei até que ponto esse formato não estará a influenciar a forma como se grava e produz. No dia em que a maior parte das pessoas ouvir música apenas em formato MP3, como de resto já acontece actualmente com as novas gerações, o que será mais lucrativo para as editoras? Manter as subtilezas espaciais dos sons – só totalmente perceptíveis quando estamos num concerto ao vivo – ou puxar apenas pelas frequências sonoras que o MP3 suporta? Qual será então o futuro da música? Poderá ainda chamar-se música ou estará para a música como um holograma está para o corpo humano?

9 comentários

  • 1
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    7 de Março de 2008 - 23:14 | Link permamente

    bom post marco

    a música… é mais do que a combinação de sons instrumentais e palavras que de uma forma harmoniosa se entrelaçam e não se conseguem dissociar. actualmente, temos de considerar um ou não após esta tentativa de definição com o surgimento de tantos géneros musicais, muitos deles tão distintos e irreverentes que muitas pessoas quando os contactam lhes chamam barulho e não música.

    creio que existe uma música ou um género de música para cada momento/acontecimento na vida. isso depende dos gostos de cada um, a música até pode ser sempre a mesma!

    a questão que abordas… o artista jean michel jarre vem pela primeira vez a portugal para uma actuação, não sei se se pode chamar um concerto, mas a afluência a este evento social trará luz a essa questão, pois com música electrónica, o mais fácil seria de facto meter em CDs, DVDs e leitores de MP3 e vender.

  • 2
    com Firefox 2.0.0.12 Firefox 2.0.0.12 em Windows XP Windows XP
    7 de Março de 2008 - 23:26 | Link permamente

    Bem observado, Marco. Os leitores de Mp3 deviam ter um anúncio como os maços de tabaco: O GOVERNO ADVERTE QUE O USO DE MP3 PODE PREJUDICAR A SAÚDE”. :wink:

  • 3
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    8 de Março de 2008 - 01:25 | Link permamente

    Bom em primeiro lugar, excelentes dois posts. O do Linux era também espectacular. De seguida quanto a este é óbvio que há determinadas formas de arte entre as quais a música, o cinema, a literatura para as quais para além da arte existe o entretenimento. Nós ao ouvirmos música ou ver um filme nem sempre estamos à procura da arte. Muitas vezes queremos apenas ser entretidos e nesses casos não somos sensíveis a muitas das variáveis que diferenciam uma verdadeira obra de arte de um simples (mesmo que seja excelente – não estou a diminuir o seu valor ou utilidade social )entretenimento. E então ? Então que tens razão. Esse risco existe lembro-me de há muitos anos ouvir o Maestro Vitorino de Almeida explicar que é muito mais fácil ouvir m* do que boa música. E nós humanos somos por natureza preguiçosos. O risco existe sem dúvida … Excelente ponto de debate – acho eu Marco. Acho que há aqui muito a dizer e muito mais profundo do que os normais diálogos sobre MP3.

  • 4
    FNP.PT
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    8 de Março de 2008 - 01:32 | Link permamente

    Põe istoa funcionar com IE8! Actualiza-te!

  • 5
    Gil
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    8 de Março de 2008 - 15:45 | Link permamente

    Não podia estar mais de acordo Marco, muito bem visto. Mas nem tudo é escuridão, boa música continua e vai continuar a ser produzida, basta procurar e boa música existe e em muita quantidade. Mas realemnte é de discutir se isso vai mesmo continuar a acontecer…

  • 6
    Daniel Pi
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    8 de Março de 2008 - 21:05 | Link permamente

    Grande post, gostei ;)
    deixou me a pensar

  • 7
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    9 de Março de 2008 - 05:28 | Link permamente

    Excelente post! A boa música raramente chega a ser ‘pop’, de massas. Os raros casos em que o chegam a ser, são-nos postumamente, apenas após ganharem prémios mais mainstream. Mas tanta música que fica por ser conhecida… O Gil refere que “basta procurar” e é verdade. Mas é preciso querer procurar. É preciso saber onde procurar. São necessárias fontes “fidedignas” (fidedignidade que variará conforme os gostos). Felizmente hoje existem coisinhas como o last.fm ou myspace.com. Apesar de ainda ser necessário a procura activa e conhecer nomes, conseguem-se descobrir imensos músicos. Nesta procura, são dois sites, para mim, obrigatórios.

  • 8
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    9 de Março de 2008 - 12:45 | Link permamente

    Belo post.

  • 9
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    10 de Março de 2008 - 12:13 | Link permamente

    Marco, isto deve começar a ser ingrato. Escrevas o que escreveres levas logo com um chorrilho de “belo post!”, “excelente post!”, “marco, quero ter filhos teus!”

    Olha, eu achei o post uma merda. Espero que aprecies a variedade. :)