8/Janeiro/2009

Estupidez aguda, tecnologia e informação instantânea

O que mais me irrita na blogosfera, nos fóruns de discussão e na zona de comentários dos jornais – o Público é o melhor exemplo  – é a facilidade com que são debitadas opiniões inflamadas sobre o que não se conhece.

Tenho pensado nisso praticamente desde que ando na Web. A primeira justificação que me veio à cabeça foi pensar que todas essas pessoas são burras – uma conclusão parva porque a inteligência não se manifesta apenas na forma como intervimos em fóruns de discussão, manifesta-se em qualquer actividade humana, até no amor se manifesta, portanto a origem do problema não pode ser apenas o típico caso de estupidez aguda. Deve haver outra explicação.

Para mim é a seguinte: as pessoas opinam sobre o que não sabem porque são compelidas a reagir no imediato à torrente de informação que lhes chega de todos os lados mas que não traz conhecimento. Vejam que no caso deste conflito entre Israel e os palestinianos não temos apenas a TV, as rádios e os jornais para nos informar – também os sites, os blogues e as mensagens escritas no Twitter relatam os últimos acontecimentos de forma instantânea.

Como vivemos numa cultura tecnológica que sobrevaloriza a rapidez com que a informação nos chega, somos incentivados a ter uma opinião igualmente instantânea dos acontecimentos.

Já vi pessoas a confundir «sionismo» com judaísmo, ignorando que o sionismo e a ideia de um «lar para judeus» tiveram origem nos finais do século XIX como reacção às perseguições de que eram alvo na Rússia czarista, fortalecendo-se alguns anos depois nos Estados Unidos como movimento de pressão política pura e dura, suscitando por isso a oposição de muitos dos próprios judeus.

Outro exemplo: as pessoas clamam pela destruição dos terroristas árabes e a vitória do democrático Israel, mas preferem ignorar que as potências que lutavam contra a Alemanha e o Império Otomano na I Guerra Mundial – Rússia czarista, Grã-Bretanha e França – ignoraram o direito à autodeterminação dos 750 mil palestinianos que viviam na Palestina, quebrando uma promessa de honra feita aos árabes e tecendo um fio de história que acabaria por levar ao favorecimento de uma minoria de 30 mil judeus que para lá tinha emigrado.

Tal como os jornais não conseguem competir com as televisões em rapidez, também estas não conseguem acompanhar redes como o Twitter, que ligam, directa ou indirectamente, milhões de pessoas comunicando em tempo real. O caminho alternativo dos media tradicionais poderia ser o de dar mais sentido e profundidade ao fluxo de informação mas, em vez disso, à conta desta corrida desenfreada em que insistem participar como se continuassem a ditar as regras, funcionam muitas vezes como meros instrumentos de propaganda das duas partes em conflito.

Mas seres humanos morrem todos os dias, judeus e palestinianos, sobretudo palestinianos, uma guerra está a ser travada e é uma guerra suja, uma guerra de guerrilha numa selva de inocentes, o drama desenrola-se diante de nós em tempo real e toda esta desesperada miséria no Médio Oriente toca-nos, comove-nos, compele-nos a tomar uma posição contra ou a favor.

O problema é que estamos todos condicionados a pensar que informação é conhecimento e que «filtrar» é o mesmo que «processar». Estamos condicionados a pensar que a forma como escolhemos uma informação e rejeitamos outra significa que formámos uma opinião quando, na maior parte das vezes, essa escolha só revela o nosso preconceito.

Vejam como a blogosfera de direita é tendencialmente pró-israelita e a de esquerda pró-palestiniana. Tomar posição inequívoca a favor ou contra numa questão tão complexa que começou quando o cavalo era o meio de transporte mais comum, é ajudar a fazer desta «informação instantânea» o novo mito do conhecimento.

Fala-se muito das maravilhas do Twitter, mas convém medir o verdadeiro alcance de uma ferramenta tecnológica, parece-me um bocado limitativo adorá-la incondicionalmente. Se calhar é melhor deixar essas adorações para os nerds e pegar nuns livros de vez em quando.

8 respostas | Estupidez aguda, tecnologia e informação instantânea
  1. Fernando fez-se à net com Firefox 2.0.0.5 Firefox 2.0.0.5 em Windows XP Windows XP

    O assunto continua controverso, por milênios até. Seja nesta ou naquela ferramenta, desde o momento em que Deus confudiu a língua dos homens durante a construção da Torre de Babel, parece-me termos perdido mais que a comunicação, talvez um pouco de humanidade também.
    Estivessemos na idade da pedra, seriam pedras; na idade média, por que não uma fogueira; já hoje iluminados que somos, por que não algumas bombas para rivalizar com os fogos de ano novo.
    E por que uma nova ferramenta faria alguma diferença enquanto os homens, são os mesmos?

    De todo modo, e sem partidos a tomar, novas ferramentas acabam por nos trazer novas surpresas, ou quase sempre.
    No link que lhes encaminho, um curioso blog brasileiro tenta mostrar algumas formas de jornalismo que de certa forma se mostrariam tendenciosos.
    No caso, encontraram através de uma ferramenta da web um blog inativo com tendências certamente duvidosas de certa jornalista a quem hoje incumbe noticiar o conflito naquelas terras de forma, diria parcial?

    http://cloacanews.blogspot.com/2009/01/reprter-da-globo-no-oriente-mdio-serviu.html

    Abraços,
    Fernando

  2. taranis_pt fez-se à net com Google Chrome 1.0.154.36 Google Chrome 1.0.154.36 em Windows Vista Windows Vista

    Eu sofro do contrário, quanto mais leio sobre o assunto menos opinião tenho …

    aconselho a leitura do dossier gaza do público e principalmente este artigo

  3. [...] Leia o texto do Marco Santos, do Bitaites, integralmente. Vale a pena [...]

  4. pat fez-se à net com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP

    Olá olá
    Raramente vejo TV, principalmente por falta de tempo, pelo que opto por ler o que acontece no mundo e arredores na net.
    talvez porque (vergonhosamente… ou não!) nem sei o que é o twitter, opto por me informar nos sites dos vários jornais nacionais.
    Mas geralmente pouco descubro sobre o que realmente me interessa. Acho que a informação em Portugal (tal como no resto do mundo) é completamente desinteressante, parcial e muitas vezes enganadora.
    Quando vejo uma reportagem sobre o meu trabalho, ou sobre alguém que conheço pessoalmente, tenho a tendência para rir à gargalhada. Isto depois do choque, claro!
    Quanto à guerra entre Israel e a Palestina a minha opinião é que é guerrear, matar e morrer daquela forma é ridiculo. Nunca acharei legitima uma guerra. Mesmo que um dos lados tenha inequivocamente razão. Neste caso nem isso acho que aconteça. Ambos os lados igualmente errados, mas um com muito mais poderio que outro. As imagens que tenho visto são tristemente impressionantes.
    E acho que o mundo está demasiado indiferente a esta guerra. Continuam a morrer pessoas, mas não se fala do assunto, não há revolta, não há esforço para acabar com isto.
    Afinal, mais importante é o acidente da pseudo-estrela Ronaldo!!!
    fica bem
    pat

  5. romudas fez-se à net com Firefox 3.0.5 Firefox 3.0.5 em Windows XP Windows XP

    O mundo está indiferente a essa guerra, não porque CR7 espatifou o seu bólide, mas sim porque está dividido. O Marco tem toda a razão quanto ao não-processamento de informação que fazemos hoje em dia. Para se perceber o que se passa na Terra Santa não é preciso ouvir o que Nuno Rogeiro ou Miguel Sousa Tavares têm a dizer sobre a coisa. O melhor é mesmo lermos um livro de história, visitar a Wikipedia ou ver o Canal História durante uma tarde. Não se sabe quem mandou a primeira pedra, mas a verdade é que esta guerra há muito que é desequilibrada e, na minha humilde opinião, bastava os Estados Unidos virarem as costas a Israel durante uns tempos para os judeus – anteriormente vítimas do holocausto, agora com ideias para criarem um – baixarem a crista.

    Tenho dito.

  6. a. almeida fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP

    Sempre que passo pelo Público e pela zona de comentários, fico com uma impressão que ao lado do artigo deixam por lá uma lata de gasolina e alguns fósforos. Esta ainda é uma boa tentação para o atiçar de fogos.

    …Direita pelos israelitas e esquerda pelos palestinianos…
    Será assim tão linear? Creio que não. É o que penso, talvez por ser de esquerda, do centro e da direita. Não me iludem as ideologias manetas. Sempre gostei de usar as duas mãos. Usar só uma, limita-nos.

  7. romudas fez-se à net com Firefox 3.0.5 Firefox 3.0.5 em Windows XP Windows XP

    Ah, pois. O post é sobre os comentários do Público. Pronto, desculpem. Não leio esse tipo de comentários. Para isso já me chega o meu pai à hora de jantar a comentar as notícias num registo propositadamente parolo. Bem, umas vezes é propositadamente parolo, noutras é intrinsecamente parolo. Aí saltamos para cima da mesa de garfos e facas em punho enquanto a minha mãe se esconde debaixo do lava-loiça.

    Se fosse eu a mandar (curiosamente é assim que o pessoal dos comentários às notícias pensa quando está a comentar) não disponibilizava essa opção aos leitores. Um jornal, ou uma notícia, é para ler, não para comentar, bolas.

  8. Bruno Miguel fez-se à net com GNU IceCat 3.0.5-g1 GNU IceCat 3.0.5-g1 em GNU/Linux GNU/Linux

    Gostei da tua última frase. Adorar, só o software livre! :mrgreen:

  9. retorta fez-se à net com Firefox 3.0.5 Firefox 3.0.5 em Windows XP Windows XP

    Já há muito tempo que aprendi que fóruns e comentários só servem para gastar largura de banda. Quanto ás ferramentas, digitais ou analógicas, depende do fim em vista. Nada é à partida bom ou mau, o seu uso é que lhe pode dar esse carácter. Como cresci num mundo em que a única tecnologia era o rádio AM, utilizo o que melhor serve, seja o twitter, o blog, ou um livro.
    Nada me deslumbra de uma forma cega e acrítica, e não sou fanático de nada, porque isso só significa incapacidade de pensar.