Quando o Google tosse, há sempre um blogger que se constipa. Metade dos que acompanho diariamente menciona nos últimos dias as alterações feitas pelo Google aos valores de PageRank dos sites. Que te diz isto a ti, que não tens blogue nem site? Nada. Que te diz isto a ti, que não sabes o que é a PageRank? Népia. Dado que os autores dos posts também não se preocupam em explicar a PageRank e por que razão é tão importante, o visitante leigo passa por cima da informação.
Aos que nada pescam do assunto e gostavam de entender toda esta comoção da blogosfera à volta da PageRank, talvez a leitura do capítulo The Power of Linking: sinais de economia política da Web possa ser muito útil. É retirado de um excelente livro do jornalista e especialista italiano Giuseppe Granieri, Geração Blogue, publicado o ano passado em Portugal pela Editorial Presença e traduzido por Maria das Mercês Peixoto.
Segue-se uma parte significativa desse capítulo.
O link, moeda corrente na Web
«Os links têm um valor preciso na Web e podem ser considerados como um pseudo-valor»: na relação apresentada em 2002 na Conferência da Association for Computing Machinery Hypertext em Baltimore, significativamente intitulada Links and Power: The Political Economy of Linking on the Web, a especialista norueguesa Jill Walker retoma e desenvolve uma filosofia não inédita, à luz de algumas alterações nos equilíbrios da Rede. O ponto de partida é a crítica à teoria segundo a qual numa rede todos os elos têm a mesma possibilidade de ser alcançados. A condição é bastante clara: «Todos nós participamos numa estrutura de poder. Podemos criticá-la, reflectir nela, aprová-la ou tentar subvertê-la. Mas não devemos ignorá-la. A estandardização dos links e o seu valor modelarão aquilo que o futuro nos reserva, porque definem o que pode ser encontrado. Definem conhecimento.»
Com o enorme êxito e a extraordinária difusão do Google, os links deixaram de ser simples elementos de ligação e adquiriram um «valor». O algoritmo de funcionamento do motor de busca americano, conhecido como PageRank, utiliza-os para determinar a popularidade e, como tal, a visibilidade de um sítio da Net. Os detalhes de funcionamento do algoritmo não são completamente públicos, ainda que o princípio seja claro: o Google interpreta os links como um voto do webmaster nas ligações do sítio com os pontos de conexão.
Trata-se de uma inovação substancial. Até há poucos anos não era difícil encontrar, sobretudo numa dada esfera de conselheiros legais renitentes em compreender a inovação, pessoas convencidas de que uma ligação de A para B roubava valor a este último para o acrescentar a A, visto que deste modo quem criava o link ligava-se a conteúdos de propriedade alheia. Uma certa escola de pensamento tinha até começado a defender que os links eram de certo modo uma violação dos direitos de autor. Por muito que hoje possa parecer absurdo a quem conhece a Rede, nalguns casos a controvérsia chegou a originar um razoável número de processos em tribunal.
Hoje, como diz Walker, «quando ofereço um link para B, este link fornece um valor preciso (se bem que oculto) à PageRank do Google e a outros sistemas de indiciação como o Blogdex. O link tem para B um valor superior ao que o conteúdo da página de B tem para mim ou para os meus leitores. Eu, como o meu link, estou a pagar a B pelo acesso aos seus conteúdos». Além disso, para o Google, a PageRank influi também no valor do próprio link, visto que uma ligação proveniente de uma página com uma outra reputação é atribuído um maior peso.
O mecanismo de «conta pesada» que governa a leitura dos links no modelo PageRank influi de maneira directa nas possibilidades de acesso a uma página. Implicitamente, a partir do rank (a escala em que é medido o peso do link) atribui-se uma associação de valor aos conteúdos. Em The Anatomy of a Large-Scale Hypertextual Web Search Engine, Sergey Brin e Lawrence Page [Nota: fundadores do Google] explicam com grande clareza o funcionamento deste sistema:
«A PageRank pode ser pensada como um modelo de comportamento do utilizador. Vamos pôr a hipótese de que há um ‘navegador casual’ que parte de uma página da Web ao acaso e começa a clicar nos links, nunca voltando atrás mas, eventualmente, aborrecendo-se e partindo de novo de uma outra página. A probabilidade de este utilizador visitar uma página é a PageRank […] Uma justificação intuitiva é a seguinte: uma página pode ter uma elevada PageRank se para ela apontam muitas páginas, ou poucas páginas com uma elevada PageRank. Sempre intuitivamente, páginas citadas por muitos pontos na Web têm o valor pelo facto de serem procuradas, tal como uma página que, tendo uma única citação, mas sendo proveniente do Yahoo! Ou de sítios semelhantes, tem igualmente o seu valor. Se de facto uma página não tem boa qualidade, ou é apenas um link que não leva a nada, é previsível que não tenha um link a partir do Yahoo!.»
A teoria da especialista norueguesa foi depois retomada por muitos outros. No seu estudo On the Economy of Web Links: Simulating the Exchange Process, Boris Galitsky e Mark Levene simularam uma situação de mercado em que os links são trocados por dinheiro, comprados e vendidos com base num preço estabelecido na PageRank: «Na moderna economia da Web, os links já conquistaram um valor monetário, visto que são capazes de aumentar a visibilidade do sítio nos motores de busca mais importantes. Nessa qualidade, podem ser considerados como uma forma de investimento passível de ser objecto de uma transacção.»
Embora a conclusão de Walker seja impugnável de muitos pontos de vista, não se pode questionar, nos dias que correm, que as ligações hipertextuais sejam a unidade de medida utilizada para quantificar o êxito de uma página e, por extensão, do seu autor. Tal como não se pode continuar a supor, como o entusiasmo da primeira hora, que cada novo elo na Rede (cada sítio, cada blogue) tenha à partida a mesma visibilidade de todos os outros. (…)






























6 comentários
Estás a querer dizer que devo encher o meu espaço com inúmeros links para o meu espaço ganhar valor na internet?
Tu também não explicas a importância do livro do inglês a cada entrada sobre “a tua vida como não fumador”. Está lá para trás. Eu faço o mesmo, ainda que por vezes seja útil semear uns links pelo arquivo, mais não seja para SEO
O artigo original de Brin e Page (olha-me aquelas carinhas larocas de há 10 anos) encontra-se em http://infolab.stanford.edu/~backrub/google.html e existem muitas páginas que explicam o funcionamento do Pagerank.
O PageRank há muito que é um pseudo-valor: existe uma evidente correlação entre o seu valor e a capacidade de uma página para se posicionar nos primeiros lugares dos serps mas a explicação reside noutros factores. A idade do domínio/site, do próprio link, a confiança do G no mesmo, o texto âncora e aquele que lhe está próximo.
Bastam alguns links precisos (e preciosos) para aparecer em buscas razoavelmente competitivas e a maioria dos webmasters vive à caça de links de chacha. O valor dos links é em muitos casos sobrestimado e noutros subvalorizado.
Desculpe! Não é «livro do inglês» que se diz!
É «livro do excelentíssimo senhor Allen Carr», está bem?
E essa história de meteres links para a tua explicação sobre o PageRank parece-me bem. Força. Sou leitor. Até porque o teu leitor pode estar mais interessado em ler a tua interpretação/tradução/filtração/enfiltração whatever, do que vasculhar uma pilha de sites ingleses provavelmente cheios de pó. Neste contexto, a citação dos fundadores do Google em português é preciosa para o leigo.
Desculpai-me a ofensa ao excelentíssimo, magnífico, senhor Carr
(estava preguiçoso para procurar o nome)
Não tenho a certeza de me querer aventurar muito mais neste assunto do que o parágrafo que escrevi na página que tenho na assinatura deste comentário. Nós bloggerss somos por vezes levianos nos temos que abordamos.
Aqui está um link que em tempos subscrevi no blog: Smashing magazine. Concordo sobre o valor da citação em português.
Everything you’ve learned…
Houve uma altura em que eu tinha um Page Rank de 4. Hoje em dia nem tenho direito a um page rank, zero, nicles, nada que se veja.
Curiosamente isso não influenciou nada o meu website ou posição no google. Se pesquisarem por Relações Públicas, o meu blog deve ser um dos primeiros resultados. (Batido apenas pela wikipédia se não me engano)
Por isso, já não ligo ao page rank. Nem me impressiono quando me dizem que o page rank de 5 ou 6 de um website resulta em X ou Y centenas de visitas por dia. O meu blog tem vindo a subir mesmo sem qualquer indicação de valor pelo google, além da posição nas pesquisas.
dãã… seu site tem PageRank 5, Bruno Amaral!