As fo­tos de Khaled Abdullah cap­ta­das du­ran­te uma exe­cu­ção pú­bli­ca no Iémen, um país ára­be na ex­tre­mi­da­de su­do­es­te da Península da Arábia, le­van­tam uma ve­lha ques­tão: po­de­mos abrir ex­ce­ções aos nos­sos prin­cí­pi­os sem os co­lo­car em cau­sa? Haverá al­gu­ma si­tu­a­ção em que es­sa de­ci­são pos­sa ser sus­ten­tá­vel?

Imaginando que, por uma ques­tão de prin­cí­pio, so­mos con­tra a pe­na de mor­te, até que pon­to es­ta­re­mos dis­pos­tos a de­fen­der es­se prin­cí­pio? O que nos po­de­rá le­var a renunciá-lo?

Não sei se o fo­tó­gra­fo Khaled Abdullah pen­sou nes­tas ques­tões an­tes ou de­pois de ti­rar es­tas fo­to­gra­fi­as, mas o cri­me que o ho­mem co­me­teu dei­xa­ria qual­quer pes­soa a va­ci­lar.

Khaled Abdullah

Foi a pri­mei­ra exe­cu­ção pú­bli­ca no Iémen des­de 1999. O ho­mem que es­tá pres­tes a ser exe­cu­ta­do vi­o­lou e ma­tou uma me­ni­na de três anos.

A pre­sen­ça dos sol­da­dos não se de­ve à exe­cu­ção em si, mas pa­ra ga­ran­tir a se­gu­ran­ça dos pro­ce­di­men­tos. Temia-se que os mem­bros da tri­bo à qual a me­ni­na per­ten­cia, ten­tas­sem fa­zer jus­ti­ça pe­las pró­pri­as mãos.

Khaled Abdullah

O vi­o­la­dor e as­sas­si­no, um ho­mem de 41 anos, che­gou à pra­ça en­quan­to a mul­ti­dão gri­ta­va «Alá é gran­de». Tentando ti­rar fo­to­gra­fi­as no meio da con­fu­são, Khaled Abdullah ain­da con­se­guiu ou­vir o as­sas­si­no a virar-se na di­re­ção do seu car­ras­co, ten­tan­do fa­lar com ele.

O ho­mem que exe­cu­ta­ria a sen­ten­ça não dis­se na­da. Continuou a fu­mar um ci­gar­ro en­quan­to en­cos­ta­va o ca­no da AK-47 às cos­tas do ou­tro. Depois dis­pa­rou. Quatro ti­ros. A mul­ti­dão ten­tou re­cla­mar o cor­po, mas foi im­pe­di­da pe­la po­lí­cia.

Khaled Abdullah

Khaled Abdullah

De mão da­da com um sol­da­do, o pai da me­ni­na afir­mou: «Este é o pri­mei­ro dia da mi­nha vi­da. Agora es­tou ali­vi­a­do».

Khaled Abdullah

Que di­zer dis­to? Se acei­tar­mos que exis­tem si­tu­a­ções ex­tre­mas em que é acei­tá­vel que o nos­so sen­ti­do in­di­vi­du­al de jus­ti­ça se so­bre­po­nha ao que de­fen­de­mos pa­ra uma so­ci­e­da­de, se­rá es­se prin­cí­pio que jul­gá­va­mos de­fen­der as­sim tão for­te?

Existem cri­mes tão mons­tru­o­sos que na­da é mais im­por­tan­te do que li­vrar a Humanidade des­tes mons­tros? Mas o que é mais fá­cil? Chamar-lhe «mons­tro» ou ten­tar per­ce­ber por que ra­zão al­guém que já foi um ser hu­ma­no se tor­nou num?

Khaled Abdullah

Marco Santos

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