2/Novembro/2009

O apedrejamento verbal de Geyse Arruda

Geyse Arruda

Geyse Arruda, 20 anos,

estudante do curso de Turismo da unidade de São Bernardo do Campo, da Uniban (Universidade Bandeirantes), foi expulsa do campus por cerca de 700 alunos em fúria.

Motivo: usava um vestido demasiado curto. Geyse estava vestida assim, como nesta foto.

A confusão e o clima ameaçador que se gerou – alguns alunos cercaram-na, chamando-lhe «vagabunda» e «puta» – levou à intervenção da Polícia Militar. Só protegida pelos polícias – forçados a usar spray de gás pimenta contra os estudantes mais excitados – a aluna conseguiu abandonar as instalações da Universidade.

A cena passou-se a 22 de Outubro de 2009, século XXI, mas a exibição do vídeo dos acontecimentos no YouTube transformou o episódio num evento à escala global.

Devido à repercussão do caso, Geyse foi ao programa Geraldo Brasil, da TV Record, para se mostrar com o vestido rosa curto que despertou o furor inquisidor dos estudantes e contar a sua versão dos acontecimentos. O apresentador comparou o seu caso a Maria Madalena, a prostituta apedrejada do Novo Testamento.

Na entrevista, a jovem culpou também os professores e funcionários, acusando-os de participar no tumulto. «Os seguranças da faculdade, ao princípio, estavam a rir. Como é que um aluno vai ter uma atitude decente se os próprios professores e funcionários apoiam as hostilidades?»

Os seguranças da Uniban contam que um grupo de estudantes «do sexo masculino» começou a provocar a jovem assim que ela entrou no prédio. A aluna, ainda segundo os seguranças, teria respondido às provocações levantando parte do vestido, dando início à discussão.

O portal de informação online «O Último Segundo» esteve no campus da Uniban para ouvir a opinião dos estudantes que testemunharam – e participaram – das agressões verbais contra a aluna. O consenso entre os jovens ouvidos pela reportagem é o de que Geyse «conseguiu o que queria».

Um estudante de Educação Física afirmou que, de início, Geyse estava a gostar da atenção: «Quando gritavam ‘gostosa’, ela ria e desfilava», diz. «Depois começaram a ‘xingar’. Um grupinho começou e logo em seguida estava todo mundo gritando. Quem estava ali gritou. Não teve um que não gritou».

A agitação foi tanta que os colegas da turma de Geyse colaram papéis nas janelas da sala para que o professor pudesse prosseguir a aula, pois, lá fora, encostados ao vidro, alunos com telemóveis na mão aglomeravam-se para filmar a rapariga.

No intervalo, uma funcionária da escola ofereceu-lhe umas calças de ganga, mas a aluna recusou. «Acho que um vestido numa mulher é extremamente feminino. A minha roupa só a mim me diz respeito, respeito todo o mundo e quero ser respeitada», afirmou no programa de televisão.

Uma das alunas entrevistadas para a reportagem de «O Último Segundo» interpreta a escolha das roupas de forma diferente: «Se ela está vindo vestida desse jeito, alguma coisa ela quer». E outra: «Se eu vou vestida de palhaça, tenho consequências. Ela conseguiu o que queria: chamar a atenção».

Os argumentos destes estudantes brasileiros lembram as tristemente célebres declarações de um clérigo muçulmano, Sheikh al-Hilali.

Em Outubro de 2006, o clérigo acusou as mulheres australianas de serem as culpadas pelas violações de que são vítimas por «usaram vestidos curtos e caminharem nas ruas sem modéstia». O clérigo comparou-as a «carne destapada», deixada na rua. «Se os gatos vierem e comerem a carne, de quem é a culpa? Dos gatos ou da carne?»

Mas também temos destes problemas neste nosso mundo civilizado, não é? Quantas vezes uma mulher, vítima de violação, foi sub-repticiamente responsabilizada de ter «provocado» o violador? Existe até um caso clássico no meio jurídico português, conhecido como o Acórdão da Coutada do Macho Ibérico.

Nem todos os alunos pensam com esta mentalidade. Rafael Bruno, 22 anos, do curso de administração da Uniban, diz que os tumultos lhe fizeram lembrar «uma igreja evangélica cheia de fanáticos. A hipocrisia era igual». Thaiza Andreone, do mesmo curso e da mesma idade, diz que Geyse não é a única a usar «roupas ousadas» na faculdade. «Sempre tem umas meninas de top. Eu uso mini-saia e vestido curto, então isso tudo é uma tremenda hipocrisia».

«Posso ter errado por ter ido com o vestido», afirmou Geyse na entrevista à TV Record. «Mas o acto de vandalismo que fizeram comigo não se faz com ninguém».

62 respostas | O apedrejamento verbal de Geyse Arruda
  1. João fez-se à net com Firefox 3.5.4 Firefox 3.5.4 em Windows 7 Windows 7

    «Se os gatos vierem e comerem a carne, de quem é a culpa? Dos gatos ou da carne?»

    A “pequena” diferença é que o ser humano pode tomar decisões com recurso à razão.

  2. [...] O apedrejamento verbal de Geyse Arruda – Marco Bitaites [...]

  3. PL fez-se à net com Firefox 3.5.4 Firefox 3.5.4 em Windows 7 Windows 7

    Juro que gostava de comentar o acontecimento, mas não consigo. Não me sai nada.

  4. Alexandre fez-se à net com Firefox 3.5.4 Firefox 3.5.4 em Windows 7 Windows 7

    Bom post.

    E o Benfica no sábado, Marco? :mrgreen:

  5. bluewater68 fez-se à net com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista

    Marco,
    eu já conhecia o caso do blog do Maldonado, e faço esta pergunta: E qual é a tua opinião acerca desta história?
    Vamos esquecer toda a selvajaria incompreensível que se sucedeu, e focar apenas nisto «usava um vestido demasiado curto»

  6. Marco fez-se à net com GranParadiso 3.0.12pre GranParadiso 3.0.12pre em Windows XP Windows XP

    Bluewater, desta vez optei por dar a informação da forma mais neutral que me foi possível. Mas se leres este parágrafo

    Os argumentos destes estudantes brasileiros lembram as tristemente célebres declarações de um clérigo muçulmano, Sheikh al-Hilali. Em Outubro de 2006, o clérigo acusou as mulheres australianas de serem as culpadas pelas violações de que são vítimas por usaram vestidos curtos e caminharem nas ruas sem modéstia. O clérigo comparou-as a «carne destapada», deixada na rua. «Se os gatos vierem e comerem a carne, de quem é a culpa? Dos gatos ou da carne?»

    vês bem o que para mim é a base disto tudo: machismo e preconceito. Às tantas já estou como o PL: nem sei o que dizer.

  7. bluewater68 fez-se à net com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista

    Marco, aquilo tornou-se muito mais que machismo ou preconceito. De facto, só faltou mesmo enterrá-la, deixando-lhe a cabeça de fora, e apedrejando-a até à morte. Sobre isso, eu junto-me ao «é tão mau que nem sei o que dizer».
    A minha questão prende-se com o que ela própria disse «Posso ter errado por ter ido com o vestido». Eu tenho medo de ser interpretado como o retrógrado ou bota-de-elástico, mas, não deverá haver um limite para tudo? Ou pelo menos, haver um pouco de bom-senso?
    Eu recordo-me de um polémica quando abriu a Loja do Cidadão em Faro. A imposição de diversas regras de vestuário fez logo aparecer algumas vozes de discórdia, que era censura, que parecia a tropa, etc. Seria preferível que se optasse pela bandalheira para não ferir as liberdades de quem vai à Loja do Cidadão?
    «Geyse não é a única a usar «roupas ousadas» na faculdade» e devem ser aceites?

  8. Marco fez-se à net com GranParadiso 3.0.12pre GranParadiso 3.0.12pre em Windows XP Windows XP

    Bluewater, por isso mesmo é que acabo o post com a citação dela:
    «Posso ter errado por ter ido com o vestido» (…) «Mas o acto de vandalismo que fizeram comigo não se faz com ninguém».
    É uma miúda de 20 anos, porra. Agora quem veste vestido curto é puta, mesmo tendo em conta que, por uma questão de bom senso, não devia estar assim vestida numa Universidade?
    Esta mentalidade é muito perigosa, muito mais do que a questão do bom senso, porque em última análise leva a julgamentos semelhantes ao do tal clérigo muçulmano referido no post.

  9. Nelson Silva fez-se à net com Google Chrome 3.0.195.27 Google Chrome 3.0.195.27 em Windows 7 Windows 7

    Só tenho a dizer que fiquei absolutamente desiludido com o vestido, é curto, mas feio como o caraças desculpem lá, e a miuda apesar de gira, é gorda. Não olhava segunda vez muito sinceramente.

    Não entendo como aquilo pode chocar uma faculdade ao ponto de acontecer o que aconteceu. Acho que no final de contas, este é o efeito da demagogia religiosa que naquele pais vai.

  10. DiegoF fez-se à net com Firefox 3.5.4 Firefox 3.5.4 em Mac OS X 10.4 Mac OS X 10.4

    É um exemplo clássico de como o ser humano é extremamente influenciável e que o caos só existe quando há multidões. Duvido que todos aqueles que aparecem no vídeo sintam tal ódio pela rapariga, mas como estavam lá os amigos na palhaçada, e ela nem era grande flor, entraram pelo caminho mais fácil e estúpido. Acontece a mesma coisa nos estádios de futebol, nos cafés em dia de jogo, nas paragens de taxistas (sem querer generalizar). Natureza humana no seu melhor.