→ 23/06/2009 @2:33

Janelas para o mundo [8]

A morte de Neda

NEDA | Neda Agha Soltan: iraniana, 26 ou 27 anos, morreu no sábado quando estava com o pai entre os manifestantes em Teerão, atingida no coração por um sniper das milícias Basij – forças paramilitares fundadas em Novembro de 1979 por ordem do Ayatollah Khomeini.

Neda

A morte é filmada pelos telemóveis dos manifestantes, chega à Web, primeiro via Twitter, depois YouTube, finalmente aos telejornais, uma morte estúpida e devastadora multiplicada milhares de vezes.

A Neda que nunca conhecemos termina os dias derrubada como um manequim de montra, os olhos sem expressão cruzam-se com os nossos, como se o manifestante que a filmou nos tivesse colocado entre ela e o caminho desconhecido que se prepara para seguir. Quando o sangue jorra pelo nariz e boca, a rapariga já passou por nós, o pai ainda grita (*) «não tenhas medo, Neda, não tenhas medo, fica comigo, Neda, fica comigo», mas essa Neda foi-se embora dois minutos depois de ser atingida a tiro.

Agora é a vez da Neda mártir, a Neda ícone, a que nos comoverá a todos para sempre, reencarnada em posters e t-shirts; a rapariga bonita e inocente cuja morte alimentará a nossa revolta e a hipocrisia dos governos ocidentais por muitos dias. [Foto: Bulent Kilic]

(*) Segundo o noivo de Neda, entrevistado pela BBC, o homem que surge no vídeo não é o pai, mas o seu professor de música.

Manifestação de iranianos em Istambul

Manifestação de iranianos em Los Angeles

Manifestante iraniano em Los Angeles

HIPOCRISIA | Como o presidente Truman astuciosamente observou a propósito de um cabrão qualquer na Nicarágua apoiado pelos EUA, o filho da puta que ganhou as eleições não é o nosso filho da puta – esse é o verdadeiro problema, esta é a origem de tanta preocupação e comoção pelo que os políticos ocidentais chamam de aspirações democráticas dos iranianos. Lembram-se do apoio americano ao sanguinário Saddam Hussein quando o Iraque invadiu o Irão?

Caso o filho da puta vencedor fosse nosso – um filho da puta mais maleável ao Ocidente, como o democrata e reformador Mousavi que em tempos pré-históricos apoiou a fatwa contra Salman Rushdie, que tipo de reacções políticas provocaria esta revolta?

A quantas mortes, ditaduras e regimes opressivos as nações guardiãs morais da Democracia têm fechado os olhos que agora choram pela pobre Neda?  [As duas últimas fotos: David McNew]

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