
O Mundo sem nós: plantas e animais são os novos nova-iorquinos (Ilustração: Kenn Brown)
Não são necessários grandes exercícios de especulação ou tratados de ficção científica para ter uma ideia do que pode acontecer à Natureza quando os seres humanos não interferem: crescimento e regeneração.
Na entrevista dada em Agosto deste ano à revista Scientific American (link para a reportagem em português do Brasil), o jornalista norte-americano Alan Weisman, autor do livro O Mundo Sem Nós, dá como exemplo a zona desmilitarizada entre as duas Coreias. Trata-se de uma faixa montanhosa de 250 quilómetros de comprimento por quatro de largura estabelecida pelo armistício que pôs fim à Guerra da Coreia. A área mantém-se praticamente livre de influência humana desde 1953.
«Temos toda esta extensão de terreno» – recorda Weisman, que andou três anos a percorrer o mundo entrevistando técnicos e cientistas. «Dois dos maiores exércitos do mundo encontram-se posicionados, um diante do outro. Entre eles foi criada uma reserva “involuntária” de vida selvagem. É possível observar espécies que poderiam estar extintas se não fosse por aquele pedacinho de terra praticamente virgem. Às vezes ouvem-se os soldados gritando uns com os outros por alto-falantes ou exibindo propaganda política – alheios a toda aquela tensão, bandos de garças azuis escolhem lá passar o Inverno.»
Mais de 50 anos depois de ter sido criado – e cinquenta anos são quase insignificantes em termos geológicos – o antigo «campo da morte» (palavras de Weisman) transformou-se num paraíso da vida selvagem. Temos milhares de espécies de aves migratórias como as garças azuis, mas também ursos asiáticos, leopardos Amur (quase extintos) e tigres siberianos, que se julgavam já desaparecidos naquela região do planeta. Se um dia as duas Coreias fossem uma só, a zona desmilitarizada deixaria de ter razão de ser e o refúgio natural estaria ameaçado. «A única espécie viável que restará (…) será provavelmente a nossa», escreve Weisman.
Nós só viemos aqui para atrapalhar, mas algumas espécies seriam imensamente prejudicadas com o nosso desaparecimento. Ainda segundo a investigação de Wiesman, sem a protecção a que estão habituados, vacas, touros, cabras, ovelhas e porcos seriam uma refeição fácil para todos os carnívoros. É possível que em dois séculos a maioria desses animais desaparecesse. Os cães, dependentes de nós em tudo, teriam imensas dificuldades em sobreviver e não suportariam a concorrência de lobos e coiotes. Sem nós, o cão extingue-se. Quanto aos gatos, a história é outra.
O trabalho de Weisman confirma as qualidades que muitas pessoas vêm nos gatos: o sentido de independência e a forte personalidade. Estas características ajudarão os felinos a sobreviver num mundo sem o Homem, competindo com outros pequenos carnívoros.
Uma surpresa: os animais que normalmente nos causam mais repulsa – ratos e baratas – seriam os mais prejudicados pela ausência humana. Sem electricidade e os nossos sistemas de aquecimento, as baratas não conseguiriam adaptar-se às temperaturas das cidades mais frias – a barata é um insecto proveniente de África. Os ratos proliferarão durante uns tempos, pelo menos enquanto durar o nosso lixo. Quando este desaparecer, os ratos morrerão à fome e transformar-se-ão em alimento de falcões, lobos e coiotes.






























3 comentários
Vejo que estiveste a ler a Super Interessante (digo isto porque a comprei hoje e tem um artigo sobre esse livro e fala de muitas das coisas que escreveste neste post)
um abraço e keep up the good work
ashn0d
Bela revista! Compro sempre que posso! Li o artigo, sim senhor. Foi ao lê-lo que tive a ideia de escrever um post sobre o mesmo assunto. Bem, na verdade, é capaz de dar uma série de posts…
Realmente dá que pensar.
Fantástico, sem dúvida.
Como será depois de “Nós”?