→ 19/11/2009 @1:40

Mais vale dizer asneiras

Há um recurso que um blogger não deve negligenciar: o recurso à caralhada. Quando digo caralhada, quero dizer palavrão ou palavra feia. Há dois tipos.

De um ponto de vista estritamente caralhístico, é possível dizer caralhadas sem pronunciar um único palavrão.

O dilema da caralhada enquanto recurso estilístico, digamos assim, é também um factor que separa o blogger bem-educado do blogger mal-educado. O blogger bem-educado pode dizer as caralhadas que desejar, desde que não use a palavra propriamente dita. É a diferença entre dizer asneiras e só dizer disparates.

O blogger mal-educado poderá pensar: bem, o meu amor pelas palavras é tal que tanto amo as que são consideradas feias como as que se julgam bonitas. O blogger mal-educado poderá até considerar que é o contexto e as circunstâncias em que as palavras são usadas que as tornam feias ou bonitas.

E saber fazer contas também é importante. Por exemplo, ninguém poderá dizer que a palavra campo é um palavrão. Quantos quadros, livros, músicas e filmes maravilhosos inspirou?

Não acredito também que se possa dizer que a palavra concentração é feia. Dá-nos a capacidade de resolver problemas, descobrir soluções, planear, imaginar, sonhar, escrever.

Contudo, se usarmos a preposição de para juntar essas duas palavras, obtemos campo de concentração, ou seja, uma coisa mesmo muito, muito feia.

Li uma vez que o actor Humphrey Bogard desconfiava de quem não aceitasse beber um uísque com ele. O homem desenvolvera uma relação tão íntima com a bebida que se sentia um estranho perante pessoas que não gostassem de beber.

Eu tendo a embirrar com outras coisas e desconfio sobretudo daqueles que têm medo das palavras. E têm tanto medo que as usam como máscaras.

Dá sempre que pensar quando verificamos que certas palavras, juntas ou isoladas, nos travam o discurso e a espontaneidade. Em certos casos, usam-se como perfume para disfarçar o pivete das ideias e certezas absolutas que nascem nos sovacos da Democracia.

Um exemplo extremo: Solução final, em vez de extermínio. Dois exemplos mais corriqueiros: De cor, em vez de preto. Homossexual, em vez de gay pessoa. Quando são aplicadas para mascarar sentimentos mais desagradáveis, são eufemismos. Eufemismo é o saco lustroso em que se embrulha o lixo. E pega-se com cuidado, para não sujar as mãos. Eufemismos e máscaras costumo encontrar nas pessoas com quem profundamente discordo.

Não, eu nos blogues prefiro os caralhismos aos eufemismos.

18 comentários

  • 1
    com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows XP Windows XP
    19 de Novembro de 2009 - 01:50 | Link permamente

    Respeite-se o caralho!

  • 2
    paols
    com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows XP Windows XP
    19 de Novembro de 2009 - 08:01 | Link permamente

    Palmas para este post!

  • 3
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Novembro de 2009 - 09:38 | Link permamente

    Marco, ontem eu disse uma caralhada nos comentários e não gostei de o ter feito. Mas para o ter feito, foi sinal que estava mesmo fodido com alguns comentários. Adiante

  • 4
    com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows 7 Windows 7
    19 de Novembro de 2009 - 11:25 | Link permamente

    Aqui, no Brasil, nossos políticos costumam proferir as mais feias caralhadas disfarçadas em palavras do fundo dos dicionários. Seriam, então, eufemismos?

  • 5
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    19 de Novembro de 2009 - 11:52 | Link permamente

    Eu também prefiro, de longe, os caralhismos! Mas talvez porque lá do país distante de onde venho os caralhismos, caralhadas e palavrões são considerados palavras bem bonitas e expressivas! ;)

  • 6
    com GranParadiso 3.0.12pre GranParadiso 3.0.12pre em Windows XP Windows XP
    19 de Novembro de 2009 - 13:15 | Link permamente

    Fábio, nesse caso devem ser disparates mesmo.

  • 7
    BetoNogueira
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    19 de Novembro de 2009 - 13:56 | Link permamente

    «…o pivete das ideias e certezas absolutas que nascem nos sovacos da Democracia.»
    gostei desta.

  • 8
    Tiago V
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows XP Windows XP
    19 de Novembro de 2009 - 14:26 | Link permamente

    O texto é um pouco longo, mas para que ainda não conhece aqui vai …

    Foda-se – por M illôr Fernandes
    (adaptado)

    O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à
    quantidade de “foda-se!” que ela diz.
    Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda-se!”?
    O “foda-se!” aumenta a minha auto-estima, torna-me uma
    pessoa melhor.
    Reorganiza as coisas. Liberta-me.
    “Não quer sair comigo?! – então, foda-se!”
    “Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! – então,
    foda-se!”

    O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição.

    Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos
    extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário
    de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos
    mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua
    língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que
    vingará plenamente um dia.
    “Comó caralho”, por exemplo. Que expressão traduz melhor a
    ideia de muita quantidade que “comó caralho”?

    “Comó caralho” tende para o infinito, é quase uma expressão
    matemática.

    A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
    O Sol está quente comó caralho!
    O universo é antigo comó caralho!
    Eu gosto do meu clube comó caralho!
    O gajo é parvo comó caralho!

    Entendes?
    No género do “comó caralho”, mas, no caso, expressando a
    mais absoluta negação, está o famoso “nem que te fodas!”.
    Nem o “Não, não e não!” e tão pouco o nada eficaz e já sem
    nenhuma credibilidade “Não, nem pensar!” o substituem.
    O “nem que te fodas!” é irretorquível e liquida o assunto.
    Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades
    de maior interesse na tua vida.
    Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro
    para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
    Solta logo um definitivo:
    “Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!”.
    O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro
    Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema,
    e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (…)
    Há outros palavrões igualmente clássicos.
    Pense na sonoridade de um “Puta que pariu!”, ou o seu
    correlativo “Pu-ta-que-o-pa-riu!”, falado assim, cadenciadamente,
    sílaba por sílaba.
    Diante de uma notícia irritante, qualquer “puta-que-o-pariu!”, dito
    assim, põe-te outra vez nos eixos.
    Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se
    reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um
    merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
    E o que dizer do nosso famoso “vai levar no cu!”? E a sua
    maravilhosa e reforçadora derivação “vai levar no olho do cu!”?
    Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus
    quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de
    seu interlocutor e solta:
    “Chega! Vai levar no olho do cu!”?

    Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima.
    Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar
    firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado
    amor-íntimo nos lábios.

    E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de
    maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu-se!”. E a
    sua derivação, mais avassaladora ainda: “Já se fodeu!”.
    Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para
    uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de
    ameaçadora complicação?
    Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor
    num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo
    assim como quando estás a sem documentos do carro, sem
    carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a
    mandar-te parar. O que dizes? “Já me fodi!”
    Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada
    funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a
    saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os
    empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e
    em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a
    desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”

    Então:
    Liberdade,
    Igualdade,
    Fraternidade
    e
    foda-se!!!
    Mas não desespere:

    Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”

    Atente no que lhe digo!

    • 9
      com GranParadiso 3.0.12pre GranParadiso 3.0.12pre em Windows XP Windows XP
      19 de Novembro de 2009 - 14:40 | Link permamente

      Millôr Fernandes é um mestre. Sigo-o no Twitter porque 140 caracteres nas mãos dele interessam-me mais do que 2000 nas mãos de outros.
      Não conhecia esse texto. Obrigado pela partilha.

  • 10
    Angie
    com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Mac OS X 10.4 Mac OS X 10.4
    19 de Novembro de 2009 - 16:18 | Link permamente

    Foda-se…Gostei!!!! Basta assimilar a sabedoria do mestre Zappa para compreender a importância dum bom “caralhismo”! :p

    • 11
      com GranParadiso 3.0.12pre GranParadiso 3.0.12pre em Windows XP Windows XP
      19 de Novembro de 2009 - 17:19 | Link permamente

      Angie: Zappa, é isso mesmo. Uma grande influência.

  • 12
    com Opera 10.01 Opera 10.01 em Windows 7 Windows 7
    19 de Novembro de 2009 - 16:43 | Link permamente

    Marco

    A usar caralhadas que as uses em português. Essa do gay foi para não usar paneleiro?

    • 13
      com GranParadiso 3.0.12pre GranParadiso 3.0.12pre em Windows XP Windows XP
      19 de Novembro de 2009 - 16:46 | Link permamente

      Não, cparis. A palavra paneleiro prefiro-a usar num contexto mais sarcástico. É uma forma de a virar contra aqueles que a usam como acusação.
      Mas se queres uma palavra portuguesa, podes trocar gay por pessoa.
      Edit: aliás, é uma boa ideia. Fica mais incisivo e mostra melhor o que eu queria dizer.

  • 14
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Novembro de 2009 - 22:32 | Link permamente

    O Humphrey também dizia que o mundo seria bem melhor se todos já estivessem com 2 whiskys tomados.
    (O que é um bom ponto de vista, aquela desinibiçãozinha… rs)
    Quanto aos palavrões, de mim saem quando eu estou muito muito muito irritada e nessas alturas sabem-me tââão bem ! rs
    Talvez por isso (embora não me incomodem em determinadas pessoas ou contextos como este) tendo a guardá-los para esses momentos especiais… rs

  • 15
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Novembro de 2009 - 22:47 | Link permamente

    Ah, e quanto ao “preto”, aprendi a dizer “negro” no Brasil -lá usa-se muito negro, negritude- e por isso preto soa-me um bocado brusco.
    Pelo mesmo motivo prefiro dizer bunda ou bumbum, a rabo e calcinha a cueca feminina… rs

  • 16
    Ana Souto
    com Firefox 3.0.15 Firefox 3.0.15 em Windows XP Windows XP
    20 de Novembro de 2009 - 00:52 | Link permamente

    Brilhante, este texto.

  • 17
    com Opera 10.01 Opera 10.01 em Windows 7 Windows 7
    20 de Novembro de 2009 - 16:41 | Link permamente

    Perdi-me: pessoa é asneira ou disparate? Calculo que dependa da pessoa, mas parece-me que preferes os eufemismos e tenhas medo de usar (algum)as asneiras. É fodido.

    • 18
      com GranParadiso 3.0.12pre GranParadiso 3.0.12pre em Windows XP Windows XP
      20 de Novembro de 2009 - 17:02 | Link permamente

      Pois, é fodido.