Se os cães sou­bes­sem ler, a revis­ta Time em ver­são cani­na teria esco­lhi­do o caga­lhão do ano. Não o melhor caga­lhão, nem sequer o mais aro­má­ti­co, mas aque­le que mais se nota­bi­li­zou.

Pessoas somos todos, pes­so­as do ano tam­bém, pelo menos para os que nos que­rem e amam; mas são as obras que dei­xa­mos ao mun­do que con­tam. Mesmo que esse mun­do seja peque­no, qua­se invi­sí­vel à per­ce­ção de quem não bene­fi­cia da cober­tu­ra jor­na­lís­ti­ca.

Por isso, se tives­se de nome­ar uma «per­so­na­li­da­de do ano não teria esco­lhi­do Donald Trump.

O homem do ano é um palhaço. Não, dos verdadeiros.

Anas al-Basha

Anas al-Basha

Eu pre­fi­ro o «palha­ço de Aleppo». É o sírio Anas al-Basha, 24 anos, volun­tá­rio da orga­ni­za­ção «Space for Hope». Estava casa­do há dois meses. Nunca desis­tiu de fazer do mun­do um lugar melhor. Era um ide­a­lis­ta. Vestia-se de palha­ço para fazer rir as cri­an­ças de Aleppo, miú­dos que per­de­ram famí­li­as intei­ras nos bom­bar­de­a­men­tos ou estão em ris­co da as per­der, todos os dias, ago­ra.

Nós temos uma ideia mais ou menos gené­ri­ca do que é a misé­ria, do que é viver naque­las cir­cuns­tân­ci­as, mas na ver­da­de não sabe­mos. Ele sabia o que é a Síria. À medi­da que a situ­a­ção na cida­de pio­ra­va, outros volun­tá­ri­os foram-se reti­ran­do, por razões de segu­ran­ça. Anas al-Basha sen­tia que dava às cri­an­ças algo de impor­tan­te. Decidiu ficar.

A 29 de novem­bro des­te ano o «palha­ço de Aleppo» foi mor­to num bom­bar­de­a­men­to. Com ele, naque­le dia, mor­re­ram as gar­ga­lha­das de todas cri­an­ças cuja vida melho­ra­ra.

Poucos conhe­ce­ram Anas al-Basha enquan­to foi vivo, mas ele muda­va o mun­do todos os dias. É a minha esco­lha para pes­soa do ano. Representa o que de melhor exis­te no ser huma­no: soli­da­ri­e­da­de, altruís­mo, cora­gem, deter­mi­na­ção. É um sím­bo­lo de todos os que são como ele.

Não interessa que faças merda, é preciso é que faças muita

O pro­ble­ma de Anas al-Basha é o mun­do que ten­tou mudar ser tão peque­no. Estar tão lon­ge. Ser tão som­brio. Tão pou­co notá­vel. Logo, por cri­té­ri­os estri­ta­men­te jor­na­lís­ti­cos, pou­co impor­tan­te. O jor­na­lis­mo da Time pre­mi­ou o subs­tan­ti­vo e esque­ceu os adje­ti­vos.

É nor­mal. Donald Trump era tão ine­vi­tá­vel como a lis­ta dos víde­os mais vis­tos de 2016 no YouTube. Dá-se noto­ri­e­da­de a quem já a tem, não a quem a mere­ce. É assim que as coi­sas fun­ci­o­nam. Um nada que se ali­men­ta do nada para cri­ar outro espa­lha­fa­to­so nada.

Trump é a per­so­na­li­da­de do ano «para o melhor e para o pior», expli­ca o edi­to­ri­al, jus­ti­fi­can­do a esco­lha. Dentro des­se cri­té­rio rigo­ro­sa­men­te assép­ti­co, a esco­lhia não podia real­men­te ser outra.

Ainda assim, cus­ta-me a acei­tar. E não é só por a pes­soa do ano ser uma pes­soa de mer­da. O ego jupi­te­ri­a­no de Donald Trump ali­men­ta-se da noto­ri­e­da­de. A pre­si­dên­cia dos Estados Unidos está reple­ta de recom­pen­sas e esta foi a pri­mei­ra que rece­beu. É isto que o moti­va.

Vê-lo na capa, posan­do como se tives­se aca­ba­do de agar­rar um país pelos cor­nos, con­fir­ma que nes­te nos­so mun­do, mui­to mai­or do que o insig­ni­fi­can­te mun­do das cri­an­ças de Anas al-Basha, o cri­me com­pen­sa.

O homem que não acre­di­ta no aque­ci­men­to glo­bal, o defen­sor dos inte­res­ses das empre­sas petro­lí­fe­ras, o homem que agar­ra as mulhe­res pela pacha­cha, o cre­ti­no que conhe­ce uma cri­an­ça de dez anos e diz, alto e bom som, que «daqui a dez anos está a con­vi­dá-la para sair», o tipo que repre­sen­ta tudo aqui­lo que eu abo­mi­no e des­pre­zo, é a per­so­na­li­da­de do ano.

Afinal nem pre­ci­sa­va de pen­sar em ver­sões cani­nas do nos­so mun­do. Até por­que os cães são mui­to mais cri­te­ri­o­sos que nós a iden­ti­fi­car o que chei­ram.

Mas con­ti­nu­a­mos na mer­da e a chei­rá-la. A Time reco­nhe­ceu a noto­ri­e­da­de de quem vai obri­gar o mun­do a pisar toda a tram­pa que ele lar­gar. Porque já é mui­ta e vai ser ain­da mais. Tresanda mas não faz mal: é mer­da VIP.

Marco Santos

­ Marco Santos

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