Jackie Chan não mor­reu com um ata­que car­día­co ful­mi­nan­te. Tal co­mo de­ze­nas de ou­tras «ce­le­bri­da­des» que tam­bém não mor­re­ram an­tes de­le, o ator mantém-se vi­vo e de boa saú­de.

O ru­mor co­me­çou ao prin­cí­pio des­ta se­ma­na com um ar­ti­go no sí­tio de no­tí­ci­as fal­sas «7News». Largado o en­go­do, não foi pre­ci­so es­pe­rar mui­to até ser cri­a­da uma pá­gi­na do Facebook: «R.I.P. Jackie Chan».

Depois de trans­mi­tir a no­tí­cia e de ape­lar aos fãs pa­ra de­mons­tra­rem «sim­pa­ti­as e con­do­lên­ci­as co­men­tan­do ou dan­do um ‘gos­to’ à nos­sa pá­gi­na», a fal­sa no­tí­cia espalhou-se pe­las re­des so­ci­ais e ge­rou no­vas pá­gi­nas «RIP» de tri­bu­to.

Como acon­te­ce tan­tas ve­zes nes­tes ca­sos, o «7News» con­tou com a pre­ci­o­sa as­sis­tên­cia de gen­te que dor­me com os olhos aber­tos di­an­te do com­pu­ta­dor e que man­tém uma úni­ca par­te do cor­po fun­ci­o­nal: o de­di­nho pa­ra cli­car no ra­to e par­ti­lhar.

Um senhor que sabia umas coisitas sobre o assunto

Falsos ru­mo­res so­bre o de­sa­pa­re­ci­men­to de gen­te fa­mo­sa sem­pre exis­ti­ram. Por coin­ci­dên­cia, o exem­plo mais an­ti­go e co­nhe­ci­do en­vol­ve um ho­mem que, à épo­ca, ti­nha a mes­ma ida­de de Jackie Chan: 61 anos.

A 1 de ju­nho de 1897, nas pá­gi­nas do New York Herald, con­si­de­ra­do en­tão co­mo um dos gran­des jor­nais dos Estados Unidos, sur­giu um re­la­to in­qui­e­tan­te so­bre o es­cri­tor Mark Twain.

Mark Twain

Mark Twain

O au­tor das aven­tu­ras e vi­a­gens de Tom Sawyer, en­tre mui­tas ou­tras, encontrava-se «gra­ve­men­te do­en­te e, pos­si­vel­men­te, a mor­rer. Pior ain­da» – pros­se­guiu o ar­ti­go – «foi-nos di­to que o seu bri­lhan­te in­te­lec­to es­tá ani­qui­la­do e que ele pre­ci­sa de­ses­pe­ra­da­men­te de di­nhei­ro».

Twain es­ta­va nes­se dia em Londres a tra­ba­lhar co­mo re­pór­ter, co­brin­do o ju­bi­leu da Rainha Vitória pa­ra o New York Journal. Esta as­so­ci­a­ção com o fa­mo­so es­cri­tor foi ime­di­a­ta­men­te apro­vei­ta­da pe­lo Journal pa­ra de­nun­ci­ar a ar­go­la­da jor­na­lís­ti­ca da pu­bli­ca­ção con­cor­ren­te.

E foi nes­se ar­ti­go a pir­ra­çar o Herald – tí­tu­lo: «Mark Twain di­ver­ti­do» – que o es­cri­tor pro­fe­riu o des­men­ti­do mais fa­mo­so da his­tó­ria: «O re­la­to da mi­nha mor­te foi um exa­ge­ro». A ci­ta­ção é ho­je mais co­nhe­ci­da na sua ver­são adul­te­ra­da: «As no­tí­ci­as da mi­nha mor­te fo­ram gran­de­men­te exa­ge­ra­das».

Mataram o Morgan Freeman? Não fomos nós!

Também em 1966 o «be­a­tle» Paul McCartney po­de­ria ter ci­ta­do Twain, quan­do co­me­ça­ram a cir­cu­lar ru­mo­res se­gun­do os quais o «ver­da­dei­ro Paul» ti­nha mor­ri­do e fo­ra subs­ti­tuí­do por «um im­pos­tor» nos Beatles.

46 anos de­pois, em 2012, foi a vez des­se Paul «im­pos­tor» mor­rer, quan­do o seu fa­le­ci­men­to foi anun­ci­a­do no Twitter – mais um da­que­les bo­a­tos ini­ci­a­dos e es­pa­lha­dos na Internet. Algures nes­te pla­ne­ta Terra exis­te um ter­cei­ro Paul McCartney, o que nun­ca mor­reu ou subs­ti­tuiu em se­gre­do um dos mem­bros dos Beatles.

Os bo­a­tos nes­ta era da Internet são tão nu­me­ro­sos que é de ad­mi­rar que as pes­so­as ain­da os acei­tem co­mo ver­da­dei­ros sem pri­mei­ro in­ves­ti­gar um bo­ca­di­nho a fon­te – e se não qui­se­rem dar-se ao tra­ba­lho, ao me­nos que des­con­fi­em.

A 16 de de­zem­bro de 2010, por exem­plo, um uti­li­za­dor no Twitter – es­te idi­o­ta – anun­ci­ou a mor­te do ator Morgan Freeman. Não se li­mi­tou a lan­çar um ru­mor: fez um fal­so RT atri­buin­do à CNN a no­tí­cia e le­van­do mi­lha­res de pes­so­as a acre­di­tar ime­di­a­ta­men­te na ve­ra­ci­da­de da his­tó­ria.

Poucas ho­ras de­pois, a CNN afir­mou no Twitter não ter re­por­ta­do a mor­te do ator: «O ru­mor é fal­so. Vamos in­ves­ti­gar agres­si­va­men­te es­te lo­gro». Ainda no mes­mo dia, a es­ta­ção lan­çou um ar­ti­go a es­cla­re­cer o ca­so, com o se­guin­te tí­tu­lo: «Quem dis­se que Morgan Freeman ti­nha mor­ri­do? Nós não».

Ninguém morreu, mas há vítimas a declarar

Dão-se recompensas a quem encontrar o assassino da língua portuguesa. Vivo ou morto.

Dão-se re­com­pen­sas a quem en­con­trar o as­sas­si­no da lín­gua por­tu­gue­sa. Vivo ou mor­to.

E ago­ra o Jackie Chan. A his­tó­ria é sem­pre a mes­ma, só os pro­ta­go­nis­tas vão mu­dan­do. Basta ir ao Google pa­ra ter a lis­ta de fal­sos mor­tos. Aqui es­tá uma. Na era da Internet, o ru­mor é tam­bém po­ten­ci­a­do pe­lo ba­ta­lhão de sí­ti­os e blo­gues de mer­da que só exis­tem pa­ra fa­tu­rar ao cli­que e in­sul­tar in­te­li­gên­ci­as alhei­as.

Jackie Shan con­ti­nu­a­rá a dar pon­ta­pés nos maus da fi­ta, ou­tros con­ti­nu­a­rão a dar pon­ta­pés na gra­má­ti­ca. Este sí­tio bra­si­lei­ro – não le­va link, cla­ro – no­ti­cia o ru­mor da se­guin­te for­ma:

O fa­mo­so ator Jackie Chan, mor­reu es­ta ma­nhã de­pois de so­frer uma pa­ra­da car­día­ca ful­mi­nan­te, com 61 anos de ida­de.

O ar­tis­ta mar­ci­al de ori­gem chi­ne­sa, que ob­te­ve fa­ma in­ter­na­ci­o­nal de­pois de es­tre­lar no fil­me al­vo­ro­ço no Bronx, em 1995. (…)

De acor­do com re­la­tó­ri­os mé­di­cos, Jackie Chan, que en­trou es­ta ma­nhã no hos­pi­tal, so­freu uma mor­te sú­bi­ta car­día­ca, que pa­ra­li­sou seu co­ra­ção que o san­gue atin­gir o cé­re­bro e ou­tros ór­gãos, uma si­tu­a­ção que cau­sou a mor­te des­te Homem ga­nhou o prê­mio hu­ma­ni­tá­rio fi­lan­tro­po so­ci­al do ano de 2013, de­vi­do ao seu gran­de es­for­ço pa­ra er­ra­di­car a fo­me e as ques­tões de se­gu­ran­ça que exis­tem no seu país.


Não se pre­o­cu­pem, ca­ros fãs. Jackie Chan con­ti­nua vi­vo. A úni­ca ví­ti­ma mor­tal des­ta his­tó­ria é a lín­gua por­tu­gue­sa – o fa­le­ci­men­to te­rá ocor­ri­do na­que­le úl­ti­mo pa­rá­gra­fo do ar­ti­go, após vá­ri­as li­nhas de gran­de ago­nia.

Marco Santos

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