8/Novembro/2009

Não há segundas oportunidades para as «putas»

Geyse Arruda

O caso Geyse Arruda – a aluna de 20 anos forçada a abandonar a Universidade escoltada pela polícia por usar saia curta – teve um novo desenvolvimento: a Universidade Bandeirante decidiu expulsar a aluna.

A Universidade tomou a decisão após uma «sindicância interna constatar que a aluna teve uma postura incompatível com o ambiente da universidade, frequentando as dependências da unidade em trajes inadequados». Segundo o comunicado da Uniban, Geisy «provocou» os colegas ao fazer «um percurso maior que o habitual, desrespeitando princípios éticos, a dignidade académica e a moralidade».

Geyse tem 20 anos e cometeu um erro: usar aquele vestido na Universidade. Não sabemos a história toda. Geyse podia até não ser muito popular entre os colegas. Talvez fosse até uma convencida insuportável. Não sabemos.

Geyse cometeu um erro de avaliação e a Universidade não lhe deu oportunidade de aprender com o erro. A Universidade podia ter visto no caso uma oportunidade de transmitir aos alunos (e a Geyse) algumas lições sobre bom senso, sexualidade, postura e respeito.

Em vez disso, juntou-se à multidão velhaca e preconceituosa que a cercou aos gritos de «vagabunda» e «puta». Apoiou o apedrejamento moral de uma aluna de 20 anos porque considera que a exibição da sexualidade por parte de uma mulher – ainda que insensata e imatura, por ser na Universidade – só pode ter como objectivo «provocar» os colegas. A vagabunda. A puta. E os alunos, coitados, só defenderam o bom ambiente da Universidade.

Este caso não é apenas brasileiro, é uma vergonha universal. Envergonha e revolta todos aqueles que acreditam que o grande mal deste mundo é existir demasiada informação para tão pouca formação. No fim, como escreve Marcos Guterman, foi castigada a vítima.


Faculdade preconceito

Inscrição num dos muros da Universidade Bandeirante: 10 alunos foram suspensos, mas é a expulsão de Geyse Arruda que divide neste momento os universitários: segundo uma reportagem do G1, alguns concordam com a decisão da Faculdade, outros consideram-na ridícula. [Foto: Juliana Cardilli/G1]

Sobre este caso, ler: O caso da agressão a Geyse Arruda na Uniban, e a hipocrisia conservadora [Valorização do Professor] | Inacreditável: Uniban expulsa aluna [Escreva, Lola, Escreva] | Unitaliban: o total fracasso da Educação [Desemburrecendo] | Uniban expulsa Geyse! [Apoiadores da Loira da Uniban] | Ecos da expulsão que inaugurou uma ‘época despida’ [Josias de Souza] | Mais uma aluna é hostilizada em Universidade [Fiapo de Jaca]


Actualização: a Universidade já não vai expulsar a aluna (Escreva Lola Escreva)


Adenda: esta «notícia» do Diário de BarrelasGeyse Arruda negoceia sessão fotográfica com a Playboy – já enganou algumas pessoas, mas é falsa: o jornal Diário de Barrelas é um projecto online com notícias deliberadamente mentirosas, humorísticas, como no caso do americano The Onion. Os boatos de que tanto oiço falar devem ter nascido aqui.

Um pequeno exercício especulativo: vamos supor que a Playboy morde o isco e acena à jovem uma fortuna para posar nua. Se ela for insensata a ponto de aceitar fazer o ensaio, todos aqueles que a consideraram vagabunda irão pensar: Eu bem dizia. Na verdade, não se limitarão a pensar – vão gritar novamente.

Convém não esquecer que este caso não depende de uma pessoa chamada Geyse e dos erros que poderá vir a cometer ou dos defeitos que lhe apontarem. O que está em causa é um princípio que transcende nacionalidades ou julgamentos de carácter: não aceitar linchamentos públicos, muito menos quando são baseados no preconceito, intolerância, sexismo, inveja, hipocrisia ou estupidez. Tão simples como isto.

60 respostas | Não há segundas oportunidades para as «putas»
  1. Pergunto-me se por lá também serão costume as praxes degradantes que infligem aos novos alunos… Isso é que seria o cúmulo.

  2. Lola fez-se à net com Firefox 3.0.14 Firefox 3.0.14 em Windows Vista Windows Vista

    É impressionante a atitude da universidade, porque ela se pôs frontalmente contra a opinião pública. Ainda que muita gente culpe Geyse nos comentários, não li nenhum artigo publicado em jornal ou revista ou blog que a ataque. Todos consideram que os alunos e a universidade erraram.
    O lado bom é que fica fácil pra Geyse processar a Uniban. Sem essa atitude absurda da universidade, os advogados de Geyse teriam que provar que houve conivência da Uniban no seu linchamento moral. Com a expulsão e o anúncio publicado, a universidade assumiu sua total conivência.

  3. Maldonado fez-se à net com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows Vista Windows Vista

    É vergonhosa a atitude da UNIBAN. :(
    Isso demonstra que algumas universidades brasileiras em vez de serem um reduto do progresso, na realidade são meios obscurantistas.
    Ainda bem que cá estas coisas não acontecem!
    Oxalá que a vítima consiga processar a UNIBAN.

  4. O fato é que as Universidades particulares brasileiras são meros comércios de diplomas. Não há interesse interesse em ensinar e, muito menos, em aprender. O nível cultural dos diplomados é deprimente, há (muitíssimos) casos de alunos se formarem sem ler um único livro sequer.

    Mas é assim que as coisas funcionam no Brasil, a terra do fingimento. Aqui todos fingem. Os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem, só não se pode fingir o pagamento das mensalidades, ou são pagas de verdade ou a brincadeira acaba.

    Ainda falta ao brasileiro médio a capacidade de pensar. Falta abandonar a inércia destruidora da preguiça mental, e colocar os neurônios para trabalhar. Aqui, pensar é feio, e discordar é ser rebelde. Quem pensa ou age diferentemente da manada é imediatamente marginalizado, sem que haja sequer apreciação de seus atos ou pensamentos.

    E assim o País caminha, rumo à uma Copa do Mundo e uma Olimpíada que servirão, principalmente para manter o Povo alienado por pelo menos mais uma década.

  5. Jorge fez-se à net com Firefox 3.5.5 Firefox 3.5.5 em Windows Vista Windows Vista

    … é difícil acreditar/conceber que a UNIBAN decidiu apenas com base no que é sabido deste lado. A sê-lo é insuportavelmente hipócrita, até porque vem do país que nos deu a sunga e o fio-dental.
    Nestas coisas devemos criar opiniões, mas frisando que são condicionadas aquilo que nos é dado a conhecer… i.e., sim senhor, se a história é mesmo esta, raia a filha-da-putiçe por parte da UNIBAN; mas não saberão esses senhores da cobertura que o caso está a ter? terão tomado essa decisão de expulsar sem outras informações que deconheçemos (que a própria Uniban poderá ter escolhido sonegar para evitar, quiçá, a super-sobre-exposição da Geyse)?
    Acho mesmo que Geyse devia procurar outra universidade, visto que as condições à aprendizagem não estão reunidas (para ela, e provavelmente para muito outros que lá andam). Se ela fôr esperta saberá re-traçar a fronteira entre estar bem integrada na sociedade e ter a sua individualidade (e isso muda com o local).

  6. +1 bitaite: não é nada claro, para mim, que exista, como dizes no teu último parágrafo, demasiada informação. O que existe em muita quantidade, parece-me, são dados, opiniões e, claro, muitos-muitos bitaites. ‘A’ informação, que poderia suportar a formação individual e colectiva, essa, não é abundante — Miguel

  7. cris fez-se à net com Opera 9.64 Opera 9.64 em Windows XP Windows XP

    É verdade que não sabemos os factos todos. Mas da informação que me foi dada a conhecer, a minha reacção/percepção da coisa é que temos uma universidade que defende publicamente aquela alarvidade por detrás do “se uma mulher é violada é porque estava a merecer, provoca com aquele sorriso e depois não quer brincadeira, hã?”

  8. Se eu for para a escola de cu de fora, não me acontece nada. Esta vai de saias, é “morta” com tudo o que aparece à frente. Cada vez o mundo me mete mais nojo.

  9. Da próxima vez que um brasileiro me disser que os portugueses são chatos, cinzentos e reprimidos e que no Brasil é que é bom, festa, descontracção e sexualidade desinibida vou-me rir na cara dele até me doer a barriga.

    E não estou a dizer isto “só porque sim”. É uma conversa que, pelo menos, dois colegas brasileiros já tiveram comigo pessoalmente.

  10. Ana fez-se à net com Internet Explorer 8.0; Internet Explorer 8.0; em Windows Vista Windows Vista

    Depois de ler o artigo e de reflectir sobre o assunto,mt sinceramente,o q se discute aqui é,acima de tudo,a postura q cada um deve ter em determinados locais.Ou seja,adequar a nossa conduta c o espaço em q nos movemos.
    Como é óbvio,quando s evai a um casamento,usamos roupas de acordo c a ocasião,né?Então pq é que a menina Geyse,foi para um espaço em que se quer “clean” vestida como se fosse p nigth??Cada veste o que quer e de acordo c a personalidade de cada um,tudo bem,mas ir para faculdade ou p um funeral de cueca a mostra vai la vai looL

    Tenha maneiras,menina GEYSE :twisted: