Poucas vezes vi um editorial tão arrasador para Donald Trump como aquele que foi publicado a 19 deste mês numa das mais influentes revistas publicadas na Europa — o Der Spiegel.

Assinado pelo editor-chefe da revista, Klaus Brinkbäumer, o editorial afirma que Trump é «uma ameaça para o mundo» e que chegou a altura de «nos livrarmos dele». A solução de Brinkbäumer passa por fazer com que a Europa deixe de estar dependente dos EUA.

Por cá, ninguém parece ter dado conta. Ele aqui está, para vosso conhecimento.

É tempo de nos livrarmos de Donald Trump

Brendan Smialowski

Foto: Brendan Smialowski

«Donald Trump não serve para presidente dos Estados Unidos. Ele não possui os requisitos intelectuais necessários e não compreende a importância do cargo que mantém nem as tarefas que lhes estão associadas.

Ele não lê. Não se incomoda em examinar ficheiros importantes e relatórios dos serviços de inteligência e sabe pouco dos assuntos que identificou como prioritários. As suas decisões são caprichosas e são emitidas sob a forma de decretos tirânicos.

Ele é um homem sem nenhum tipo de moral. Como tem sido demonstrado centenas de vezes, é um mentiroso, um racista e um batoteiro.

Sinto-me envergonhado por usar estas palavras, tão intensas e estrondosas como são. Mas se podem ser aplicadas a qualquer um, também o são a Trump. E uma das tarefas dos media é continuar a dizer as coisas como elas são: Trump tem de ser removido da Casa Branca. Ele é um perigo para o mundo.

Trump é um político miserável. Despediu o diretor do FBI simplesmente porque podia. James Comey buliu-lhe com os nervos com a sua investigação aos seus homens de confiança. Comey também recusou jurar-lhe lealdade e fidelidade e abandonar a investigação. Tinha de ser despedido.

Trump também é um patrão miserável. A sua equipa inventa desculpas por ele e mente em seu nome porque tem de o fazer, mas depois Trump acorda e publica tweets que contradizem o que a sua própria equipa afirmara. Ele não se importa que o seu porta-voz, o seu secretário de Estado e o seu conselheiro de Segurança Nacional tenham acabado de negar que o presidente passou à Rússia (de todos os países) informação sensível recolhida de Israel (de todos os países).

Trump tweetou: sim, sim, eu fi-lo porque eu posso. Sou o presidente, afinal de contas.

Cinco formas possíveis de o fazer

Nada é como devia ser nesta Casa Branca. Todos os que lá trabalham foram comprometidos múltiplas vezes e agora todos se desprezam uns aos outros — e toda a gente, exceto Trump, despreza Trump. Por tudo isso, com apenas 120 dias de administração Trump, testemunhamos uma tragédia americana para a qual, em teoria, existem cinco soluções.

A primeira é a demissão de Trump, o que não acontecerá. A segunda é os Republicanos na Câmara dos Comuns e no Senado apoiarem a impugnação, o que se justificaria perante a provada obstrução à justiça por parte do presidente. Isto não acontecerá devido à sede de poder dos Republicanos, pouco dispostos a abdicar voluntariamente de tal poder.

A terceira possível solução é invocar a 25ª Emenda, o que exigiria ao Gabinete declarar Trump incapaz de desempenhar os poderes da presidência. Isto também não parece provável.

Quarta: os Democratas preparam-se para a luta e reconquistam a maioria na Câmara e no Senado nas eleições intercalares que se realizam daqui a 18 meses. E depois prosseguiriam para a segunda opção, a impugnação.

Quinta: a comunidade internacional acorda e descobre uma forma de contornar a Casa Branca e libertar-se da sua dependência dos Estados Unidos. Ao contrário das anteriores quatro opções, a quinta não resolve diretamente o problema Trump, mas é, não obstante, necessária — e possível.

Ainda nem há duas semanas, especialistas e políticos focados em política externa encontraram-se em Washington a convite da Conferência de Segurança de Munique. Não era difícil sentir a atmosfera de caos e agonia que descera sobre a capital.

O Rei Louco

Tannen Maury

Tannen Maury

Os EUA elegeram um alvo de chacota para a presidência e tornaram-se dependentes de um homem anedótico. O país — como escreveu recentemente David Brooks no New York Times — está dependente de uma criança.

A administração Trump não tem política externa porque tem constantemente prometido a retirada americana ao mesmo tempo que invoca o seu poderio. Trump prometeu nenhuma guerra e prometeu mais guerra. Toma decisões de acordo com a sua disposição, sem coerência estratégica ou lógica tática. Moscovo e Pequim riem-se da América. Noutros lugares, as pessoas estão preocupadas.

No Pacífico, navios de guerra americanos e chineses circulam próximos, uns à volta dos outros. O conflito com a Coreia do Norte está a escalar. Quem pode estar certo de que Donald Trump não arriscaria uma guerra nuclear apenas para salvar a própria pele?

Os esforços para parar as mudanças climáticas estão comprometidos e muitos esperam que os EUA se retirem dos Acordos de Paris porque Trump desconfia de medidas juridicamente vinculativas.

Crises como as da Síria e Líbia estão a piorar, mas já não estão a ser discutidas. E com quem deveriam ser discutidas? Telefonemas e emails ao Departamento de Estado dos EUA não são respondidos. Nada é regulado, nada é estável e a relação transatlântica já mal existe. (…)

Em «Game of Thrones», o Rei Louco foi assassinado (e a criança que mais tarde lhe sucedeu não era melhor). Na vida real, um rapaz imaturo senta-se no trono do país mais importante do mundo. Ele pode, a qualquer altura, emitir uma ordem catastrófica que seria imediatamente cumprida.

É por isso que os pais não podem dar-se ao luxo de tirar os olhos dele nem por um segundo. Não podem sucumbir à exaustão por ele ser tão cansativo. O que eles têm de fazer é mandá-lo para o quarto — e devolver o poder aos adultos.»

Marco Santos

­ Marco Santos

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