Geyse Arruda

Geyse Arruda, 20 anos, es­tu­dan­te do cur­so de Turismo da uni­da­de de São Bernardo do Campo, da Uniban (Universidade Bandeirantes), foi ex­pul­sa do cam­pus por cer­ca de 700 alu­nos em fú­ria. Motivo: usa­va um ves­ti­do de­ma­si­a­do cur­to. Geyse es­ta­va ves­ti­da as­sim, co­mo nes­ta fo­to.

A con­fu­são e o cli­ma ame­a­ça­dor que se ge­rou – al­guns alu­nos cercaram-na, chamando-lhe «va­ga­bun­da» e «pu­ta» – le­vou à in­ter­ven­ção da Polícia Militar. Só pro­te­gi­da pe­los po­lí­ci­as – for­ça­dos a usar spray de gás pi­men­ta con­tra os es­tu­dan­tes mais ex­ci­ta­dos – a alu­na con­se­guiu aban­do­nar as ins­ta­la­ções da Universidade.

A ce­na passou-se a 22 de Outubro de 2009, sé­cu­lo XXI, mas a exi­bi­ção do ví­deo dos acon­te­ci­men­tos no YouTube trans­for­mou o epi­só­dio num even­to à es­ca­la glo­bal.

Devido à re­per­cus­são do ca­so, Geyse foi ao pro­gra­ma Geraldo Brasil, da TV Record, pa­ra se mos­trar com o ves­ti­do ro­sa cur­to que des­per­tou o fu­ror in­qui­si­dor dos es­tu­dan­tes e con­tar a sua ver­são dos acon­te­ci­men­tos. O apre­sen­ta­dor com­pa­rou o seu ca­so a Maria Madalena, a pros­ti­tu­ta ape­dre­ja­da do Novo Testamento.

Na en­tre­vis­ta, a jo­vem cul­pou tam­bém os pro­fes­so­res e fun­ci­o­ná­ri­os, acusando-os de par­ti­ci­par no tu­mul­to. «Os se­gu­ran­ças da fa­cul­da­de, ao prin­cí­pio, es­ta­vam a rir. Como é que um alu­no vai ter uma ati­tu­de de­cen­te se os pró­pri­os pro­fes­so­res e fun­ci­o­ná­ri­os apoi­am as hos­ti­li­da­des?»

Os se­gu­ran­ças da Uniban con­tam que um gru­po de es­tu­dan­tes «do se­xo mas­cu­li­no» co­me­çou a pro­vo­car a jo­vem as­sim que ela en­trou no pré­dio. A alu­na, ain­da se­gun­do os se­gu­ran­ças, te­ria res­pon­di­do às pro­vo­ca­ções le­van­tan­do par­te do ves­ti­do, dan­do iní­cio à dis­cus­são.

O por­tal de in­for­ma­ção on­li­ne «O Último Segundo» es­te­ve no cam­pus da Uniban pa­ra ou­vir a opi­nião dos es­tu­dan­tes que tes­te­mu­nha­ram – e par­ti­ci­pa­ram – das agres­sões ver­bais con­tra a alu­na. O con­sen­so en­tre os jo­vens ou­vi­dos pe­la re­por­ta­gem é o de que Geyse «con­se­guiu o que que­ria».

Um es­tu­dan­te de Educação Física afir­mou que, de iní­cio, Geyse es­ta­va a gos­tar da aten­ção: «Quando gri­ta­vam ‘gos­to­sa’, ela ria e des­fi­la­va», diz. «Depois co­me­ça­ram a ‘xin­gar’. Um gru­pi­nho co­me­çou e lo­go em se­gui­da es­ta­va to­do mun­do gri­tan­do. Quem es­ta­va ali gri­tou. Não te­ve um que não gri­tou».

A agi­ta­ção foi tan­ta que os co­le­gas da tur­ma de Geyse co­la­ram pa­péis nas ja­ne­las da sa­la pa­ra que o pro­fes­sor pu­des­se pros­se­guir a au­la, pois, lá fo­ra, en­cos­ta­dos ao vi­dro, alu­nos com te­le­mó­veis na mão aglomeravam-se pa­ra fil­mar a ra­pa­ri­ga.

No in­ter­va­lo, uma fun­ci­o­ná­ria da es­co­la ofereceu-lhe umas cal­ças de gan­ga, mas a alu­na re­cu­sou. «Acho que um ves­ti­do nu­ma mu­lher é ex­tre­ma­men­te fe­mi­ni­no. A mi­nha rou­pa só a mim me diz res­pei­to, res­pei­to to­do o mun­do e que­ro ser res­pei­ta­da», afir­mou no pro­gra­ma de te­le­vi­são.

Uma das alu­nas en­tre­vis­ta­das pa­ra a re­por­ta­gem de «O Último Segundo» in­ter­pre­ta a es­co­lha das rou­pas de for­ma di­fe­ren­te: «Se ela es­tá vin­do ves­ti­da des­se jei­to, al­gu­ma coi­sa ela quer». E ou­tra: «Se eu vou ves­ti­da de pa­lha­ça, te­nho con­sequên­ci­as. Ela con­se­guiu o que que­ria: cha­mar a aten­ção».

Os ar­gu­men­tos des­tes es­tu­dan­tes bra­si­lei­ros lem­bram as tris­te­men­te cé­le­bres de­cla­ra­ções de um clé­ri­go mu­çul­ma­no, Sheikh al-Hilali.

Em Outubro de 2006, o clé­ri­go acu­sou as mu­lhe­res aus­tra­li­a­nas de se­rem as cul­pa­das pe­las vi­o­la­ções de que são ví­ti­mas por «usa­ram ves­ti­dos cur­tos e ca­mi­nha­rem nas ru­as sem mo­dés­tia». O clé­ri­go comparou-as a «car­ne des­ta­pa­da», dei­xa­da na rua. «Se os ga­tos vi­e­rem e co­me­rem a car­ne, de quem é a cul­pa? Dos ga­tos ou da car­ne?»

Mas tam­bém te­mos des­tes pro­ble­mas nes­te nos­so mun­do ci­vi­li­za­do, não é? Quantas ve­zes uma mu­lher, ví­ti­ma de vi­o­la­ção, foi sub-repticiamente res­pon­sa­bi­li­za­da de ter «pro­vo­ca­do» o vi­o­la­dor? Existe até um ca­so clás­si­co no meio ju­rí­di­co por­tu­guês, co­nhe­ci­do co­mo o Acórdão da Coutada do Macho Ibérico.

Nem to­dos os alu­nos pen­sam com es­ta men­ta­li­da­de. Rafael Bruno, 22 anos, do cur­so de ad­mi­nis­tra­ção da Uniban, diz que os tu­mul­tos lhe fi­ze­ram lem­brar «uma igre­ja evan­gé­li­ca cheia de fa­ná­ti­cos. A hi­po­cri­sia era igual». Thaiza Andreone, do mes­mo cur­so e da mes­ma ida­de, diz que Geyse não é a úni­ca a usar «rou­pas ou­sa­das» na fa­cul­da­de. «Sempre tem umas me­ni­nas de top. Eu uso mini-saia e ves­ti­do cur­to, en­tão is­so tu­do é uma tre­men­da hi­po­cri­sia».

«Posso ter er­ra­do por ter ido com o ves­ti­do», afir­mou Geyse na en­tre­vis­ta à TV Record. «Mas o ac­to de van­da­lis­mo que fi­ze­ram co­mi­go não se faz com nin­guém».

Marco Santos

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