O fo­tó­gra­fo ale­mão Olli Waldhauer ini­ci­ou uma cam­pa­nha no Facebook pa­ra de­mons­trar aqui­lo que qual­quer uti­li­za­dor da­que­la re­de so­ci­al es­tá far­to de sa­ber.

A pu­bli­ca­ção de men­sa­gens e ima­gens ra­cis­tas, mi­só­gi­nas, in­to­le­ran­tes ou vi­o­len­tas não acar­re­ta pro­ble­mas. Se al­guém se atre­ve a mos­trar um par de ma­mi­nhas, a pa­tru­lha dos bons cos­tu­mes do Facebook en­tra em ação e apa­ga os ma­mi­los pre­va­ri­ca­do­res.

Facebook Friendly Square

Olli Waldhauer cansou-se des­se pu­ri­ta­nis­mo que de­mo­ni­za as ma­mas mas per­mi­te, por exem­plo, men­sa­gens ra­cis­tas e xe­nó­fo­bas con­tra os mi­gran­tes que es­ca­pam da guer­ra na Síria e pro­cu­ram re­fú­gio na Europa. E ini­ci­ou uma pro­vo­ca­ção.

Embora te­nha re­ce­bi­do mais de 600 se­gui­do­res em me­nos de 12 ho­ras, Olli tem um per­cur­so que aju­da a com­pre­en­der que a ati­tu­de não é gra­tui­ta nem pre­ten­de cha­mar a aten­ção pa­ra si pró­prio. Basta ver o seu por­te­fó­lio.

Da série «Não sou um terrorista»

Da sé­rie «Não sou um ter­ro­ris­ta»

Fotografou em Cuba, Israel, cap­tou vi­las aban­do­na­das na Turquia, ma­ni­fes­ta­ções mul­ti­cul­tu­rais em Berlim. Um dos seus úl­ti­mos pro­je­tos – uma co­la­bo­ra­ção na cam­pa­nha «Não sou um ter­ro­ris­ta» – con­sis­te em ti­rar re­tra­tos de mu­çul­ma­nos e mu­çul­ma­nas a vi­ver na Alemanha.

A ideia ago­ra é pres­si­o­nar o Facebook a cen­su­rar «a pro­pa­gan­da da extrema-direita», co­mo cha­ma o fo­tó­gra­fo às di­a­tri­bes ra­cis­tas con­tra os mi­gran­tes, mas per­mi­tir a nu­dez.

O con­fli­to en­tre os que apoi­am e os que ata­cam a vin­da de mi­gran­tes intensificou-se na Alemanha nos úl­ti­mos anos por ra­zões ób­vi­as, até pa­ra quem não pres­ta mui­ta aten­ção aos no­ti­ciá­ri­os. Esse con­fli­to refletiu-se nas men­sa­gens que têm sur­gi­do no Facebook.

Claro que Olli es­tá a exa­ge­rar ao pe­dir o lá­pis azul: to­dos têm o di­rei­to de ser idi­o­tas e exi­bir as res­pe­ti­vas idi­o­ti­ces na ti­me­li­ne. Difícil é acei­tar que a exi­bi­ção dos pei­tos de uma mu­lher se­ja con­si­de­ra­da mais ame­a­ça­do­ra ou in­de­cen­te pe­lo Facebook que a ba­ba der­ra­ma­da na «ti­me­li­ne» dos pa­ler­mas.

Sem li­gar mui­to à con­tra­di­ção en­tre o li­ber­ti­nis­mo que pe­de e a cen­su­ra que exi­ge, o fo­tó­gra­fo lan­çou a cam­pa­nha – «o ma­mi­lo em vez do in­ci­ta­men­to» – e pu­bli­cou no seu per­fil do Facebook uma fo­to me­mo­ra­vel­men­te in­de­cen­te.

Olli Waldhauer

A ra­pa­ri­ga em to­pless po­sa atrás de um ho­mem que exi­be uma men­sa­gem ra­cis­ta: «não com­pres aos ka­na­ken». O «não com­pres» é uma re­fe­rên­cia à pa­la­vra de or­dem dos na­zis quan­do o re­gi­me de Hitler ini­ci­ou a sua cam­pa­nha de ódio con­tra os ju­deus; «ka­na­ken» é um ter­mo ra­cis­ta usa­do pa­ra des­cre­ver pes­so­as do Médio Oriente.

Por ci­ma, mes­mo ao la­do das ma­mo­cas pe­ri­go­sas, a men­sa­gem: «Uma des­tas pes­so­as es­tá a vi­o­lar as re­gras do Facebook».

21 mi­nu­tos de­pois, a fo­to foi apa­ga­da. Adivinhem lá porquê. Sim, não foi por cau­sa do ra­cis­mo da men­sa­gem. Para o Facebook, a ma­ma fe­mi­ni­na é um si­lo e o ma­mi­lo um mís­sil ba­lís­ti­co in­ter­cor­po­ral pron­to a ser lan­ça­do às tes­tas judaico-cristãs.

Olli Waldhauer in­cen­ti­vou os seus se­gui­do­res a par­ti­lhar a fo­to nos seus pró­pri­os per­fis pa­ra for­çar o Facebook a re­ver as su­as po­lí­ti­cas. A cam­pa­nha tornou-se vi­ral: a ima­gem já foi tão par­ti­lha­da que al­gu­mas có­pi­as têm con­se­gui­do so­bre­vi­ver aos cen­so­res.

O Facebook re­a­giu dan­do uma no cra­vo e ou­tra na fer­ra­du­ra: «acu­sa a cam­pa­nha de ser uma pro­vo­ca­ção», con­ta o fo­tó­gra­fo, «mas diz com­pre­en­der por que ra­zão as pes­so­as a apoi­am».

Marco Santos

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