No fil­me Minority Report, ba­se­a­do num con­to de Philip K. Dick, um de­par­ta­men­to po­li­ci­al mui­to es­pe­ci­a­li­za­do cha­ma­do PreCrime con­se­gue atu­ar e pren­der os ci­da­dãos an­tes de es­tes co­me­te­rem a ação cri­mi­no­sa, gra­ças aos po­de­res psí­qui­cos de três precogs.

O Partido Socialista tam­bém tem um de­par­ta­men­to es­pe­ci­a­li­za­do de PreCrime, pois con­si­de­ra que to­dos aque­les que com­pra­rem dis­cos rí­gi­dos, im­pres­so­ras, pens USB, dis­po­si­ti­vos mul­ti­mé­dia do ti­po iPod, câ­ma­ras fo­to­grá­fi­cas ou te­le­mó­veis com me­mó­ria in­ter­na pre­ten­dem usá-los pa­ra guar­dar con­teú­do pro­te­gi­do por di­rei­tos de autor.

Por is­so, apre­sen­ta­ram no Parlamento um pro­je­to de lei, o 118, que de­fen­de que to­dos te­re­mos de pa­gar ta­xas so­bre es­ses dis­po­si­ti­vos – chamam-lhes «com­pen­sa­ções» – as quais, em al­guns ca­sos, im­pli­ca­rão au­men­tos de 40 por cen­to pa­ra o consumidor.

Por exem­plo, se com­pra­res um dis­co rí­gi­do de 1 te­raby­te pa­ra guar­da­res fo­tos ou fil­mes das tu­as fé­ri­as, o de­par­ta­men­to Precrime do Partido Socialista par­te do prin­cí­pio de que vais usar o es­pa­ço pa­ra a pi­ra­ta­ria. Se fo­res mú­si­co e qui­se­res guar­dar ma­te­ri­al ori­gi­nal, tens de pa­gar a mes­ma ta­xa e pe­las mes­mas ra­zões. Por cau­sa do teu Precrime, um dis­co que cus­te uns 50 eu­ros pas­sa­rá a cus­tar qua­se 70. Para on­de vai o di­nhei­ri­nho extra?

Minority Report

Um ele­men­to da SPA exer­ci­ta o seu le­gí­ti­mo di­rei­to à pres­ci­ên­cia moral

O de­par­ta­men­to do Partido Socialista socorreu-se de um gru­po de pre­cogs pa­ra aju­dar na ela­bo­ra­ção do pro­je­to de lei que con­tem­pla es­ta pres­ci­ên­cia mo­ral. Os pre­cogs são for­ma­dos por gen­te que con­si­de­ra que a pi­ra­ta­ria, a li­vre par­ti­lha de fi­chei­ros e os no­vos mo­de­los de ne­gó­cio on­li­ne lhes es­tá a dar ca­bo da lu­cra­ti­va ex­plo­ra­ção de ar­tis­tas e consumidores.

Estas pes­so­as con­si­de­ram que o pro­gres­so tec­no­ló­gi­co e os mei­os de que dis­po­mos pa­ra tro­car li­vre­men­te in­for­ma­ção são uma gi­gan­tes­ca cons­pi­ra­ção pa­ra as co­lo­car na po­bre­za e, co­mo tal, to­dos os que têm aces­so à Internet são culpados.

Os pre­cogs são for­ma­dos pe­la Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, a GDA/Cooperativa de Gestão dos Direitos dos Artistas, Intérpretes e Executantes, a Federação de Editores de Videogramas, a Associação pa­ra a Gestão da Cópia Privada, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e a Associação pa­ra a Gestão e Distribuição de Direitos.

O di­nhei­ro pro­ve­ni­en­te des­tas ta­xas pas­sa­rá pa­ra os bol­sos des­te ban­do de car­ra­ças eco­nó­mi­cas e cul­tu­rais, com al­gu­mas mi­ga­lhas dis­tri­buí­das pe­los artistas.

Estaremos por­tan­to a pa­gar pe­lo di­rei­to a co­pi­ar o que é nos­so, mes­mo nos ca­sos em que pro­te­ções di­gi­tais ba­se­a­das em DRM – qua­se to­dos os jo­gos, fil­mes e CD’s do mer­ca­do – nos im­pe­dem de co­pi­ar o que já com­prá­mos. Mesmo as­sim, pagaremos.

Graças ao pro­je­to de lei do PS e à co­ni­vên­cia dos po­lí­ti­cos das res­tan­tes ban­ca­das, to­dos ire­mos con­tri­buir pa­ra que os pre­cogs pos­sam com­prar um ja­cuz­zi mais con­for­tá­vel pa­ra fa­zer pre­di­ções mo­rais. Graças ao pro­je­to de lei so­ci­a­lis­ta mui­tos de nós ten­ta­rão, por to­dos os mei­os, com­prar es­ses pro­du­tos fo­ra de Portugal, des­vi­ta­li­zan­do uma eco­no­mia já imen­sa­men­te em­po­bre­ci­da. E to­dos te­rão uma ex­ce­len­te jus­ti­fi­ca­ção éti­ca pa­ra en­cher o dis­co rí­gi­do de ma­te­ri­al pirateado.

Os so­ci­a­lis­tas e de­mais com­par­sas no Parlamento irão per­mi­tir a cri­a­ção de uma so­ci­e­da­de de fric­ção ci­en­tí­fi­ca on­de to­dos os se­res hu­ma­nos são po­ten­ci­al­men­te la­drões, ban­di­dos e pa­ra­si­tas – por­tan­to, de acor­do com o es­pí­ri­to pre­cri­me da no­va lei em dis­cus­são, é jus­to tra­tar os la­drões, ban­di­dos e pa­ra­si­tas da SPA co­mo se já o fos­sem. É o meu di­rei­to – e ofereço-o de graça.

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

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