O protesto da ACAPOR

A ACAPOR, repre­sen­tan­te dos vide­o­clu­bes em Portugal, mon­tou uma bar­ra­qui­ta no Largo de Camões, em ple­no cen­tro de Lisboa, para pro­tes­tar con­tra a pira­ta­ria onli­ne.

Juntou-lhe uma acção melo­dra­má­ti­ca des­ti­na­da a cha­mar a aten­ção dos jor­nais, dei­xan­do um com­pu­ta­dor a fazer down­lo­ads ile­gais duran­te 24 horas segui­das, à vis­ta de todos, para demons­trar que é pos­sí­vel fazê-lo de for­ma impu­ne.

Enquanto sacam os fil­mes, os senho­res da ACAPOR podi­am ten­tar per­ce­ber – e têm 24 horas para pen­sar – por que razão a pira­ta­ria tem tan­to suces­so. Já que estão a brin­car aos pira­tas e se sen­tem eti­ca­men­te auto­ri­za­dos a fazer as mes­mas esco­lhas de quem saca fil­mes ou músi­ca de for­ma ile­gal, podi­am apren­der algu­ma coi­sa sobre a efi­ci­ên­cia dos gran­des sites de tor­rents.

Por exem­plo, os senho­res viram como é fácil encon­trar o que se pro­cu­ra e tê-lo à dis­po­si­ção no com­pu­ta­dor sem nada que pos­sa deli­mi­tar o uso que se lhe quei­ra dar? Notaram que é pos­sí­vel, atra­vés da pira­ta­ria, ter aces­so a obras cul­tu­rais que as indús­tri­as des­pre­zam, por não serem sufi­ci­en­te­men­te lucra­ti­vas?

Vamos supor que usa­ram o Demonoid para trans­fe­rir os fil­mes. Digo «trans­fe­rir» por­que os senho­res não «sacam», eu sei. Repararam como aqui­lo está tão bem orga­ni­za­do e é fácil de con­sul­tar? Uma pes­soa che­ga à pági­na, pro­cu­ra um fil­me em que está inte­res­sa­do e, dois minu­tos depois, tem à sua dis­po­si­ção um link para fazer o down­lo­ad. Digam-me os senho­res onde é pos­sí­vel ter aces­so a um ser­vi­ço des­ta cate­go­ria que seja legal – em lado nenhum.

E mes­mo que o assun­to seja músi­ca e não fil­mes, as difi­cul­da­des con­ti­nu­am: se eu sacar um dis­co da Net pos­so usá-lo como qui­ser, sem DRMs ou res­tri­ções de qual­quer espé­cie que me impe­çam, por exem­plo, de copi­ar ou empres­tar o que é meu – o que aca­ba por ser uma situ­a­ção curi­o­sa, pois enquan­to pira­ta sou tra­ta­do com mais res­pei­to e con­si­de­ra­ção do que enquan­to con­su­mi­dor pagan­te.

Direitos de autor? Claro. Já conhe­ço a con­ver­sa. Devemos ser a favor, cla­ro, deve­mos con­de­nar, com cer­te­za, e estar incon­di­ci­o­nal­men­te do vos­so lado por­que os senho­res que­rem ter as cos­tas quen­tes pela lei.

Vamos então falar de outro tipo de rou­bos e outro géne­ro de leis. Um dis­co ou um fil­me ven­di­do hoje a mais de 20 ou 40 euros aca­ba­rá os seus dias num cai­xo­te de pro­mo­ções oito a dez vezes mais bara­to – acon­te­ce com frequên­cia, estão a ver o dile­ma, e eu fico a pen­sar por que razão exis­te uma dis­cre­pân­cia tão gran­de entre os pre­ços, dado que esta­mos a falar do mes­mo pro­du­to e por­tan­to os cus­tos de pro­du­ção são os mes­mos. Bem sei que vive­mos num mun­do em que a novi­da­de está sem­pre infla­ci­o­na­da, mas pare­ce-me que deve­ria exis­tir uma linha mui­to níti­da que sepa­ras­se opor­tu­ni­da­de de negó­cio e abu­so de posi­ção, mes­mo que este este­ja san­ci­o­na­do por lei.

Uma vez que os repre­sen­tan­tes da indús­tria do entre­te­ni­men­to são pes­so­as de bem, sem­pre do lado da lei, hesi­to em dizer que se tra­ta de um rou­bo – mes­mo sen­tin­do que os meus direi­tos de con­su­mi­dor são espe­zi­nha­dos por sapa­tos da mes­ma mar­ca que os senho­res usam.

No que res­pei­ta à ini­ci­a­ti­va de hoje, esta­mos por­tan­to numa situ­a­ção iro­ni­ca­men­te seme­lhan­te: os senho­res usu­fru­em da pos­si­bi­li­da­de de fazer down­lo­ads ile­gais para denun­ci­ar a acção impu­ne de um gru­po de ladrões; eu faço exac­ta­men­te o mes­mo.

Marco Santos

­ Marco Santos

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