→ 10/02/2010 @1:59

A banda sonora que Kubrick recusou

Ocasionalmente, o Bitaites é abrilhantado pelo trabalho de outros bloggers – é o caso de Victor Afonso, professor, músico, grande cinéfilo e autor de um dos meus blogues preferidos em língua portuguesa, O Homem Que Sabia Demasiado. Desafiei-o a escrever um post e ele aceitou.

Ao ler o post, torna-se óbvio por que razão lhe pedi esta colaboração. Este artigo ficaria nos meus favoritos, caso o tivesse descoberto noutro sítio – por isso é óptimo que tenha sido publicado aqui. Obrigado, Victor. (Leitores via feed: o post está dividido em duas páginas)

 

Ilustração de Matthew Joseph Peak

Ilustração de Matthew Joseph Peak para a capa do disco com a partitura de Alex North que Kubrick recusou: a banda sonora fantasma de «2001: Odisseia no Espaço»

A história da música para cinema está recheada de facetas interessantes. E uma das mais interessantes tem a ver com a relação entre a imagem e a música. É sabido que a introdução do som na linguagem fílmica provocou uma revolução. Técnica e estética. Chaplin resistiu 10 anos ao som, visto que era da opinião que este elemento iria matar a essência do cinema: a imagem. Chegou a musicar filmes seus do período mudo muitos anos depois (foi o caso de «City Lights» ou «Modern Times»).

Mas a história comprovou que o som não só não matou como enriqueceu sobremaneira a plasticidade das imagens, auferindo-lhe outra dimensão, outra expressividade.

Historicamente, a primeira composição original expressamente feita para um filme foi em 1908, pelo compositor Camille Saint-Saens. Por outro lado, grandes compositores falharam na composição de bandas sonoras para cinema, como foi o caso de Stravinsky, Bartók ou Ravel.

O primeiro filme sonorizado com diálogos é «O Cantor de Jazz»(1927) com Al Jolson (actor branco que interpretava um cantor negro), fruto da introdução do Vitaphone, máquina de projecção com disco acoplado desenvolvido a partir do Fonógrafo de Thomas Edison. No início, a música para cinema era meramente funcional, ilustrativa das imagens. Era uma música programática.

Eis que em 1939 se dá uma verdadeira ruptura estética: o génio de Walt Disney realiza «Fantasia», obra que revolucionou a importância da música no cinema com Schubert, Bach, Tchaikovsky. Com este filme a música passou a ser o veículo narrativo primordial.

Ao longo das décadas a história do cinema registou inúmeras relações umbilicais entre realizadores e compositores. É o caso de Federico Fellini e Nino Rota, David Lean e Maurice Jarre, Alfred Hitchcock e Bernard Herrmann, Sergei Eisenstein e Sergei Prokofiev, Peter Greenaway e Michael Nyman, David Cronenberg e Howard Shore, Steven Spielberg e John Williams, Tim Burton e Danny Elfman, Sergio Leone e Ennio Morricone ou Krzysztof Kieslowski e Zbigniew Preisner, entre outros casos mais ou menos famosos e profícuos.

 

A mais famosa partitura rejeitada do cinema

Alex North

Alex North

Alex North (1910- 1991) foi um dos mais brilhantes compositores para cinema da história de Hollywood. Foi nomeado para 15 Óscares mas não ganhou nenhum (só mais tarde receberia um Óscar pela carreira atribuído pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas). Alguns dos grandes filmes da era dourada de Hollywood tiveram a sua invulgar marca musical modernista (fusão de jazz com música erudita): «Um Eléctrico Chamado Desejo» (1951); «Spartacus»(1961); «Cleópatra» (1964) ou «Quem Tem Medo de Virginia Wolf» (1967).

O seu legado musical marcou grande parte da criação musical para cinema da segunda metade do século XX, juntamente com compositores como John Williams, Jerry Goldsmith (co-produtor do disco Alex North’s 2001, através do qual foi revelada ao mundo a banda sonora perdida) ou Hanz Zimmer a reclamar a forte influência directa de Alex North.

Mas há um episódio assaz caricato e único que meteu Alex North e Stanley Kubrick ao barulho: em 1967, North foi convidado por Kubrick – com quem tinha trabalhado no filme «Spartacus» – no sentido do compositor compor a música original para o filme de ficção científica «2001: Odisseia no Espaço» (1968), clássico absoluto na filmografia do cineasta. Alex North contou mais tarde numa entrevista que ficou muito entusiasmado com o facto de poder voltar a trabalhar com Kubrick e com o desafio de musicar um filme tão especial.

Ambos tiveram várias reuniões para acertar os pormenores da partitura musical. Alex North compôs cerca de 40 minutos de música, praticamente sem ver imagens do filme. Kubrick demorou muito tempo a aceitar a composição de North, até que um dia o compositor recebeu um telefonema a dizer para não continuar a compor a música.

O que tinha acontecido? Ora, nada de especial, conhecendo o temperamento do realizador. Simplesmente, Kubrick mudara de ideias e, como se sabe, optou pelas composições já existentes de Richard e Johann Strauss, e Ligeti. Música que ficou para sempre associada às imagens da obra-prima de Stanley Kubrick.

Alex North sempre disse que tinha sido uma grande frustração profissional e uma desilusão pessoal o facto de ter composto a música e o cineasta a ter recusado, ainda que concordasse que as sequências com a música dos Strauss resultavam muito bem.

Como é referido numa edição da revista de cinema «Premiere», a música original que Alex North compôs para o filme de Kubrick é, «talvez ainda hoje, a mais famosa partitura rejeitada da história do cinema e, simultaneamente, uma das mais fascinantes.» E assim é, de facto. A composição de North, apesar de nunca ter sido utilizada para as imagens do filme, foi editada em CD e merece uma atenção muito especial.

É uma música de grande vigor orquestral e energia rítmica, com uma tendência para dissonâncias particularmente marcantes. Claro que agora soa estranho ouvir determinadas sequências do filme de Kubrick com a música composta por Alex North, uma vez que a relação imagens-música que Kubrick engendrou se tornou um paradigma estético difícil de destronar no imaginário do espectador.

No entanto, acaba por ser um exercício bem interessante ver e ouvir os primeiros cinco minutos do filme «2001: Odisseia no Espaço» com a música inicialmente pensada e composta para o efeito por Alex North .

Se conseguirmos a capacidade de abstracção suficiente para esquecermos as imortais composições «Also Sprach Zarathustra» e «The Blue Danube» e escutarmos com atenção a música de Alex North, constataremos que o trabalho deste compositor para o filme de Kubrick foi uma trabalho criativo de grande exigência formal e, acima de tudo, perfeitamente adequado ao poder das imagens. Aqui.

 

Grandes compositores: histórias de rejeição

O curioso é que a música original rejeitada de Alex North não foi caso único. Bem pelo contrário. A história do cinema revela que existem centenas de exemplos similares: casos de compositores cuja criação musical foi rejeitada liminarmente pelos produtores ou realizadores; ou casos em que os mesmos tiveram de reescrever a partitura sob pressão contratual devido a vários factores, sendo que o factor comercial é um dos mais invocados.

Existe um site só dedicado às músicas falhadas para cinema (os compositores é que não devem achar muita piada), onde se podem descobrir verdadeiras curiosidades sobre a matéria. Como o facto de grandes compositores que fizeram film scores terem visto rejeitado o seu trabalho por diversas vezes nas suas longas carreiras.

Custa a crer que grandes compositores que fizeram centenas de composições originais tenham sido preteridos sem apelo nem agravo. Exemplos: John Barry (15 composições rejeitadas), Jerry Goldsmith (12) ou Elmer Bernstein (13).

Seria motivo para qualquer compositor desistir da profissão. Mas acontece que essas rejeições aconteceram, sobretudo, no início da carreira dos compositores, já que dificilmente algum produtor de Hollywood teria coragem para, no auge da fama destes compositores, recusar o trabalho dos mesmos.

No sítio Rejected Film Scores encontram-se exemplos para todos os gostos: bandas sonoras rejeitadas incondicionalmente; bandas sonoras que foram reescritas e adaptadas ao gosto popular; bandas sonoras experimentais que ficaram esquecidas na gaveta, etc. E mal imagina o cinéfilo a quantidade e qualidade de muitos filmes (dos mais comerciais aos clássicos e independentes) cujas músicas foram, de forma rocambolesca, alvo das mais incríveis mutilações, adaptações, reescritas.

Depois de saber isto, talvez o espectador dê outro valor ao trabalho do compositor de um determinado filme.

De Alex North, a partitura perdida de 2001: Odisseia no Espaço: Prelude – The Dawn of Man e Space Station Docking

4 comentários

  • 1
    RD
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows XP Windows XP
    10 de Fevereiro de 2010 - 11:58 | Link permamente

    Excelente post.

    O cinema é uma das minhas paixões, e é sempre bom ler um artigo de quem sabe o que escreve.

    O blog do Vitor foi directamente adicionado aos meus marcadores.

    Para quem gosta de cinema e a propósito deste tópico lembrei-me deste site que certamente devem conhecer

    http://fanedit.org/

  • 2
    Mestre Slip
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows 7 Windows 7
    10 de Fevereiro de 2010 - 14:07 | Link permamente

    Após uma leitura à coreano, pois o tempo agora não é muito, apenas faço um reparo. Que não passa, enfim, de um pintelhice. Assim sendo, tenho a ideia de que 2001: Odisseia no Espaço é de 1968, não de 1969.

    Mas pronto, lá está, pintelhice…

    • 3
      com Namoroka 3.6.2pre Namoroka 3.6.2pre em Windows XP Windows XP
      10 de Fevereiro de 2010 - 14:22 | Link permamente

      Mestre Slip, quer-me parecer que a tua pintelhice é uma pintelhice acertada!
      Vou já corrigir…

  • 4
    Bruno Costa
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows XP Windows XP
    8 de Abril de 2010 - 18:18 | Link permamente

    Se calhar, temos David Lynch e Angelo Badalamenti ou Robert Zemeckis e Alan Silvestri.