5/Março/2009

Livro As Benevolentes arrasado pelos críticos

É inacreditável, mas um dos melhores livros que li nos últimos tempos – As Benevolentes, de Jonathan Littell, recentemente traduzido para inglês e que foi agora publicado na Grã-Bretanha e Estados Unidos – tem sido arrasado pela generalidade da crítica anglo-saxónica.

Eis alguns excertos antes de passarem à leitura dos artigos completos: «tão convincente como uma cruz de ferro plastificada»; «pretensioso»; «arrogante»; «parágrafos mastodônticos»; «demasiadas páginas em que somos sujeitos às grotescas fantasias sexuais do personagem principal»; «a sua loucura transforma o livro num espectáculo grotesco, como se estivéssemos num filme de terror a ver close-ups de sangue e tripas»; «este é um livro que tenta responder às grandes questões, e falha magnificamente»; «que tenha ganho dois dos mais importantes prémios literários em França é um exemplo não só da ocasional perversidade do gosto francês mas também da forma drástica como a atitude literária em relação ao Holocausto mudou nas duas últimas décadas: chegámos a um ponto em que uma novela de mais de 900 páginas onde se retrata um nazi psicopata que se alonga, em histriónico detalhe, nas barbaridades dos campos [de concentração], é aclamada pelo Le Monde como um vertiginoso triunfo

Podem consultar os artigos do New York Times, Times Online e Financial Times. A excepção (ou deverei dizer o gajo-do-contra) é, neste caso, Jason Burke, crítico do The New Observer, que louva As Benevolentes como um livro «que revela algo que é desesperado e deprimente mas, mais do que nunca, profundamente importante». Quem o leu sabe como Burke tem carradas de razão. Para mim foi uma leitura difícil mas inesquecível – e gostei tanto que até escrevi um testamento sobre o livro.

6 respostas | Livro As Benevolentes arrasado pelos críticos
  1. Cubano fez-se à net com Safari 3.2.1 Safari 3.2.1 em Mac OS X 10.4.11 Mac OS X 10.4.11

    De facto, li o livro por influência do Bitaites (obrigado Marco).
    Aceito que haja visões diferentes do livro, mas de facto, para mim foi surpreendente. Tanto mais por se tratar de um autor relativamente jovem mas com uma capacidade linguística impressionante.
    Quando souberem de novidades do Jonathan avisem…

  2. O Homem Que Sabia Demasiado fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows Vista Windows Vista

    Não me admira este confronto, dada a rivalidade histórica entre ingleses e franceses (neste caso, na área da crítica literária). Se os franceses falaram muito bem do livro, os ingleses teriam de odiar. E se os franceses tivessem manifestado desprezo, os ingleses respondiam com euforia. É típico.

    Quanto a mim, que também falei dele no meu poiso virtual, “As Benevolentes” é um fabuloso objecto literário.

  3. Marco Santos fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Ubuntu 8.10 Ubuntu 8.10

    Tens o link para o teu artigo sobre o livro?

    EDIT: Deixa, já encontrei.

  4. bernardo jardim fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows Vista Windows Vista

    Depois de ler este post não resisti a ler o primeiro que fizeste sobre este mesmo livro e fiquei com água na boca. Vou arriscar!

    Até lá, deixo-te duas dicas:

    A mancha humana, de Philip Roth

    Ficções, de Jorge Luís Borges

    O primeiro é de um escritor norte-americano sobejamente conhecido e reconhecido, mas que tardei em descobrir, apenas para me aperceber então que só andei a perder tempo. É um livro sobre hipocrisia, culpa, relações humanas, que desconstrói preconceitos como nenhum outro e que está maravilhosamente escrito. Não sei se já o conheces, mas se ainda não a partir de agora já não tens desculpa. :D

    O outro é de um argentino e eterno candidato ao Nobel, embora duvide que alguma vez o venha a receber, tal a peculiaridade da sua escrita e a dificuldade em categorizá-la. Confesso que demorei a entrar na coisa, especialmente devido à erudição do senhor (é preciso alguma bagagem), mas tenho de reconhecer que de tantos livros lidos até hoje, nunca encontrei tal capacidade criativa ou de argumentação lógica. Este é um livro de contos, qual deles o mais maravilhoso e imaginativo: inclui uma crítica a um livro que não existe, uma biblioteca infinita, uma execução que pára no tempo, espiões, crimes e tudo o mais que consigas imaginar. É ali que se vê e reconhece o que é a genialidade. É – que fique bem claro – obrigatório para alguém que ambicione escrever algo minimamente criativo e original.

    Escusado será dizer que foram os dois melhores livros que li em muito tempo. :)

    Um abraço!

  5. Marco Santos fez-se à net com GranParadiso 3.0.8pre GranParadiso 3.0.8pre em Windows XP Windows XP

    Bernardo, estou mais que convencido: esse livro do Jorge Luis Borges é o próximo que vou comprar, acredita.

  6. Pedro fez-se à net com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Mac OS X 10.4 Mac OS X 10.4

    Por exemplo: isto no NYT é mentira: “consisting of an endless succession of scenes in which Jews are tortured, mutilated, shot, gassed or stuffed in ovens, intercut with an equally endless succession of scenes chronicling the narrator’s incestuous and sadomasochistic fantasies.”
    Inacreditáveis os preconceitos…