→ 20/07/2007 @15:55

O homem que falava com os animais

Konrad Lorenz

O austríaco Konrad Lorenz (1903-1989) é um belo exemplo de amor e carinho pelos animais. Esse amor – e o espírito científico – fizeram dele um dos iniciadores da moderna Etologia, o estudo comparado do comportamento animal. Foi galardoado com o Prémio Nobel da Medicina em 1973.

Lorenz viveu a ascensão e queda da Alemanha de Hitler. A sua entrada para o partido Nazi em 1938, algumas declarações que proferiu e o cargo universitário que aceitou são uma mancha na sua biografia. Um dos exemplos é o texto da sua candidatura a membro do partido nazi que incluiu afirmações como esta: «Todo o meu trabalho científico está devotado às ideias Nacional-Socialistas.» Nunca se provou, contudo, que se tenha devotado a ideias que implicassem «limpezas raciais» ou que o seu trabalho tivesse sido deturpado pelos nazis.

Quando aceitou o prémio Nobel, em 1973, pediu desculpas. «Muitos cientistas decentes esperaram, como eu esperei, durante um curto período de tempo, que coisas boas viessem do Nacional Socialismo. E rapidamente muitos viraram as costas sentindo o mesmo horror que eu senti.»

Em 1941 foi incorporado na Wehrmacht como médico para participar na invasão da Rússia. Foi feito prisioneiro de guerra pelos Soviéticos em 1944 e libertado quatro anos depois.

Konrad Lorenz tornou-se ecologista nos últimos anos de vida, tendo-se filiado no Partido Os Verdes austríaco e aceite ser o rosto principal de uma manifestação contra a construção de uma central energética no Danúbio. Mas muito antes, em 1949, no livro «Ele Falava com os Mamíferos, as Aves e os Peixes», manifestou a sua opinião sobre a guerra e o uso das armas de uma forma que provavelmente nenhum nazi concordaria.

Como tantas vezes lhe sucedeu, Lorenz partiu da observação do comportamento animal. Numa luta entre dois lobos, escreveu, é impossível que o vencedor mate o vencido. No clímax da luta, «os dois animais ficam completamente imobilizados, (…) rosnam, ambos enfurecidos», mas um dos lobos, o vencedor, tem a boca na garganta do derrotado. «E este vira a cabeça, oferece indefeso ao inimigo a parte côncava da sua garganta, logo a mais vulnerável do seu corpo. As presas do adversário brilham nas mandíbulas ferozmente arreganhadas, a menos de três centímetros da curvatura tensa do pescoço, ali onde a jugular pulsa à flor da pele. Ao passo que antes, enquanto lutavam, o esforço de cada um tendia a apresentar à mordedura apenas os dentes, a única parte invulnerável do seu corpo, e a proteger sobretudo a sua garganta do ataque do inimigo, dir-se-ia agora que o vencido apresenta propositadamente ao outro esta parte do seu ser em que a mais pequena mordedura será fatal. (…) E é assim mesmo que acontece».

«O lobo, nesta fase», prossegue Lorenz, «não morde. Vê-se bem que não quereria outra coisa, mas não pode! Um cão ou um lobo que oferece a garganta ao adversário na atitude descrita atrás nunca é gravemente ferido. (…) Esta extraordinária inibição que o impede de morder efectivamente só dura enquanto o vencido mantiver a ‘atitude de submissão’. (…) Mal abandonou a sua humilde imobilidade, o outro precipita-se sobre ele como um relâmpago, e o desgraçado tem de se imobilizar novamente, de cabeça virada, oferecendo docilmente a garganta. (…) Felizmente para o vencido, o vencedor sente, após o combate, a irresistível necessidade de marcar o seu campo de batalha com um ‘sinal olfactivo’ anunciando de qualquer forma o seu direito de propriedade sobre o território, (…) por outras palavras, basta-lhe alçar a pata contra o objecto vertical mais próximo. E o cão ou lobo vencido aproveita geralmente esta cerimónia de posse para se esquivar sorrateiramente.»

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