Palavra do ano? Um emo­ji. O Oxford Dictionaries es­tá modernizar-se. Aquele pro­ces­so de for­mar pa­la­vras jun­tan­do um con­jun­to de le­tras umas a se­guir às ou­tras em uma sequên­cia co­e­ren­te já é mui­to sé­cu­lo XX.

Decisão his­tó­ri­ca da mal­ta dos di­ci­o­ná­ri­os! É co­mo se os ja­po­ne­ses de­ci­dis­sem ele­ger o ta­ma­got­chi co­mo o ani­mal do­més­ti­co do ano.

Implica tam­bém o re­co­nhe­ci­men­to da po­pu­la­ri­da­de des­tes bo­ne­qui­nhos no nos­so dia-a-dia di­gi­tal.

«A cul­tu­ra emo­ji tornou-se do­mi­nan­te no úl­ti­mo ano» – ex­pli­ca o de­par­ta­men­to da Universidade de Oxford em co­mu­ni­ca­do. – «O emo­ji in­cor­po­rou uma fei­ção nu­cle­ar do nos­so mun­do di­gi­tal que é vi­su­al­men­te mo­ti­va­da, emo­ci­o­nal­men­te ex­pres­si­va e ob­ces­si­va­men­te ime­di­a­ta».

Os novos bonecos do Facebook também têm valor histórico

Ainda re­cen­te­men­te – em uma ten­ta­ti­va pa­ra fa­zer o uti­li­za­dor calar-se de vez com os pe­di­dos de um bo­tão «não gos­to» – o Facebook lan­çou a sua pró­pria ver­são do Fungagá da bi­cha­ra­da.

É um con­jun­to de emo­jis co­mo o que ga­nhou a dis­tin­ção de «pa­la­vra do ano»: além do fa­mi­li­ar «gos­to», apa­re­cem tam­bém um «ado­ro» em for­ma de co­ra­ção pi­ro­so, um «uau», um «haha», um «yay» – se­ja o que for que is­so sig­ni­fi­que em Português – e ou­tros que re­fle­tem es­ta­dos de es­pí­ri­to co­mo «con­fu­são», «ira» ou «tris­te­za».

Senhores do res­pei­tá­vel Oxford Dictionary pres­tem aten­ção ao pré-fabricado de emo­ções que o Facebook cons­truiu: con­têm po­ten­ci­ais «pa­la­vras do ano 2016». São pa­la­vras es­pe­ci­ais, sem le­tras. São pa­la­vras que não se con­se­guem pro­nun­ci­ar, mas não são in­vi­sí­veis. Não apa­re­cem nos di­ci­o­ná­ri­os Oxford, mas são pa­la­vras.

Bem, co­mo os se­nho­res de Oxford sa­bem bem, o emo­ji não dei­xa de ser uma for­ma de es­cri­ta, a es­cri­ta pic­to­grá­fi­ca, a pri­mei­ra de que ti­ve­mos co­nhe­ci­men­to. Nada tem a ver com a lin­gua­gem ver­bal, é uma re­pre­sen­ta­ção de ob­je­tos, fi­gu­ras e idei­as.

Sendo o emo­ji tão «mo­der­no», tão 2015, é in­te­res­san­te co­mo re­me­te pa­ra um pe­río­do re­mo­to em que o va­lor da ima­gem na per­ce­ção e co­mu­ni­ca­ção hu­ma­na era pri­mor­di­al.

Críticos da es­co­lha do emo­ji das gar­ga­lha­das co­mo pa­la­vra do ano per­gun­tam se re­gres­sá­mos aos tem­pos dos hi­e­ró­gli­fos, mas até a es­cri­ta hi­e­ro­glí­fi­ca era mais avan­ça­da, pois já com­bi­na­va ele­men­tos re­pre­sen­ta­ti­vos com ele­men­tos pro­nun­ciá­veis.

Da pró­xi­ma vez que ti­ve­rem de es­co­lher um dos bo­ne­qui­nhos pa­ra «re­a­gir» no Facebook, te­nham em con­ta que não es­ta­rão a fa­zer na­da de subs­tan­ci­al­men­te di­fe­ren­te do que fa­zi­am os me­so­po­tâ­mi­os. Estes de­se­nha­vam os seus pró­pri­os emo­ji, por as­sim di­zer, mas gra­va­vam es­sas re­pre­sen­ta­ções em pe­dras cui­da­do­sa­men­te po­li­das.

Mais de cin­co mil anos de­pois, con­ti­nu­a­mos a fa­zer o mes­mo. Que bo­ne­qui­nho hei-de es­co­lher pa­ra co­men­tar es­ta ob­ser­va­ção?

Polegar de Neve e os sete emojicões

Polegar de Neve e os se­te emo­ji­cões: Adoro, Haha, Yay, Uau, Confusão, Tristeza e Ira

Ainda não sei. Tudo is­to é mui­to bo­ni­to e cul­tu­ral, mas os no­vos bo­ne­qui­nhos do Facebook causam-me al­guns pro­ble­mas. Devo es­tar com a vis­ta can­sa­da por­que o bo­ne­qui­nho «haha», por exem­plo, lembra-me a ca­re­ta que eu cos­tu­ma­va fa­zer quan­do era pu­to e me obri­ga­vam a co­mer ar­roz de gre­los.

Aquele que ex­pres­sa «con­fu­são» evo­ca os lon­gín­quos tem­pos em que fu­ma­va umas bro­cas e con­se­guia ver o mun­do em câmara-lenta – foi o mais pró­xi­mo da Lua a que con­se­gui che­gar, mas não dei­xa de ter um no­me apro­pri­a­do, ape­sar de tu­do.

Já o bo­ne­qui­nho do «uau» – e o Facebook que me per­doe – parece-me a ca­be­ça de uma bo­ne­qui­nha in­su­flá­vel com a bo­ca es­can­ca­ra­da pa­ra sa­tis­fa­zer vo­cês sa­bem que ne­ces­si­da­des. É mui­to oral, de fac­to, mas na­da tem a ver com lin­gua­gem.

Raios, tornei-me de­ma­si­a­do per­ver­so pa­ra uma re­de so­ci­al re­ple­ta de tan­ta ino­cên­cia.

Marco Santos

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