Donald Trump foi o can­di­da­to que dis­se as coi­sas co­mo elas são. O mes­mo po­di­am ga­ran­tir os três por­qui­nhos so­bre o lo­bo mau, quan­do es­te lhes foi ba­ter à por­ta a pro­me­ter que lhes dei­ta­va a ca­sa abaixo. 

Milhões de por­qui­nhos convidaram-no a en­trar, sa­tis­fei­tos por ele so­prar as coi­sas co­mo elas são. Donald Trump vai ser o pre­si­den­te da mai­or po­tên­cia mi­li­tar do pla­ne­ta. O su­pre­mo e in­con­tes­ta­do rei dos idi­o­tas. E tem um Senado com mai­o­ria re­pu­bli­ca­na. Será que ain­da acei­tam can­di­da­tu­ras pa­ra o Mars One? Apetece-me mu­dar de planeta.

Donald Trump não é um idi­o­ta qual­quer — é um dos gran­des idi­o­tas da História dos Estados Unidos. Compararam-no ao Hitler, mas o di­ta­dor na­zi era ca­ris­má­ti­co e ti­nha um ta­len­to di­a­bó­li­co pa­ra su­bir à me­sa e bo­tar dis­cur­so. Trump é um bron­co, não tem o dom da pa­la­vra. Mas é um bron­co esperto.

Muita gen­te o to­mou por pa­lha­ço, quan­do es­ta­vam a li­dar com um idi­o­ta as­tu­to. Um idi­o­ta que se jul­ga par­te de uma eli­te mas ca­paz de con­ven­cer mi­lhões que um vo­to ne­le é um vo­to con­tra as eli­tes. Um idi­o­ta ca­paz de pro­me­ter so­lu­ções pa­ra pro­ble­mas com­ple­xos nu­ma úni­ca frase.

O rei da po­lí­ti­ca da bri­co­la­ge. O país es­tá es­tra­ga­do? Arranja-se. É ele o ho­mem que vai mar­te­lar as so­lu­ções. Não lhe per­gun­tem co­mo nem porquê, limitem-se a con­fi­ar ne­le. Porque o se­gre­do re­si­de na má­gi­ca con­vic­ção das marteladas.

Ele é um ho­mem de su­ces­so. Um gran­de em­pre­sá­rio. Está cheio de gui­ta. O ti­po sa­be co­mo se fa­zem as coi­sas. É o ho­mem que os ou­tros idi­o­tas ve­em co­mo um exem­plo a seguir.

Trump ge­rou um mo­vi­men­to sus­ten­ta­do pe­la glo­ri­fi­ca­ção da idi­o­ti­ce. A idi­o­ti­ce é im­pa­rá­vel e con­ta­gi­o­sa, so­bre­tu­do quan­do é le­gi­ti­ma­da. A América mi­só­gi­na, se­xis­ta, ra­cis­ta, an­ti­ci­en­tí­fi­ca e pre­con­cei­tu­o­sa an­da­va es­con­di­da, mas revelou-se no voto.

O mo­vi­men­to foi cres­cen­do à vol­ta des­te mi­li­o­ná­rio ba­zó­fi­as. Um ho­mem sem ver­go­nha de di­zer a pri­mei­ra coi­sa que lhe vem à ca­be­ça, co­mo fa­zem to­dos os ou­tros idi­o­tas. Um ti­po que rom­peu o iso­la­men­to dos idi­o­tas e os jun­tou nu­ma mas­sa ou­sa­da, ba­ru­lhen­ta e mui­to mo­ti­va­da a votar.

Agora aguentem-se

 Saeed Khan

Foto: Saeed Khan

Porque Trump é um de­les, em ver­são me­lho­ra­da, com di­nhei­ro pa­ra pa­gar as su­as idi­o­ti­ces. Os idi­o­tas es­ta­vam a pre­ci­sar de al­guém que pu­des­sem com­pre­en­der. E um pre­si­den­te ca­paz de sen­tir or­gu­lho e vai­da­de de to­das as idi­o­ti­ces que diz é um lí­der ins­pi­ra­dor, ca­paz de os fa­zer sen­tir tam­bém or­gu­lho­sos e vai­do­sos de to­das as idi­o­ti­ces que dizem.

Os Estados Unidos pas­sa­ram do pri­mei­ro pre­si­den­te ne­gro da sua his­tó­ria pa­ra um pre­si­den­te apoi­a­do pe­lo Ku Klux Klan. Boa, América.

Os mu­çul­ma­nos são pro­to­bom­bis­tas. Os me­xi­ca­nos, po­ten­ci­ais vi­o­la­do­res. Os ne­gros con­ti­nu­a­rão a ser aba­ti­dos nas ru­as, em no­me da lei. Porque tu­do o que é di­fe­ren­te é gen­te es­qui­si­ta. E os idi­o­tas não gos­tam de gen­te esquisita.

No dia em que o mun­do co­me­mo­ra a que­da do Muro de Berlim, a América ele­ge o ho­mem que pro­me­teu cons­truir um. Um ho­mem que cons­trui­rá vá­ri­os, nem que se­jam me­ta­fó­ri­cos. Um ho­mem que acha o Aquecimento Global uma tre­ta. Um me­ga­ló­ma­no mi­só­gi­no e ra­cis­ta. Um ti­po que se ga­ba de con­quis­tar as mu­lhe­res agarrando-as «pe­la pachacha».

Não sou ame­ri­ca­no. Para quê chatear-me tan­to? Não te­nho na­da a ver com o as­sun­to. Nem odeio o ho­mem. Se Donald Trump es­ti­ves­se pres­tes a cair de uma pon­te abai­xo, por exem­plo, se­ria uma des­gra­ça. Mas se al­guém o se­gu­ras­se, se­ria uma ca­la­mi­da­de. Obrigado, América, pe­la calamidade.

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?