Para os brazucas que aportam em terras lusitanas e para os portugas que se aventuram nos tristes trópicos pode parecer que comparar Brasil e Portugal é como comparar um ser humano com um chimpanzé.

Os dois países são quase que completamente diferentes, apenas a língua de Camões seria o denominador comum.

Entretanto, observando as entranhas destas duas terras é possível perceber que os dois lados do Atlântico são tão próximos como você e o chimpanzé: apenas 1% de diferença genética.

O que é mais estranho aos brasileiros que chegam a Portugal é a língua. Mais que um sotaque diferente, a última flor do Lácio, inculta e bela, dividiu-se em duas: um português americano, cristalizado no século XVII ou XVIII e misturado ao Tupi-guarani; mais recentemente recheado de anglicismos, galicismos e alguma coisa trazida da África.

Na outra vertente está o português europeu, que traduz nomes de lugares e pessoas (só evita traduções de nomes como Boston, que soaria pior aos ouvidos que Amsterdão), que mudou palavras e, de modo genial para os brasileiros, inventou o uso do «pois». Assim, quando estiver a conversar com um brasileiro e ele responder «pois» significa que ele não está a perceber nadica de nada.

Claro que a compreensão não está no uso de palavras diferentes ou na forma de construir as orações. Um brasileiro estará sempre em maus lençóis no Porto, da mesma forma que um português ficará desesperado em Minas Gerais.

Ouvir expressões portuenses como «é preciso cá bir»; «bibó Porto» ou «obo estrelado» é tão complexo quanto chegar em minas e «pegá u ônz»; «arredá es trem» ou «deixar pô pó».

Mesmo com estas diferenças é interessante perceber que a proximidade linguística dá-se de uma forma inesperada: através da música. E por incrível que possa parecer, é a música pimba a responsável por esta aproximação entre os dois países: a mesma forma de gerar duplo sentido nas frases, o modo ritmado da melodia e a «coreografia» dos cantores.

Os cantores portugueses não têm grande penetração no Brasil, mas as músicas brasileiras que Portugal importa sob rótulos de funk, axé e sertanejo, nada mais são que música pimba com uma roupagem «moderninha».

Mais recentemente inventou-se um acordo ortográfico para igualar o que é diferente, coisa de burocratas da academia. Portugal não deveria seguir o acordo, pois modificou palavras que não serão alteradas no Brasil: aspecto, recepção, espectador. E, ao fim e ao cabo, são modos diferentes de interpretar a realidade, uma vez que no Brasil não existe talho nem fato – é açougue e terno. Moço é qualquer um mais novo, não há gajos e rapariga (em algumas regiões) é a prostituta.

Mas é a língua um bem precioso que não é de ninguém em particular. Nós é quem somos responsáveis por tratá-la bem e nos entendermos com ela.

Arthur Barroso

­ Arthur Barroso

Jornalista. Investigador. Cidadão do mundo.