Mistério do Cristo-Rei

Autoria: Marco Santos [2/Junho/2008] [81]

Ninguém esperava uma coisa daquelas. Mesmo muitos anos após o sucedido, nas conversas de serão entre Messengers de avós e netos, o acontecimento continuaria a ser visto como «estranho» e «inexplicável».
Às sete da manhã do dia 7 de Maio de 2050, pelo menos assim o indica o relatório policial, o braço esquerdo da estátua do Cristo-Rei descaiu.
Para além deste pormenor, que não era nada insignificante, mesmo em 2050, nada mais parecia ter acontecido: a estátua continuava no mesmo sítio, colocada numa espécie de pedestal muitos quilómetros acima da existência dos mortais, e mantinha a mesma expressão vazia que lembrava, pelo menos a alguns, o silêncio gelado de Deus, o silêncio de sempre.
Era provável que o fenómeno tivesse acontecido durante a noite e ninguém tivesse reparado. Mas àquela hora, com tanta gente a desaguar em Lisboa para regressar ao trabalho, os corações bateram mais depressa, os espíritos inquietaram-se, os travões guincharam e os carros despistaram-se: com um dos braços descaídos, o Cristo-Rei lembrava mais um agente da GNR a mandar parar o trânsito do que propriamente um Salvador da Humanidade. A visão de um representante da autoridade com centenas de metros de altura, ainda por cima intocável, pronto a passar multas e outras reprimendas em plena ponte 25 de Abril, tinha provocado o caos: meia-hora depois, às sete e meia da manhã, centenas de viaturas encontravam-se já espalhadas pelo tabuleiro da ponte como se dedos gigantescos as tivessem lançado numa corrida de caricas. Alguns condutores, os de memória longa, descontrolaram-se quando julgaram ter visto no estranho fenómeno uma reencarnação da velha saudação nazi. Mas devia ter sido da insolação e dos ares do rio.
A maior infelicidade, contudo, ocorrera no interior da própria estátua. Em 2050, como decerto sabem, o Cristo-Rei já era oco por dentro, oco mesmo, isto é, como aqueles ovos de chocolate que se oferecem na Páscoa e que parecem muito grandes e cheios de chocolate mas que são só fogo de vista.
Dez anos antes, numa operação comparável à edificação do Centro Cultural de Belém, ocorrida há muito, muito tempo, um grupo de arquitectos, engenheiros e outros génios transformara o interior da estátua num grande espaço de comércio e lazer. No braço esquerdo funcionavam muitas lojas, incluindo estúdios da televisão, casinos, cafés, discotecas, perfumarias e mesmo algumas paróquias, incluindo a Domingos Oliveira, que ficava no dedo indicador. A diocese de Lisboa, que ao princípio tinha ficado no peito da estátua, na zona do coração, fora transferida para a cabeça: nas orelhas funcionavam os confessionários, na boca montara-se uma capela das modernas, ampla e bonita, equipada com um serviço fast-food para hóstias. Mas o que impressionava nessa capela era a vista que dali se desfrutava, pois tratava-se de uma paisagem tão extraordinária que os fiéis, maravilhados, já se julgavam a meio caminho do céu – era um ambiente óptimo para os donativos.
Havia uma excepção: a zona do nariz, pois aí funcionavam os escritórios dos ecologistas da Quercus.
A verdade é que nunca se soube o que tinha acontecido – ter-se-ia tratado de um fenómeno de erosão? Os estudos foram inconclusivos. Seriam ainda necessárias milhares de horas de trabalho para repôr o braço no devido lugar. Mas as pessoas nunca mais esqueceriam a terrível visão, ainda que por escassos segundos, de que Cristo resolvera regressar à Terra, encarnando na sua própria estátua para passar multas, reprimendas e atormentar o espírito humano.

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